Análise: Taylor Swift brinca com sua má-fama em 'Reputation'


Taylor Swift não é exatamente a cantora mais pacífica do pop americano. Na verdade, ela já teve rixas e discussões com várias outros personagens da mídia, como Kanye West, Nicki Minaj, Kim Kardashian Katy Perry, sem contar as várias faixas feitas para seus ex-namorados. Tudo isso criou uma má-reputação forte em cima da cantora, considerada mercenária, dramática, manipuladora e dependente de diss track para macho.

As pessoas podem falar o que quiserem de Taylor, mas não há como negar que a cantora é um verdadeiro gênio do marketing, pegando toda esta hostilidade em cima de si e transformando-a em música e em publicidade. E é disso que 'Reputation' se trata, explorando essa má-fama de várias formas, sem abandonar as canções de amor e de término de relacionamento. Sem dúvida é um álbum maduro (no sentido de ser bem trabalhado, pois a maturidade propriamente dita nas diss tracks pode ser questionada).

Este álbum tem dois pontos fortes. Primeiramente, as melodias são mais densas, sombrias e de certa formas experimentais e até mesmo incomuns no mainstream em algumas faixas, tudo isso com canções que tendem ao R'n'B, diferentemente do pop chiclete de '1989' e do country do começo da carreira da cantora. Em segundo lugar, a cantora trabalha o conceito da má-fama em uma porcentagem alta do álbum, apesar de haver várias faixas do estilo clássico da cantora, sob o disfarce da produção do álbum. No fim das contas, a velha Taylor não morreu, apenas está de atestado médico.

O álbum, lançado oficialmente em 10 de Novembro de 2017, está sendo um sucesso comercial absoluto. No fim de 2017, o álbum já somava 2 milhões de cópias comercializadas mundialmente, o que é um feito e tanto, considerando que a barreira dos sete dígitos está cada vez mais difícil de alcançar, por causa do streaming.

Veja nossa análise faixa a faixa:

1. ...Ready For It?
O abre-alas e segundo single do álbum faz a conexão entre '1989' e 'Reputation', e o trecho 'let the games begin' é muito apropriado para começar a audição de um novo trabalho. Ela soaria como uma música do 1989, se os versos tendendo ao rap, os sintetizadores rascantes e industrial pop não se fizessem tão fortes. O clipe tem efeitos maravilhosos, um verdadeiro banquete para os olhos dos fãs de computação gráfica, com referências a vários filmes e mangás sci-fi, como Ghost in a Shell e Blade Runner.


2. End Game feat. Ed Sheeran e Future
Trazendo influências do R'n'B e rap, essa faixa já traz o conceito do álbum com mais força, falando sobre a grande reputação que a cantora tem, citando que isso a fez ter grandes inimigos e perder alguns amigos, e que muito drama e boataria são gerados em cima disso. Nessa faixa descobrimos que rap não é exatamente o ponto forte de Ed Sheeran. O clipe é bonito, porém cansativo e, ao contrário dos boatos que rodavam antes de seu lançamento, Katy Perry não apareceu no vídeo.


3. I Did Something Bad
Brincando com sua fama de devoradora de homens, essa faixa fala sobre como Taylor gosta de brincar com eles (em vários sentidos, se é que você me entende), o que se choca com sua reputação de vítima, reforçada por várias faixas da cantora. Melodicamente, é a mais interessante até agora, com os sintetizadores e a bateria temperados por barulhos de armas de fogo.

4. Don't Blame Me
Se apoiando em clichê após clichê, essa música tem uma pegada gospel, com direito a coro e um coloratura bem inusitada de Taylor perto do fim. Contrastando com a faixa anterior, ela diz que tudo que a Taylor fez foi por amor, e que não vai parar com esse tipo de comportamento.

5. Delicate
As distorções na voz de Taylor nessa faixa são muito interessantes, combinando muito bem com a melodia mais discreta e lenta. Ela lida com a forma que a má reputação de Taylor interfere na forma que as pessoas a vêem, o que pode ser extrapolado para sua vida amorosa. O fato de um eventual término colocar um homem como vilão em uma das músicas de Taylor com certeza deve afastar alguns pretendentes.

