Análise: Indila abre as fronteiras do mundo em 'Mini World'


Adila Sedraïa, mais conhecida como Indila, é uma das mais importantes revelações da música francesa dos últimos anos. Nascida em Paris, Indila carrega ascendência argelina, egípcia, cambojana e indiana, se considerando um 'criança do mundo', em suas próprias palavras. Tamanha miscigenação racial e cultural influenciou as escolhas musicais da cantora, que mescla pop francês com trejeitos e influências que evocam sua origem.

Apesar de já ter aparecido em faixas de artistas como Nessbeal e Youssoupha, seu primeiro (e até hoje o único) álbum de estúdio, 'Mini World', foi lançado em 24 de Fevereiro de 2014, atingindo o sucesso imediatamente. Na França o álbum alcançou a classificação de disco de diamante, somando mais de 650 mil cópias no país e mais de 850 mil mundialmente. 

'Mini World' é um álbum pop, com influências de techno e chanson française, temperado com as influências norte-africanas da herança cultural de Indila, mas não a ponto de tornar este trabalho propriamente folk. Toda essa atmosfera complementa muito bem a voz aguda, doce e bastante particular de Indila, que encanta sem se apoiar em exageros e ornamentações vocais.

Tematicamente, é um trabalho corajoso para uma estreante, ainda mais levando em consideração a atmosfera elegante e de certa forma nostálgica do álbum. Temas sombrios como racismo e xenofobia são recorrentes no alinhamento de faixas, o que faz de 'Mini World' um verdadeiro manifesto desta criança do mundo e um protesto contra este tipo de discriminação.

Veja nossa análise faixa a faixa:

1. Dernière Danse (Última Dança)
Primeiro single e maior sucesso do álbum, parcialmente responsável pelos ótimos números dessa era, esta canção usa samples da faixa 'Parce Que Tu Crois', do lendário Charles Aznavour. Essa faixa bebe da fonte da chanson française, contando também com um levíssimo R'n'B. Apesar do começo minimalista, composto basicamente por percussão e violoncelo, camadas instrumentais se somam ao longo da faixa, com o destaque para a batida que se inicia perto da metade da canção. 

Já a letra é bem menos gloriosa: ela fala sobre racismo e xenofobia sofridos por imigrantes que tentam a vida na França. Dada a sua ascendência, essa música contém experiências de Indila, sendo uma faixa bastante urgente para o atual contexto ultraconservador do mundo. O clipe retrata bem a rejeição e abusos sofridos na França pelos que nasceram em outros lugares.


2. Tourner Dans Le Vide (Rodar no Vazio)
O segundo single do álbum começa com o som de uma caixinha de música, que logo recebe uma camada de acordeão francês e uma batida pop perto do refrão, tudo isso amarrado por uma espécie de eco. Esta faixa ainda ataca o racismo, mas de forma mais leve e por um viés mais romântico, em uma letra que defende um homem amado das ofensas. O clipe mostra uma festa em um palácio, onde todos os convidados olham com certo desprezo para Indila quando ela chega, acabando por se apaixonar por um escultor em um quadro. A edição do clipe, com a câmera rodando ao redor de um ponto fixo por diversas vezes, faz referência ao próprio título da música.


3. Love Story (História de Amor)
Quinto single do álbum, 'Love Story' é puramente chanson française, sem influências pop ou étnicas, tendo um pouco cara de música de parque de diversões, por causa da melodia de realejo. Tanto o clipe quanto a letra são mais suaves, narrando diferentes histórias de amor. Uma observação: a fotografia carregada pelo vento, que encerra o clipe de 'Dernière Danse' aterrissa nas primeiras cenas do clipe desta canção, o que fornece uma ligação entre ambos os vídeos.


4. S.O.S.
O terceiro single de álbum, a exemplo da primeira e da terceira faixa deste álbum, tem um clipe com um elo de ligação com outro, no caso, a estátua de 'Tourner Dans Le Vide'. Apesar do começo cheio de autotune, logo essa balada se torna mais acústica e natural, liderada por violão e bateria. A letra fala de redenção, em que vários tipos de dificuldades são enfim vencidas, o que inclui a questão da discriminação, tocada já no começo do álbum.


5. Comme un Bateau (Como um Barco)
Nesta faixa, complementando a ideia de 'S.O.S.', Indila se compara a um barco, na questão de continuar indo adiante apesar das dificuldades e o 'balanço das ondas que tentam derrubá-lo. Para isso, ela utiliza uma melodia acústica, composta basicamente de violão e percussão, que tende bastante ao reggae.

6. Run, Run (Correr, Correr)
Dando sequencia ao clima reggae da faixa anterior, o quarto single do álbum introduz uma batida mais acelerada, que lembra o Raï (música folk argelina). Quanto ao tema, ela toca no fato de que muitas pessoas vivem para o trabalho, esquecendo de viver e aproveitar a própria vida. 


7. Ego
A canção mais étnica até agora, essa faixa traz a melodia dominada por palmas e vocalizações típicas da música do norte da África, trazendo um maravilhoso toque de pop árabe, temperado por sintetizadores perto do refrão. A letra toca no egoísmo humano e em suas consequências, como as guerras e o racismo.

8. Boîte en Argent (Caixa de Prata)
Está é uma canção iniciada com o som de uma caixinha de música, que combina muito com a voz doce de Indila. Trata-se de uma balada suave com um leve toque étnico, sendo um hino de saudade e nostalgia em relação ao oriente.

9. Tu Ne M'Entends Pas (Você Não Me Escuta)
Esta faixa complementa 'Run, Run', mas enquanto lá a letra assume o tom de conselho, aqui ela se transforma em uma queixa de Indila, que se sente posta em segundo plano por seu amado workaholic. Sua melodia retoma e amplifica o reggae acústico visto em faixas como a própria 'Run, Run', com direito a violão e percussão.

10. Mini World (Mini Mundo)
A última música e faixa homônima do álbum utiliza uma melodia discreta, que lembra caixinha de música enriquecida com sintetizadores tranquilos e etéreos, para resumir as ideias do álbum. Seu principal argumento é de que as pessoas são cidadãs do mundo, portadoras do direito de ir e vir, além do de construirem suas vidas onde quiserem, de modo que o racismo e a xenofobia, tão combatidos ao longo do álbum, simplesmente não fazem sentido.


Análise: Indila abre as fronteiras do mundo em 'Mini World' Análise: Indila abre as fronteiras do mundo em 'Mini World' Reviewed by Wilson Barroso on domingo, dezembro 17, 2017 Rating: 5