Análise: Lily Allen abusa da língua afiada em 'It's Not Me, It's You'


Se em 'Alright, Still', seu primeiro álbum, Lily Allen conquistou seu espaço utilizando sua voz macia e tranquila para transmitir letras recheadas de ironia e sarcasmo, em seu segundo álbum, a cantora se estabeleceu como rainha do deboche.

'It's Not Me, It's You' foi lançado mundialmente em 4 de Fevereiro de 2009 e, a exemplo de seu primeiro álbum, foi um sucesso estrondoso, principalmente no Reino Unido, onde ultrapassou um milhão de cópias vendidas. Mundialmente, o segundo álbum de Lily ultrapassou 2 milhões de cópias comercializadas.

Este trabalho marca uma mudança de direção musical. Enquanto em seu primeiro álbum a cantora atrelava a suas canções pop melodias que tendem ao reggae e ao ska, em seu segundo trabalho Lily foi mais em direção ao electropop, além de tomar para si certas influências do country e mesmo do jazz em algumas faixas.

Já as letras em geral continuam com o teor ácido e crítico que tanto encantaram os fãs de Lily, mas neste álbum podemos ver um pouco mais da fragilidade e das questões internas da cantora, mostrando um certo amadurecimento de sua parte. Em  ambos os casos, as letras são bem compostas, ou seja, neste quesito 'It's Not Me, It's You' oferece o melhor dos dois mundos.

Veja nossa análise faixa a faixa:

1. Everyone's At It
Lily abre o álbum com uma amostra muito boa de sua sonoridade, jogando o electropop já na nossa cara, aliando os sintetizadores com a bateria e o teclado. Mas o maior mérito dessa faixa é a letra, que critica a hipocrisia do fato da maioria das pessoas em público condenar e rejeitar as drogas, mas usá-las quando ninguém está olhando, sejam elas lícitas ou ilícitas.

2. The Fear
Soando mais limpo, o primeiro single do álbum é super elegante. Ao lado dos sintetizadores, que só aparecem com força no gancho e no refrão, temos bateria e teclado acompanhando. A letra não é direta e objetiva como na faixa anterior, mas é muito irônica, falando sobre 'futilidades' como fama e dinheiro, no ponto de vista de uma pessoa que faria o que fosse preciso para obtê-los, criticando também a própria sociedade de consumo em massa, que incentiva esse tipo de postura.


3. Not Fair
No segundo single do álbum, Lily faz uma crítica a algo mais particular, mostrando sua versatilidade ao trazer influências pesadas do country, como o banjo e a batida da bateria, para uma faixa electropop tão querida pelos fãs. A letra fala sobre insatisfação com um homem aparentemente dos sonhos, romântico e cuidadoso, mas que transa mal. O clipe da canção é uma reconstrução (um pouco estereotipada) de shows musicais country da televisão dos anos 70.


4. 22
O quarto single de 'It's Not Me, It's You' complementa ao crítica feita em 'The Fear' em relação à sociedade de consumo. Enquanto em 'The Fear' a personagem anseia por ter a vida idealizada, como passada pela mídia, aqui ela se sente mal por não ter conquistado o que essa mesma sociedade esperava dela. Talvez seja a mesma personagem, o que tornaria essas duas faixas um clássico 'expectativa versus realidade'. Sua melodia mescla electropop com os instrumentos de corda do jazz, que aparecem principalmente no gancho.


5. I Could Say
Pela primeira vez no álbum, Lily se despe de sua persona irônica e crítica, em uma balada relativamente dançante repleta de sintetizadores lindos que é uma verdadeira DR, falando sobre um relacionamento destrutivo que felizmente, chegou ao fim.

6. Back To The Start
Mantendo o clima íntimo e pessoal de 'I Could Say', aqui a cantora assume seus erros, sendo uma faixa que é um pedido de desculpas da cantora para sua irmã mais velha Sarah, com quem a cantora havia brigado feio algum tempo antes. Até agora, essa é a faixa com a melodia eletrônica mais pesada, mas sem abandonar os instrumentos orgânicos como bateria e glockenspiel.

7. Never Gonna Happen
Voltando a ser a Lily irônica e amargurada, nessa faixa a cantora rejeita de vez uma pessoa que tenta retomar ou continuar um relacioamento a cantora, em uma letra que é um verdadeiro soco na cara. A melodia é gostosa e começa meio country, sendo que a gaita continua a acompanhar os sintetizadores eletrônicos à medida que eles aparecem.

8. Fuck You
Uma das faixas mais conhecidas de Lily, o terceiro single do álbum tem uma melodia fofa e um tanto infantil, o que mascara sua verdadeira intenção, a de ser uma diss track para o presidente dos Estados Unidos George W. Bush, mas acaba sendo também um hino LGBT, por rebater homofobia de uma forma super direta e literal.


9. Who'd Have Known
O quinto e último single da era é a canção do álbum que menos tem o estilo de Lily, pois é uma história de amor otimista, focando nos primeiros momentos bons de um relacionamento. A melodia é suave e calma, com sintetizadores que lembram uma caixinha de música e bateria lenta. O clipe conta com um sósia de Elton John, em um plot onde Lily é uma stalker do cantor.


10. Chinese
Nessa faixa a fragilidade da cantora é exposta, falando sobre a saudade que Lily teve da mãe enquanto estava fora, em turnê. Ela é bem nostálgica, citando os momentos que as duas compartilham, como ver televisão assistindo comida chinesa (daí o nome da música). Poderia ter sido um ótimo single, pois a voz doce de Lily e o refrão explosivo combinam maravilhosamente com os sintetizadores, que tentam imitar melodias orientais em alguns momentos.

11. Him
Aqui Lily parece fazer uma crítica a Deus, mas na verdade, se trata de uma crítica irônica à imagem do divino passada pelas religiões mais comuns, não à divindade em si. A melodia é electropop suave e gostoso de ouvir, sem abrir mão da bateria e do teclado.

12. He Wasn't There
Abandonando a metafísica, o disco é encerrado por uma faixa que tende ao jazz, onde o efeito de disco de vinil dá à faixa um clima vintage, mas apesar de ter esse detalhe que a destaca do resto do álbum, não é uma faixa memorável. A letra é uma espécie de declaração de perdão ao pai da cantora, que foi bastante negligente em sua criação.


Análise: Lily Allen abusa da língua afiada em 'It's Not Me, It's You' Análise: Lily Allen abusa da língua afiada em 'It's Not Me, It's You' Reviewed by Wilson Barroso on domingo, janeiro 07, 2018 Rating: 5