6. Look What You Made Me Do
Primeiro single da era, que bateu o recorde de clipe mais visto em 24 horas no YouTube, é uma diss track para muita gente, além da imprensa em si. A intenção é ambiciosa, mas mal-executada, o diss é muito amador, só faltou chamar as pessoas a quem ele se referia de 'feios, bobos e chatos', isso sem contar que a parte do telefone é um pouco clichê, apesar de ter se tornado um bom meme. No entanto, a nova melodia, mais pesada e densa, com sintetizadores que evocam um clima de perseguição, já evoca toda a nova sonoridade de 'Reputation'. O clipe é uma metralhadora de referências visuais, melhor explicadas aqui.
 

7. So It Goes...
Mais uma música sobre sexo, ela parece pegar o gancho de "I Don't Wanna Live Forever', seu dueto com Zayn para o filme 'Cinquenta Tons Mais Escuros'. A melodia R'n'B faz dessa música algo que esperaríamos encontrar em um álbum de The Weeknd.

8. Gorgeous
Esta faixa fala sobre seu atual namorado Joe Alwyn, em uma melodia muito divertida, que parece vinda de um jogo de video game. Ou seja, é uma prova de que Taylor se reinventou, mas não tão drasticamente quanto o prometido.

9. Getaway Car
Com distorções, essa música parece ter vindo do álbum '1989', se assemelhando a 'Out of The Woods' em algumas partes, tanto pela batida quanto pela melodia retrô. Aqui Taylor mostra seu talento como contadora de histórias, em uma letra que poderia ser a vida amorosa de qualquer um de nós.

10. King of My Heart
Apesar de parecer uma bagunça, com cortes e mudanças súbitas, é uma das melhores faixas do álbum. Os sintetizadores e as distorções estão perfeitos, e a batida de bateria do breakdown é um tempero a mais. A letra diz que Taylor não se importa com dinheiro, e que só quer um homem que a ame.

11. Dancing With Our Hands Tied
Com influências pesadas do trip hop e do drum'n'bass, Taylor relembra um amor do passado. O refrão é bem inusitado para a discografia de Taylor, e os sintetizadores parecem com algo que  artistas experimentais como Iamamiwhoami ou Grimes usariam.

12. Dress
Essa é mais uma canção de amor como muitas na discografia da cantora, mas dentro do contexto melódico do álbum, é algo como 'The Story of Us' versão industrial pop/trip hop.

13. This Is Why We Can't Have Nice Things
"Bad Blood" parte 2, tanto na melodia quanto no contexto. Essa música é uma pausa na parte Taylor-amorzinho do álbum, sendo mais um shade para alguém, com o plot situado em uma das festas da cantora. O destinatário do diss pode ser qualquer um da extensa lista negra da cantora, mas os fãs apontam Kanye West para esta posição. A melodia é um pouco arrastada, apesar da percussão e do teclado. 

14. Call It What You Want
Mais uma faixa sobre sexo. Aparentemente, a má reputação de Taylor a tirou alguns de seus amigos, mas a está proporcionando noites maravilhosas. Mais lenta e sensual, seus sintetizadores foram muito bem escolhidos e combinam bem com a melodia.

15. New Year's Day
A faixa mais acústica do álbum, uma mera balada governada pelo piano, ela também é mais singela. O álbum se encerra com uma faixa de amor simples, onde Taylor aproveita o ano novo com seu amado, longe de toda a má reputação. Limpar o ambiente depois da festa é uma boa metáfora para uma Taylor que pretende recomeçar, tentando encerrar o ciclo da má reputação.


Análise: Taylor Swift brinca com sua má-fama em 'Reputation' Análise: Taylor Swift brinca com sua má-fama em 'Reputation' Reviewed by Wilson Barroso on domingo, fevereiro 11, 2018 Rating: 5