Análise: Cyndi Lauper conta sua história em 'Hat Full of Stars'


Cyndi Lauper dispensa apresentações. Uma das cantoras mais celebradas e versáteis do pop, ela já emplacou vários hits lendários, como onipresente em playlists dos anos oitenta ‘Girls Just Wanna Have Fun’, a tocante ‘True Colors’ e ‘Time After Time’, talvez uma das canções mais regravadas do pop. A não ser que você tenha sido criado por lobos no meio do mato, com certeza você já ouviu pelo menos uma delas.

Ao longo dos anos oitenta, a cantora esteve vendendo muito bem, com canções pop dançantes e comerciais, típicas da época, que já apresentavam um pouco de conceito, mas nada muito proeminente. No entanto, um artista que se preze, em algum momento de sua carreira precisa por mais de si em seu trabalho. E dessa necessidade nasceu ‘Hat Full of Stars’, um divisor de água que daria a direção sobre o estilo musical adotado pela cantora nos quinze anos seguintes.

O quarto álbum da cantora, lançado em 30 de Junho de 1993, é autobiográfico e bastante distinto dos primeiros três trabalhos de Cyndi. Sua sonoridade, em geral, é bem mais ousada do que o pop rock anterior, fruto das aventuras anteriores da cantora em música experimental. Mas a diferença mais marcante é o amadurecimento exponencial das letras, deixando um pouco de lado o amor, o otimismo e a diversão para mergulhar em temas mais pesados como aborto e racismo, abandonando o cabelo colorido e a voz agudíssima em nome de uma imagem mais clean.

Essa mudança, no entanto, não arrebatou o coração do público, apesar dos elogios da crítica. Estima-se que ‘Hat Full of Stars’ tenha vendido cerca de 120 mil cópias nos Estados Unidos, muito menos que seu álbum anterior, 'A Night to Remember' (1989). Mas não deixe essa informação te alarmar: nem sempre qualidade musical e vendas altíssimas andam juntas, principalmente quando a gravadora praticamente ignora a promoção de um álbum por ‘não concordar com sua direção artística’, como foi o caso.

Veja nossa análise faixa a faixa:

1. That’s What I Think
O álbum é aberto com seu segundo single, que já deixa claro logo de cara a seriedade deste álbum. Para alguém acostumado com Cyndi alegre e colorida, uma música que fala sobre dificuldades do dia a dia, como pagar o aluguel, deve ter sido um choque. É uma canção pop com elementos funk e poucos sintetizadores, além de uma flauta super charmosa.

O clipe é simples e elegante, sendo basicamente uma gravação durante um show em Toronto, com projeções nos corpos das pessoas.


2. Product of Misery
Apesar da primeira faixa ser uma introdução relativamente leve do novo conceito de Cyndi, a segunda faixa de ‘Hat Full of Stars’ já se adensa, falando sobre abuso doméstico. Apesar da melodia alegre dominada por piano e guitarra, a letra evoca a imagem de uma mulher que sofre nas mãos de um homem abusivo e a forma como isso a desumaniza.

3. Who Let In The Rain
O lead single do álbum ainda tem resíduos temáticos dos trabalhos anteriores de Cyndi. Muito querida pelos fãs, essa faixa é uma balada lindíssima que fala sobre fim de relacionamento. Ela traz elementos do R’n’B, como piano aliado a backing vocals. O clipe alterna cenas de Cyndi performando a canção com uma banda com outras da nova rotina da personagem do clipe após ter rompido um relacionamento.


4. Lies
A voz de Cyndi está muito mais nua aqui do que nas faixas anteriores, o que denota uma certa fragilidade. A batida dessa música tem influências de funk e soul, deixando a percussão e o piano se sobressaírem. A letra fala sobre uma garota que tenta se proteger de abusos sexuais trancada em seu quarto. Há quem diga que fala sobre incesto, mas não fica claro se é isso mesmo.

5. Broken Glass
Mais uma faixa que fala sobre violência doméstica, essa canção parece ser mais autobiográfica nesse quesito do que ‘Product of Misery’, pois o eu-lírico repete que não quer ser como sua mãe ou sua avó. Essa faixa tende muito ao R’n’B e mesmo ao reggae, onde mais uma vez a aparente leveza da melodia disfarça um pouco a seriedade da letra. O som de vidro quebrado ajuda a conectar a melodia com o conceito da faixa.

6. Sally’s Pigeons
O terceiro single do álbum conta a história de uma amiga de Cyndi que engravidou durante a adolescência, mas acabou morrendo por causa de um aborto clandestino mal-feito. Ela contém referências a ‘Tiny Dancer’, de Elton John, um dos ídolos da cantora. A introdução a cappella ajuda a trazer o clima dramático dessa balada, mantido pela melodia que ganha camadas instrumentais aos poucos, principalmente de violino e bateria.

O clipe alterna cenas de Cyndi cantando com outras que contam a história de sua amiga, desde quando ambas eram crianças até sua morte, representada pelos pombos voando, como alegoria da 'libertação'.


7. Feels Like Christmas
A introdução dessa música imita uma canção country tocando em um rádio, que é complementada quando a faixa propriamente dita começa. A gaita e o acordeão recebem auxílio da bateria e do coro. Esta canção parece ser o estranho no ninho do álbum, por ser tão otimista, falando sobre a força do amor sobre os problemas materiais.

8. Dear John
Esta canção fala sobre John Lennon, um dos ídolos da adolescência de Cyndi, ainda trazendo melodia country, com banjo, violino e harmônica, acrescidos de bateria. Não é uma das faixas memoráveis do álbum.

9. Like I Used To
Essa faixa, que vista por cima parece uma canção sobre alguém que se aproveita das fraquezas de outra pessoa para controlá-la, é uma crítica contundente à gravadora que quis controlar de forma tão restritiva o trabalho da cantora, e que a ignorou quando viu que não poderia. Já a melodia é voltada para o funk e o R’n’B, com direito a backing vocals e instrumentos de sopro.

10. Someone Like Me
Já perto do fim do álbum, essa faixa fala sobre um tipo de crise de identidade, onde o eu-lírico não está feliz com a vida que tem nem com as coisas que tem que fazer, talvez tenha sido escrita a respeito dos primeiros anos da carreira de Cyndi. É uma canção pop, um pouco menos acústica do que o visto até agora, mas ainda assim instrumentalmente rica. Das faixas que não se tornaram single, talvez seja a melhor do álbum.

11. A Part Hate
O título desta faixa, escrita durante a composição do álbum ‘True Colors’, é um trocadilho sonoro com a palavra ‘apartheid’, e foi usada como hino anti segregação racial. Ela lida com racismo, questionando o ódio e o preconceito, podendo ser extrapolada para outros tipos de discriminação, como homofobia e transfobia. Sua melodia traz batida funk e R’n’B aliada à solenidade da flauta e das backing vocals.

12. Hat Full of Stars

Quarto e último single do álbum, essa faixa é, de acordo com a cantora, uma mensagem para seu ex-marido David Wolff, com certa nostalgia. O álbum é encerrado com uma balada de voz e piano muito bonita, com poucos instrumentos acessórios, permitindo que a voz de Cyndi brilhe mais do que no resto do álbum.

Letra: 7,5
Melodia e Instrumentação: 8,0
Vocais: 7,0
Videografia: 6,0
Identidade: 7,0
Nota final: 7,1

Análise: Cyndi Lauper conta sua história em 'Hat Full of Stars' Análise: Cyndi Lauper conta sua história em 'Hat Full of Stars' Reviewed by Wilson Barroso on domingo, outubro 29, 2017 Rating: 5