Análise: Janet Jackson faz um ensaio sobre o sofrimento em 'The Velvet Rope'


Janet Jackson é uma das figuras mais importantes da cultura pop americana, principalmente entre os anos 80 e 90, além de ser a única componente da família Jackson a estourar e ter uma carreira consolidada como cantora, sem viver à sombra de seu irmão, o rei do pop Michael Jackson. Mas assim como o irmão, a vida de Janet foi marcada por um série de problemas graves.

Depois de ser atingida por um colapso mental após a 'Janet World Tour', a cantora se viu encarando uma depressão séria, catalisada por diversos traumas sofridos durante a infância e adolescência, em parte causados pelo comportamento abusivo de seu pai. Entre os diversos problemas, podemos citar automutilação, anorexia e uma autoestima perigosamente baixa. Todos esses problemas, fermentando no coração da cantora por vários anos, explodiram em um álbum conceitual, voltado para a introspecção, onde Janet coloca toda essa dor para fora. E não foi uma experiência fácil, os próprios produtores Jimmy Jam e Terry Lewis disseram que em vários momentos a cantora precisava parar por alguns instantes para se recuperar.

O próprio título do álbum é um símbolo da solidão da cantora. 'The Velvet Rope', ou 'o cordão de veludo' é um tipo de corda que separa a área VIP de um local do resto, um símbolo da desumanização da cantora em relação às outras pessoas. Lançado em 7 de Outubro de 1997, este álbum vendeu mais de 3 milhões de cópias nos Estados Unidos, somando mais de 10 milhões mundialmente.

Todas essas questões psicológicas são derramadas no álbum. Mas além delas, Janet (que compôs ou co-compôs quase todas as faixas de 'The Velvet Rope') também abordou temas como problemas sociais, homofobia e AIDS, além de ter mergulhado na própria sexualidade de forma profunda, algo que tinha sido feito por mulheres poucas vezes no mainstream americano. Musicalmente, é um álbum pop e R'n'B, mas que traz influências fortes do hip hop e trip hop. Inclusive, este álbum é considerado por especialistas como um dos precursores do 'R'n'B alternativo', algo que alcançaria o auge da popularidade no década de 2010, com artistas como Frank Ocean, The Weeknd e Solange.

Veja nossa análise faixa a faixa

1. Interlúdio: Twisted Elegance
O primeiro interlúdio do álbum é uma pista que Janet dá ao ouvinte sobre o que é o álbum. Com voz de rádio com sinal fraco, a cantora diz, em tradução livre: "Elegância distorcida. É minha crença que todos nós precisamos no sentir especiais. E essa necessidade pode trazer o melhor de nós. Mas também o pior de nós. Essa necessidade criou 'The Velvet Rope'".

2. The Velvet Rope feat. Vanessa Mae
Esta é uma faixa preparatória, onde Janet pede ao ouvinte para se livrar de todo ódio e preconceito antes de ouvir o que a cantora tem a dizer. Sua melodia, uma fusão inusitada de R'n'B eletrônico com solos de violino de Vanessa Mae, é algo sem paralelo na carreira de cantora, atestando que o que vem por aí é diferente do comum.

3. You
Em seguida temos uma faixa que soa melodicamente mais clássica. O quinto single do álbum um R'n'B sensual e levemente eletrônico que traz a cantora usando uma voz mais grave e profunda em algumas partes, onde assume o papel de uma terceira pessoa criticando Janet por se diminuir demais para agradar e satisfazer as necessidades dos outros. É um indício da raiz de muitos dos problemas pelos quais Janet estava passando. Seu clipe é simples, apenas mostra cenas da 'The Velvet Rope Tour'.


4. Got 'til It's Gone feat. Q-Tip e Joni Mitchell
O primeiro single do álbum é uma das faixas que colocaram nas costas de 'The Velvet Rope' a honra de dar origem a todo um estilo, no caso o R'n'B alternativo. Com influências do hip hop e trip hop, esta faixa também traz distorções e vocalizações interessantes e grudentas, além de um sample de 'Big Yellow Taxi', de Joni Mitchel. Já a letra fala sobre arrependimentos em relação a um amor do passado. O clipe se passa num contexto de apartheid, e é um verdadeiro manifesto de empoderamento da cultura negra.


5. Interlúdio: Speaker Phone
Este interlúdio introduz o segundo bloco do álbum, onde Janet fala sobre o que pensa sobre sexo. Ele mistura uma conversa ao telefone com um trecho de 'I Get Lonely', uma faixa que aparece mais para frente no álbum.

6. My Need
Ao colocar suspiros e um quase imperceptível toque de sintetizador em uma melodia R'n'B que é ao mesmo tempo suave e acelerada por causa da bateria, todo um clima sensual é criado para explorar a libido e a necessidade de prazer que a cantora (e a maior parte das pessoas) tem.

7. Interlúdio: Fasten Your Seatbelts
Com sons de sirene e de uma conversa descontraída, este interlúdio nos alerta que no terceiro bloco de 'The Velvet Rope' Janet vai explorar questões sexuais com mais detalhe e intensidade.

8. Go Deep
O quarto single do álbum é uma faixa pop com uma batida de bateria poderosa e influências do funk dos anos 80 que fala sobre ir dançar e terminar a noite com um homem achado em uma festa, defendendo o direto da mulher a ter sexo casual sem sofrer slutshamming, ou seja, sem ser humilhada e desconsiderada só pelo fato de ter uma vida sexual ativa. O clipe é divertido, mostrando a cantora aparecendo em uma festa no sonho de um rapaz.


