Então Jorge, o que é música boa?


De vez em quando, figurões da música brasileira gastam as pontas dos dedos para criticar o cenário musical, tanto brasileiro quanto mundial. O caso mais recente foi o de Jorge Vercillo, que rebaixou o cenário musical brasileiro e pôs a culpa na "imbecilidade" do povo, dizendo, entre outras coisas, que grande parte do Brasil "perdeu o ouvido harmônico musical e perdeu também o universo simbólico, a capacidade de interpretação de uma letra mais elaborada". Caso você queira ler o texto na íntegra (que não é muito longo), clique aqui.

Enfim, a questão é: música é arte. Por isso, o peso do subjetivo e do emocional é grande na hora de julgar se uma canção tem qualidade ou não, assim como ocorre com quadros, livros e estátuas. Mas ela também tem que ser analisada por critérios objetivos e racionais. O equilíbrio é a chave de tudo. 

O erro de Jorge foi colocar toda a responsabilidade no julgamento de uma música em critérios puramente racionais. E pior ainda, rebaixar todo um povo e um cenário cultural simplesmente por não usar os mesmos critérios que ele, o que na nossa opinião, é infantil e egoísta. Alguma pessoas podem dizer que é inveja por ele não ser lembrado pela grande mídia nem ser ouvido pelo grande público já faz muito tempo, mas isso já é teoria da conspiração.

Quem escuta tais hits que Jorge tanto despreza, como o citado 'Que Tiro Foi Esse?', de Jojo Maronttinni, sabe que esta música não é nenhuma 'Geni e o Zepelim', está ciente que a letra, a voz da cantora e sua batida não são exatamente uma obra de arte que deveria estar no Louvre. Mas ainda assim ouvem e gostam, pois ela é divertida e causa uma sensação de alegria em quem ouve, sendo muito apropriada para dançar. Estas pessoas estão erradas? Não. Mas Jorge está errado analisar música racionalmente? Também não! 

Há pessoas que sentem as músicas mais do que as analisam. E vice-versa. São características neutras, nem boas nem ruins, que dizem respeito somente ao ouvinte e à ocasião. Obviamente, em uma festa o peso da subjetividade é muito maior do que o da objetividade, enquanto em uma premiação de música, o peso da análise supera o do sentimento (ou pelo menos deveria, tá escutando, @Grammy?).

Obviamente, há quem atribua esse ressentimento dos figurões ao fato da música da periferia estar tomando o lugar que outrora foi dominado por eles, homens brancos de classe média alta. Nesse caso, essa repulsa seria muito mais em relação aos cantores e cantoras negros e pobres do que à música em si, o que é um sentimento verdadeiramente nojento, racista e classista. Será que todo esse rebuliço aconteceria se essa música fosse cantada por Ed Motta, Nando Reis ou outra figura canônica da música brasileira? Provavelmente não.

Resumindo, música é analisada utilizando tanto o subjetivo e emocional quanto o crítico e objetivo, e há um universo inteiro de artistas que suprem as necessidades de um ou de outro público. As pessoas podem tender para um lado ou para o outro, e isso não faz mal. Caro Jorge, talvez o lixo musical seja esse tipo de postura que tenta diminuir ou desmerecer a inteligência de um povo inteiro simplesmente pelo fato das pessoas não verem música da mesma forma que você e nem comungar com seus gostos musicais. Lamentável.
Então Jorge, o que é música boa? Então Jorge, o que é música boa? Reviewed by Wilson Barroso on sexta-feira, fevereiro 09, 2018 Rating: 5