Análise: Grace Jones faz seu retorno triunfal em 'Hurricane'


Grace Jones é uma das figuras mais icônicas da cultura pop entre os anos 70 e 80. Nascida na Jamaica em 19 de Maio de 1948 e radicada nos Estados Unidos, Grace se tornou atriz e modelo de sucesso nas passarelas de Nova York e Paris, logo iniciando no mundo musical através de uma bem-sucedida fase disco. Vivendo em meio a artistas como Andy Warhol, Jean-Michel Basquiat e Jean Paul Goude, a cantora, uma das pioneiras do visual andrógino,  não demorou a incorporar em seu trabalho tamanho background artístico, servindo de inspiração para gigantes musicais como Lady Gaga, Beyoncé Madonna.

Após uma carreira musical bem sucedida na música, no cinema e na moda ao longo da década de oitenta, a cantora entrou em um hiato de 19 anos depois de 'Bulletproof Heart', de 1989, período no qual Grace lançou várias compilações e trabalhou em algumas colaborações esporádicas. Seu retorno não poderia ser melhor: lançado em 3 de Novembro de 2008, 'Hurricane' traz mais uma vez seu sofisticado pop com elementos do reggae jamaicano, mas dessa vez flertando com o eletrônico, o dance e o gospel.

As letras variam de conteúdo, oscilando entre temas autobiográficos e críticas sociais. A arte do álbum se baseia em Grace como funcionária em uma faixa de chocolate. Em 2011, uma nova edição do álbum foi lançada, chamada de 'Hurricane - Dub', que contém um disco a mais com versões em dubstep das faixas do álbum.


Veja nossa análise faixa a faixa:

1. This Is
O álbum é iniciado com uma voz masculina que logo dá espaço para Grace. Esta faixa tende um pouco ao rap, mas os sintetizadores e a percussão dão a 'This Is' um ar ao mesmo tempo caribenho e tecnológico. A letra é uma espécie de chamada, para a audição de 'Hurricane', fazendo menção ao trabalho e a sua história.

2. William's Blood
Talvez a canção mais autobiográfica do álbum, o segundo single de 'Hurricane' conta basicamente a história da família de Grace, focando no fato dela ter tomado a direção musical de sua mãe ao invés de ter acatado as ordens de seu pai, pastor e bastante autoritário. A melodia mescla R'n'B e soul, com uma forte influência gospel. Perto do fim, ouve-se uma gravação da mãe de Grace, Marjorie, cantado o hino gospel 'Amazing Grace' na igreja. O clipe consiste em cenas de uma apresentação ao vivo.


3. Corporate Cannibal 
Assustador e quase declamado, o primeiro single do álbum é um gosto adquirido. Voltado para a música eletrônica com elementos de trip hop, nessa faixa Grace encarna um personagem distorcido e deformado para fazer uma crítica ao capitalismo corporativista e ao modo com que ele consome e descarta as pessoas. 


4. I'm Crying (Mother's Tears)
Tendendo um pouco ao jazz, esta faixa recebe baixos e percussão para acompanhar a voz mansa e contida de Grace. A letra trata da relação de Grace com sua mãe, tocando em temas como saudade, apoio e criação, bem como o fato de ter que viver depois de sua morte.

5. Well Well Well
Talvez a canção mais orientada para o reggae até agora, essa faixa nos joga direto para o começo dos anos oitenta, para álbuns como 'Nightclubbing' e 'Warm Leatherette'. A letra toca na solidão da fama e no que há atrás da aparência glamurosa do sucesso. Foi single promocional de 'Hurricane' e infelizmente, não ganhou clipe.

6. Hurricane
Originalmente uma faixa produzida em 1997 para um projeto não-lançado, a faixa-título do álbum é sua faixa mais complexa. Utilizando metáforas meteorológicas para se descrever (brisa, furacão, etc), a melodia desta música tem trechos bem definidos, desde a introdução minimalista tendendo ao trip-hop e à música ambiente até a explosão reggae no gancho e no refrão.

7. Love You To Life
O terceiro e último single do álbum tem uma melodia reggae maravilhosa, aliada a alguns versos falados que contam a história de um parceiro de Grace que acordou do coma na frente da cantora, como uma espécie de 'renascimento'. O clipe, exibido primeiramente na exposição Grace Jones by Chris Levine: Stillness at the Speed of Light, mostra a cantora cantando nua com luzes refletidas em seu corpo. Foi inclusive deste clipe que surgiu a ideia da capa de 'Hurricane - Dub'


8. Sunset Sunrise
Complementando e concluindo a crítica feita em 'Corporate Cannibal', essa faixa tem uma mensagem nobre, a de que o mundo e a natureza pertencem a todos, e que a ganância só destroi e desune. É uma faixa deliciosa, que tempera sua melodia reggae com sintetizadores e xilofone.

9. Devil In My Life
Finalizando o álbum, essa faixa foi escrita por Grace depois de uma festa em Veneza, enquanto observava os convidados. Trata-se de uma crítica à hipocrisia e à solidão que vem com a fama. Para isso, ela abandona a melodia reggae e investe numa mescla de R'n'B e trip-hop mais do que elegante.


Análise: Grace Jones faz seu retorno triunfal em 'Hurricane' Análise: Grace Jones faz seu retorno triunfal em 'Hurricane' Reviewed by Wilson Barroso on domingo, novembro 26, 2017 Rating: 5