Análise: Mónica Naranjo tenta redimir os pecados da humanidade em 'Lubna'


Veja nossas análises anteriores dessa artista:
Palabra de Mujer (1997)
Tarántula (2008)

Mónica Naranjo é considerada uma das maiores estrelas da música espanhola, angariando uma legião de fãs fervorosos e mais de nove milhões de discos vendidos mundialmente, principalmente na Espanha e no México.

Nascida em 23 de Maio de 1974 em Figueras, Espanha, Mónica é conhecida pelo amplo alcance vocal, pela inclinação operática em alguns trabalhos e por sua luta e ativismo em favor da classe LGBT, sendo, por isso, um dos maiores gay icons da Península Ibérica.

Essa geminiana tem uma discografia relativamente curta, com apenas seis álbuns de estúdio em mais de 20 anos de carreira. Apesar desse número baixo, ela conseguiu demonstrar uma versatilidade rara no mundo da música pop (arquétipo do geminiano, quem sabe).

Mónica tem canções de pop adolescente em seu primeiro álbum, hinos das pistas de dança em 'Palabra de Mujer' e faixas que mesclam techno e ópera (com um conceito já bastante robusto) em 'Tarántula'. Mas nada chegou perto da peça que é 'Lubna', às vezes estilizado como 'LVBNA'.

Este álbum é estruturado como uma ópera-rock, com uma história principal e várias secundárias. O plot central conta a história de Eleonard, um dos últimos seres humanos puros e empáticos do planeta, que vive cativo por causa de sua pureza, em uma humanidade contamina pelo mal, pelo pecado e pelo egoísmo. E de sua fé, surge Lubna, uma espécie de divindade marítima que tenta trazer a luz para um mundo condenado.

Quando não se fala dos dois, histórias secundárias são contadas, mostrando quão doente está o mundo onde se passam os acontecimentos. Algumas canções são respondidas por outras, mostrando que tudo que vai volta.

O instrumental é riquíssimo e complexo. Traz os instrumentos da ópera, como violino, piano e oboé; e os de rock, como as guitarras e a bateria. A voz de Mónica está exuberante e corajosa, abusando de ornamentos vocais e efeitos que dão temperam a atmosfera sombria e apocalíptica de Lubna. Apesar de não se encaixar na vertente EDM (Electronic Dance Music) do pop, a qual estamos acostumados, esse álbum não permite que quem o ouça fique indiferente a ele.

Este álbum foi lançado em 29 de Janeiro de 2016, após uma espera de oito anos. Ele foi direto para o topo do ITunes Espanha, sendo disco de platina no país, além de ter chegados em posições respeitáveis nas paradas do México e nos charts latinos dos Estados Unidos.

Veja nossa análise faixa a faixa:

1. Lasciatemi Qui (Deixe-me aqui)
O título do abre-alas do álbum está em italiano, língua de onde vem a maior parte dos termos técnicos da música erudita. Trata-se de um prólogo instrumental, começando melodia etérea e dominada por piano e vocalizações que parecem de uma sereia, o que vem a calhar, sendo Lubna uma divindade marinha. Em certo ponto, aparecem os violinos e instrumentos de corda, ao lado de coro operático. É o momento em que Lubna surge do fundo do mar, graças a fé de Eleonard, que sabe que essa é a última esperança da humanidade. É algo digno da trilha sonora de Harry Potter

2. Apocalíptica 
Finalmente aparece a voz de Mónica, na primeira história secundária. Essa canção conta a história de uma adolescente que sofre com uma mãe cruel que tenta impor a ela suas vontades. A melodia começa com barulho de disco de vinil, e não promete muito logo de cara, mas logo o violino, a guitarra e a bateria acompanham a verdadeira estrela da canção: Mónica, e sua voz super ornada, digna da ópera, com melismas e outras técnicas muito bem executadas.

3. Ya Está Bien
Aqui, semelhante à canção 'Todo Mentira', do álbum 'Tarántula', Mónica faz uma crítica bastante irônica a um estado de neurose e alienação social e financeira, muito parecida com a atual, onde quem está no poder mente sobre o real estado das coisas. É a canção mais longa do álbum, e bem mais lenta que a anterior, onde podemos ver com mais clareza os acordes de rock, mesmo que o começo não indique isso, pois o violino só é superado pela guitarra pesada depois de quase dois minutos.

4. Perdida
O segundo single do álbum tem uma estrutura mais pop e comercial que as canções anteriores, por ter uma batida de sintetizador discreta ao fundo e ser mais dinâmica. Ainda mantém a grandiosidade da melodia rock opera e da voz ornada com direito a gritos de dor da cantora. Ela conta a história de uma mulher extremamente egoísta, que passa por cima dos outros para alcançar seus objetivos, a ponto de rejeitar seu próprio filho. Anos mais tarde, ela o encontra sem saber, cometendo incesto e se jogando no mar. karma is not a liar

O clipe, em escala de cinza, intercala cenas de Mónica cantando vestida de gala com cenas da história contada.


5. Essere Uno (Ser um)
Primeiro interlúdio do álbum, essa canção tem uma melodia mais discreta, deixando a voz de Mónica brilhar numa letra em latim ("exaudio te, dum volo, exaudio te, dum cado, exaudio te, dum lacrimo, exaudio te, dum morior"). Mónica descreveu essa peça como Lubna cantando e lamentando por estar separada de Eleonard por um motivo injusto, mesmo que seus espíritos estejam conectados acima do bem e do mal.

