Sete músicas que vão fazer você se apaixonar por Mylène Farmer

Veja nossas resenhas anteriores
Cendres de lune (1986)
Ainsi soit-je... (1988)
L'autre... (1991)
Anamorphosée (1995)
Innamoramento (1999)
Avant que l'ombre... (2005)
Point de suture (2008)
Bleu noir (2010)
Monkey me (2012)
Interstellaires (2015)

Considerada por muitos a 'Madonna francesa', Mylène Farmer com certeza merece esse título. Com dez álbuns de estúdio e mais de 30 milhões de cópias vendidas, a cantora detém alguns números impressionantes, como seis álbuns de diamante na França, além de ter o terceiro álbum em francês mais vendido por uma artista feminina ('L'Autre...) e de ser a única mulher a ter lotado o Stade de France em sua capacidade máxima (80 mil lugares).

Conhecida pelos clipes impecáveis e pelas letras que tocam em temas pesados, como suicídio, loucura e religião, Mylène tem uma quantidade estonteante de música boa. A POPlândia tomou para si a dificílima tarefa de escolher apenas sete delas, para introduzir novos ouvintes ao mundo sombrio de Mylène Farmer. 

1. Sans Contrefaçon (Ainsi Soit-Je..., 1988)
Essa faixa é, merecidamente, um dos maiores hits da cantora. O primeiro single do álbum lida com ambiguidade sexual e é, de certa forma, autobiográfico, visto que a cantora disse em várias entrevistas que era um tanto andrógina quando criança, sendo muitas vezes confundida com um garoto. Ambiguidade essa que era encorajada com o hábito de Mylène de por um lenço nas calças para avolumar a virilha.

A música já começa com um ritmo bem característico, que prende desde o começo a atenção do ouvinte. Ao contrário do que se espera, é animada e pouco sombria. É um pop oitentista bastante elegante e gostoso de se ouvir. Mylène utilizou o recurso de colocar frases faladas na música, e logo no começo se ouve uma criança falando "dis maman, pourquoi je ne suis pas un garçon?". Não é à toda que essa faixa catapultou a cantora para o status de gay icon.


2. Desenchantée (L'Autre..., 1991)
O primeiro single do álbum é simplesmente a música mais famosa e bem sucedida da carreira da cantora até hoje. E não é para menos, essa faixa é grandiosa. A letra desse smash hit é bastante existencialista, onde o eu-lírico confronta, com grande lucidez e percepção dos acontecimentos, o absurdo do mundo.

É um single bastante dinâmico e dancepop, já começando com notas de piano bastante características. Aqui, o refrão contrasta uma batida vigorosa com uma letra cantada um pouco mais devagar, como se ela estivesse reforçando a mensagem.

O clipe não poderia ser menos espetacular. Durando quase onze minutos, ele mostra uma espécie de campo de concentração, onde adultos e crianças são escravizados e torturados, até que a personagem de Mylène inicia uma rebelião, que culmina com uma grande fuga. Mas para onde?



3. XXL (Anamorphosée, 1995)
Uma das canções mais rock do álbum, o primeiro single de 'Anamorphosée' teve que se impor em questão de diferença sonora em relação aos trabalhos antigos da cantora, para demarcar a mudança artística, pois esse álbum é totalmente distinto do que a cantora vinha fazendo, sendo muito mais americanizado.

Pela primeira vez, a canção não trata de temas universais, dirigindo-se exclusivamente às mulheres. Esse hino feminista diz basicamente que todas as mulheres merecem o amor, sejam pobres, ricas, românticas, pessimistas, conservadoras, liberais, soropositivas ou transexuais. Um hino LGBT desses, bicho.



4. Je Te Rends Ton Amour (Innamoramento, 1999)
O segundo single do álbum é uma obra de arte, e não poderia ser diferente, pois ao longo do texto há várias referências às artes plásticas. Liricamente, fala sobre um amo tão pesado que o eu-lírico não consegue lidar, mas também pode ser visto como o peso da vida e das experiências que o artista tem em seu trabalho.

