Análise: Lady Gaga expõe o lado podre da fama em 'The Fame Monster'


Havia muito tempo que ninguém sacudia a indústria fonográfica americana como Lady Gaga fez quando surgiu no mainstream. Com looks estranhos (alguns icônicos), clipes super bem produzidos e uma tentativa declarada de elevar o nível do pop americano, a cantora foi um verdadeiro furacão ao lançar seu debut 'The Fame' em 2008.

Com o objetivo inicial de simplesmente relançar o 'The Fame', oito músicas foram gravadas, mas por serem o total oposto das ideias do álbum ('yin-yang', de acordo com Lady Gaga), elas foram lançadas à parte em um disco chamado 'The Fame Monster', considerados por muito um EP, apesar da própria cantora considerá-lo um álbum, com estética e conceito próprios. Eis que em 18 de Novembro de 2009, 'The Fame Monster' viu a luz do dia. Há também edições duplas, que contam com os dois álbuns.

É raro ver no pop americano um álbum com o conceito tão robusto. Cada uma das músicas é um 'monstro', um medo adquirido pela cantora depois do contato com a fama, ou seja, o total oposto de 'The Fame', que lida com a fama de forma otimista e até mesmo um pouco ingênua. A própria sonoridade é diferente: dessa vez as melodias são mais densas e industriais; e as letras um pouco mais refinadas, algo que seria levado à potência máxima em 'Born This Way'.

O público amou a surra de conteúdo que estava levando, principalmente de um álbum que não baseava sua promoção em vender conceito. O álbum vendeu até hoje pouco menos de seis milhões de cópias mundialmente e proporcionou a 'The Monster Ball Tour', até hoje a sétima turnê solo feminina mais rentável da história.

Veja nossa análise faixa a faixa:

1. Bad Romance
O primeiro single e um dos maiores hits do álbum (talvez o maior), essa faixa electropop/damcepop com influências techno agarrou o público, inclusive pelos seus ganchos memoráveis, como 'roma roma-ma, Gaga-oh-la-la' que até hoje soam familiares. Sua letra fala basicamente sobre medo de amar excessivamente, a ponto de não apenas tolerar, mas apreciar os comportamentos destrutivos da pessoa amada.

Seu clipe abusa dos looks únicos e exóticos pelos quais a cantora é conhecida até hoje. A ideia principal por trás do vídeo é de Lady Gaga sendo drogada e sequestrada por uma máfia de supermodelos, dos quais ela consegue escapar seduzindo um dos chefões. Todo esse plot é intercalado com cenas coreografadas.


2. Alejandro
O terceiro single do álbum mantém a fórmula electropop/dancepop da faixa anterior, mas a decora com elementos acústicos (principalmente no começo) e uma influência das melodias de bandas dos anos 70 e 80 como ABBA e Boney M, principalmente na introdução da faixa, mais acústica. O monstro que Gaga exorciza nessa faixa é o medo dos homens e do que eles podem fazer para tê-la para si.

Seu clipe traz muitas referências ao clássico musical Cabaret, principalmente na ambientação e na coreografia, e é complexo e cheios de pontos para analisar. De forma resumida, mostra Lady Gaga como uma grande comandante, que participa de um cortejo carregando um coração congelado repleto de pregos, a frente de seus soldados trazendo um caixão. A cena da freira engolindo o terço seria uma forma de se ligar à religião para expulsar a influência desse homem capaz de tudo na vida da cantora, traçando um paralelo entre o medo do que ele possa fazer com um espírito das trevas.


3. Monster
A primeira faixa escrita para o projeto, 'Monster' tem sua melodia dancepop industrial e obscura, com sintetizadores e distorções super bem posicionados. O monstro a ser vencido agora é o medo da auto-sabotagem amorosa, em que a cantora recusa um relacionamento saudável e seguro para ficar com uma pessoa agressiva, perigosa e de caráter duvidoso, que provavelmente apenas quer a cantora para o sexo. Muitos fãs da cantora lamentam o fato dessa música não ter se tornado single.

4. Speechless
Esta é a faixa mais acústica até o momento, onde os sintetizadores são diminuídos em favor do baixo, da guitarra e do piano, o que a torna soft rock, de certa forma. Ela lida com o medo da morte, em particular da morte da morte evitável de uma pessoa querida, que não pensa muito no efeito de seu falecimento na vida de outras pessoas. A letra foi escrita para o pai da cantora, que passou por problemas cardíacos e demorou a ser convencido a fazer a cirurgia necessária.

5. Dance in the Dark
Esta faixa chegou a ser single promocional do álbum, mas não ganhou um clipe, para o desespero de toda uma fanbase. Com uma batida bem marcada e melodia synthpop carregada e oitentista, 'Dance in the Dark' representa o monstro mais explícito ligado à fama, o medo da observação excessiva do público, da falta de privacidade e da exploração midiática em cima dos defeitos e inseguranças de alguém, ou seja, mais ou menos o que as pessoas tem feito com a cantora por causa de sua fibromialgia.

Perto do fim da música, há uma espécie de breakdown onde a cantora cita o nome de algumas personalidades que tiveram a vida prejudicada pela exposição excessiva como Marilyn Monroe, Judy Garland, Jesus Cristo e a princesa Diana de Gales.

6. Telephone feat. Beyoncé
Talvez a canção mais radiofônica do álbum, o segundo single do álbum é uma faixa dance-pop com tendência ao rap em algumas partes, principalmente nos solos de Beyoncé. Os sintetizadores ocupam menos alguns pedaços da faixa, mas não tanto quanto 'Speechless'. Aqui, Lady Gaga ataca o monstro do medo do compromisso e de ter a liberdade reduzida, tanto por um homem quanto pela mídia.

Seu clipe é uma obra de arte à parte, considerado por muitos portais especializados como um dos melhores clipes da década. Nele, Lady Gaga vai para a cadeia depois dos eventos do clipe de 'Paparazzi', escapa e comete mais crimes com a ajuda de sua parceira Beyoncé. Estamos até hoje esperando uma continuação à altura, dona Gaga.


7. So Happy I Could Die
Utilizando sintetizadores oitentistas que lembram vagamente os de 'Dance in the Dark', esta faixa traz também uma batida de bateira muito bem marcada. Seu autotune suave traz a impressão de que a música está 'ecoando' levemente, o que é mais um referência à música dos anos oitenta. Em 'So Happy I Could Die', Lady Gaga discorre sobre o monstro do medo do álcool, que traz sensações boas, mas é que muito perigoso. A faixa também traz várias insinuações sexuais, o que de certa forma tem relação com a ideia principal.

8. Teeth
Finalizando o álbum, Lady Gaga traz uma faixa um pouco mais acústica, que traz instrumentação do R'n'B e do jazz, com sintetizadores que imitam bateria, corneta e saxofone, o que a dá um clima burlesco, inclusive bela batida bem demarcada. O último monstro que Gaga enfrenta é o da verdade, que pode ser dura de encarar, apesar de superficialmente poder também falar sobre sexo oral.


Análise: Lady Gaga expõe o lado podre da fama em 'The Fame Monster' Análise: Lady Gaga expõe o lado podre da fama em 'The Fame Monster' Reviewed by Wilson Barroso on domingo, fevereiro 25, 2018 Rating: 5