6. Fin
Single promocional do álbum, essa faixa começa mais lenta, mas ganha sucessivamente camadas instrumentais, com piano, guitarra e bateria, com eventuais explosões curtas da melodia rock. Ela lembraria um pouco uma canção da Disney, não fosse a atmosfera sombria. Aqui, uma adolescente enferma tenta tranquilizar sua mãe, enquanto está à beira da morte, podendo ser uma resposta a 'Apocalíptica'.

7. Eleo è Nato (Nasceu Eleo)
Segundo interlúdio do álbum, essa faixa alia uma melodia de flauta e piano de caixinha de música com barulhos de criança. De acordo com Mónica, ela lida com as memórias de infância de Eleonard, até o momento em que foi capturado.

8. Ese Es Mi Público
Talvez uma autocrítica, essa faixa lida com o momento em que a fama sobe a cabeça, contando a história de uma grande diva da música que é intoxicada pela fama e pelo sucesso, deixando seu personagem a devorar. Ela começa com distorções de rádio antigo, como uma amostra da arte do personagem, mas logo da canção propriamente dita começa com os instrumentais operáticos tocando uma melodia um tanto latinizada, lembrando um tango mais encorpado.

9. Boomerang feat. Marina Heredia
Apesar do começo a capela, logo surge uma melodia étnica que lembra o Oriente Médio ou a África do Norte, temperado com os instrumentais e coro de ópera e rock. A letra conta a história de um criminoso que obriga suas filhas a se prostituírem, mas termina sofrendo na própria pele o que fez as garotas sofrerem. Mais karma.

10. Holocausto
Aqui temos a guerra em formato de canção, tanto na letra, que fala sobre o caos e a destruição que ela traz, quanto na melodia, que alterna momentos de calma ('paz') e uma melodia angustiante e urgente (a revolução ou a batalha). Os momentos de calma trazem Mónica cantando suavemente, sustentada por piano e harpa, crescendo aos poucos até irromper na batalha, que traz a parte rock com guitarra, bateria e até mesmo sintetizadores, que quase não são usados neste álbum.

11. L'Ombra feat. Jaíme Heredia (A Sombra)
O terceiro interlúdio do álbum traz Jaíme Heredia, cantor cigano, cantando com pedaços de uma língua própria. Aqui se alia sapateado cigano e flamenco espanhol, sustentando uma letra que fala sobre a força do mal e da escuridão.

12. Romance Con La Locura
Essa faixa traz uma batida relativamente rápida de sintetizadores um tanto techno suportando o violino, que é a estrela da instrumentação da canção e a dá um ar de tango. A letra fala sobre uma mulher hipócrita que pisa nas pessoas sem piedade, mas que secretamente faz o que tanto a causa nojo nas outras pessoas. Provavelmente você vai pensar em alguém conhecido escutando essa faixa.

13. Contemplazione (Contemplação)
O quarto interlúdio de 'Lubna' traz um dedilhado suavíssimo no piano e um canto que lembra as sereias, que logo ganham apoio de flautas e coro. De acordo com Mónica, traz Lubna cansada e resignada no topo de uma colina contemplando a forma egoísta e hipócrita que vive a humanidade.

14. Balada Desesperada
O mais verdadeiro tango do álbum, essa canção traz todos os elementos dos clássicos desse estilo, como o acordeão e o violino numa melodia sensualmente latina. A própria letra também traz a temática clássica do tango, adaptado à atmosfera escura de 'Lubna', contando a história de um amor platônico não correspondido que acaba custando a vida de um dos envolvidos.

15. Jamás
Lead single do álbum, aqui temos o retorno no instrumental de ópera em toda sua grandeza. Enquanto violinos, flautas, piano e guitarras tecem uma melodia maravilhosa, a voz de Mónica ocupa duas camadas, como um diálogo, com notas altas maravilhosas. Ela conta a história de duas personagens, uma que perdeu o filho muito cedo e outra que sofreu um grave acidente que a deixou com cicatrizes enormes. No fim, as duas mulheres se apoiam para conseguirem sair de suas respectivas situações.

O clipe mostra as duas se encontrando e contando suas histórias em uma igreja, firmando uma amizade profunda, que nasceu da dor de ambas.


16. Mortem Eleonard
O quinto interlúdio do álbum é um requiem, ou seja, canção de lamentação pela morte de alguém. Eleonard não conseguiu sobreviver, sucumbindo à maldade das pessoas. A canção é um requiem clássico, com coro e órgão, mas temperado por instrumental rock em sua segunda metade. A voz de Mónica aqui aparece apenas constando no coro.

17. Lubna y Eleonard
Finalizando o álbum, esse epílogo traz o barulho do mar embalado por uma melodia no piano e vocalizações de sereia de Mónica, finalizando com coro e órgão. Concluindo de forma redonda o álbum, podemos concluir que a pureza e bondade simbolizadas por Eleonard não tiveram força perante à maldade do mundo. Tudo indica que Lubna retorna para o mar, fechando essa tentativa fracassada redimir os pecados da humanidade.

Letra: 8,0
Melodia e Instrumentação: 8,5
Vocais: 10,0
Videografia: 7,0
Identidade: 9,0
Nota final: 8,5




Análise: Mónica Naranjo tenta redimir os pecados da humanidade em 'Lubna' Análise: Mónica Naranjo tenta redimir os pecados da humanidade em 'Lubna' Reviewed by Wilson Barroso on domingo, outubro 08, 2017 Rating: 5