É uma canção melodicamente densa, com baixo pesado desde o começo. Com camadas instrumentais que se sobrepõem gradualmente e uma voz cristalina explodindo num refrão calmo e hipnotizante, esta faixa foi um grande acerto.

Assim como 'Justify my Love', de Madonna, o clipe desta canção foi considerado pesado demais para a TV, sendo finalmente lançado em VHS. Ele mostra uma mulher cega que entra numa igreja e acaba atacada pelo demônio em pessoa, de forma que ela recupera a visão no fim do vídeo. Pode ser visto como uma pessoa que tem uma nova visão da realidade ao pensar sem a religião ou uma crítica à igreja, onde o demônio representaria a perversidade do clero e as sujeiras que acontecem lá dentro. Sendo como for, daria um artigo de 50 páginas no Danizudo, pois é carregado de simbologia. Para ver o clipe, clique aqui.

5. Fuck Them All (Avant Que L'Ombre..., 2005)
lead-single do álbum foi criticado pela imprensa francesa pelos palavrões e pela ‘falta de originalidade’ dos sintetizadores. Apesar do comeback agridoce, essa música logo foi merecidamente aclamada. É uma canção feminista, sob o olhar da ‘guerra dos sexos’, evocando a força da mulher, seu martírio e sua fertilidade, criticando a forma bestializada com que as mulheres são vistas por muitos homens.

É ao mesmo tempo densa e hipnótica, com direito a rap, coro, guitarra acústica e sintetizadores. E dessa bagunça que tinha tudo pra dar errado, nasceu uma obra prima.

O clipe é particularmente artístico, e precisa ser revisto para ser entendido, pois contém uma narrativa não-linear. Mostra uma Mylène do presente ‘vingando’ a morte da Mylène do passado, presa numa gaiola. Com o simbolismo dos corvos presentes ao longo do vídeo, no fim ela destrói espantalhos num campo nevado, até que finalmente ela própria desaparece no ar.



6. Oui Mais... Non (Bleu Noir, 2010)
O primeiro single do álbum é um grande plot twist. É uma canção dancepop muito dinâmica e um pouco grudenta, fruto seu produtor: RedOne, conhecido por trabalhar com artistas como Lady Gaga, que internacionalizou essa canção de forma bastante eficaz. Por isso esta faixa uma das melhores para introduzir o trabalho da cantora ao público fora da Europa. A letra talvez seja uma das mais genéricas da cantora, fala sobre um homem que não se decide se quer o eu-lírico ou não. As aliterações cooperam pra tornar a canção mais dinâmica.

O clipe é muito bonito e, esteticamente, lembra alguns clipes de Lady Gaga como “Bad Romance” e “Alejandro”. Ele não tem história nem linha do tempo, mostra apenas a cantora e uma equipe de bailarinos dançando numa espécie de estacionamento subterrâneo vazio.



7. City of Love (Interstellaires, 2015)
O segundo single de “Interstellaires” é o ponto alto do álbum. Uma canção midtempo com direito a piano e bateria. A letra fala sobre o valor de toda forma de amor. 

O videoclipe é, sem dúvida, um dos melhores de toda a videografia da cantora. Ambientada num cenário de terror de casa abandonada, com referências do filme “Pássaros”, de Alfred Hitchcock, um alienígena/ser espacial vê várias representações do amor entre seres humanos, se apaixonando finalmente por um boneco de madeira. Um casal tão estranho desperta preconceito em quem assiste? Não deveria, pois a mensagem da faixa é justamente a validade de todas as manifestações desse sentimento. Essa canção ganhou um remix em parceria com o cantor de reggae Shaggy, assista aqui.

Sete músicas que vão fazer você se apaixonar por Mylène Farmer Sete músicas que vão fazer você se apaixonar por Mylène Farmer Reviewed by Wilson Barroso on quinta-feira, outubro 12, 2017 Rating: 5