9. Free Xone
Trazendo elementos elegantes do funk dos anos oitenta e do drum and bass para uma faixa R'n'B com vários samples (uma característica do hip-hop), nessa faixa Janet veste a carapuça de seus amigos e defende a classe LGBT, criticando a homofobia com uma certa dose de sarcasmo. Contém samples de 'Think (About It), de Lyn Collins; 'Tighten Up', de Archie Bell & The Drells; e 'Joyous', de Pleasure.

10. Interlúdio: Memory
Deixando claro que o quarto bloco do álbum será nostálgico, este interlúdio traz apenas uma voz distorcida falando, em tradução livre: "você não precisa se apegar à dor para se apegar à memória".

11. Together Again
O segundo single do álbum é uma homenagem aos amigos de Janet que morreram por causa da AIDS, mas está longe de ser uma música melancólica: ela leva a mensagem de 'Memory' ao pé da letra, trazendo uma melodia animada, com tendência ao disco e ao dancepop logo depois de uma breve introdução mais lenta. O clipe, gravado na Tanzânia, intercala cenas de Janet coreografando com dançarinos com outras onde todos os humanos envolvidos estão em interagindo com animais da savana.


12. Interlúdio: Online
Para introduzir o quinto bloco de canções, Janet escolheu usar apenas sons de um computador sendo ligado.

13. Empty
Em 1997, um ano onde internet e as redes sociais estavam em seus primórdios, Janet previu o futuro e escreveu uma música que fala sobre a sensação de vazio que as pessoas sentem quando interagem apenas virtualmente umas com as outras. Por isso, soa muito atual. Para passar a mensagem, ela praticamente constroi a melodia em cima de sons de computador, com pouca instrumentação a mais. R'n'B alternativo, lembra?

14. Interlúdio: Full
Pegando o gancho da música anterior, para introduzir o sexto bloco de músicas (que explora com mais força os problemas românticos/amorosos de Janet", ela simplesmente diz, em tradução livre: "quão vazio da minha parte ser tão cheia de você".

15. What About
Aqui Janet usa o recurso intercalar duas entonações e ritmos diferentes para chocar duas ideias opostas, no caso uma voz tranquila e uma melodia que lembra música ambiente para representar os bons momentos em um relacionamento e uma explosão de voz raivosa e melodia soft rock onde a cantora fala sobre os momentos em que foi traída e abusada por um parceiro. Resumindo, pode ser vista como uma música sobre o ciclo de um relacionamento abusivo.

16. Every Time
Considerada pela mídia especializada como uma das melhores baladas de Janet Jackson, o sexto e último single do álbum é uma faixa pop delicada e tocante, o que combina com a voz suave da cantora. A música é uma espécie de complemento de 'What About', falando do medo de sofrer os abusos mencionados na faixa anterior quando a cantora tenta um relacionamento novo. O clipe é igualmente delicado e tranquilo, mostrando a cantora cantando na água.


17. Tonight's the Night
Esta faixa é um cover de Rod Stewart, originalmente lançada em 1976. Na interpretação de Janet, ela fala sobre uma mulher que toma a iniciativa quando o assunto é sexo. As insinuações lésbicas nessa versão geraram controvérsia na mídia, mas foram rebatidas pela cantora. Sua melodia é suave, pop com influências do trip hop, o que deixam 'Tonight's the Night' suave e até mesmo relaxante.

18. I Get Lonely
Terceiro single do álbum, essa faixa lida com momentos de carência em que ficamos tentados a voltar com um ex-parceiro, apesar do sofrimento durante o relacionamento. Para isso, Janet usa uma melodia R'n'B com backing vocals muito presentes, principalmente no gancho e no refrão. O clipe, além de cenas lindas de dança, ainda mostra toda a sensualidade e sex appeal da cantora.


19. Rope Burn
Aqui Janet se dá o direito de explorar seus fetiches e desejos sexuais mais controversos, como o BDSM, de uma forma pouco explorada até então pelas cantoras do mainstream americano. Para dar o clima, ela usa suspiros sugestivos, backing vocals e melodia R'n'B com influências do jazz.

20. Anything
Complementando 'Rope Burn', esta faixa fala sobre sentir tanto prazer em dar prazer para outra pessoa a ponto de se fazer tudo para agradá-la. A melodia também dá essa sensação de continuidade, pois continua na mesma vibe da faixa anterior, com poucas diferenças, apenas o suficiente para tornar possível distinguir uma da outra.

21. Interlúdio: Sad
Com barulho de trovão e de pássaros, essa faixa abre o sétimo e último bloco de músicas, dizendo, em tradução livre: "Não há nada mais deprimente do que ter tudo e se sentir triste. Você precisa aprender a irrigar seu jardim espiritual".

22. Special
Teoricamente a faixa final, 'Special' termina o álbum de uma forma muito bem amarrada, pois retoma as ideias do primeiro interlúdio de 'The Velvet Rope'. Basicamente, resume a necessidade de se sentir especial e dar amor à criança interior, muitas vezes abusada ou negligenciada, passando por cima da dor e lidando com o passado sem deixar o sofrimento vir à tona. A melodia tranquila com piano, baixo e bateria, e o coro que aparece perto do fim, reforçam a sensação de superação que a letra passa.

23. Can't Be Stopped
Ghost track do álbum, que começa depois de um período de silêncio depois do fim de 'Special', a letra dessa faixa tem o objetivo de dar força para pessoas que são vítimas de algum tipo de discriminação, particularmente racismo e homofobia. É uma canção R'n'B com elementos do funk e do trip hop que apesar de muito boa, dá a sensação de estar no lugar errado do álbum, já que 'Special' encerrou o disco de forma tão redonda.


Análise: Janet Jackson faz um ensaio sobre o sofrimento em 'The Velvet Rope' Análise: Janet Jackson faz um ensaio sobre o sofrimento em 'The Velvet Rope' Reviewed by Wilson Barroso on domingo, fevereiro 18, 2018 Rating: 5