Análise: 'MDNA' mostra porque não é bom deixar Madonna com raiva

O período entre 2009 e 2012 foi bastante tempestuoso na vida de Madonna. Seu divórcio com o diretor Guy Ritchie a custou muito caro (entre US$60 milhões e US$92 milhões), sendo um verdadeiro banquete para a imprensa marrom e para a mídia, tudo isso enquanto ela saía da Warner, sua gravadora desde o começo da carreira. Como se não bastasse, W.E., o filme que a cantora co-escreveu, não era exatamente aclamado pela crítica.

Tamanha raiva acumulada durante esse período precisava escapar para algum lugar. E sendo uma artista brilhante, tomou forma de um álbum, o famigerado 'MDNA'. Seu nome é um trocadilho triplo entre 'MaDoNnA', 'My DNA' e 'MDMA', que é uma droga similar ao ecstasy.

'MDNA' foi lançado em 23 de Março de 2012, e talvez tenha sido o álbum com menos promoção da cantora, quase pulando direto do lançamento para a turnê, a catártica 'MDNA Tour', passando pela performance histórica do Superbowl. Apesar disso, esse álbum vendeu aproximadamente 2,5 milhões de cópias mundialmente, o que é pouco para o histórico de Madonna, mas sejamos realistas, essa quantidade de cópias vendidas pode realmente ser considerada um flop?

Aqui, a cantora simplesmente desabafa sobre as agressões que vinha sofrendo, extravasando toda a raiva. E como todo bom álbum de Madonna, tem faixas ótimas sobre sair para dançar. As melodias de 'MDNA' em geral são EDM (electronic dance music) e synthpop, construídas com sintetizadores maravilhosos, que esperaríamos encontrar em festivais descolados de música eletrônica na Europa, principalmente por causa dos DJs envolvidos em sua produção, como o francês Martin Solveig e o sueco Alesso.

Por ter faixas que são uma verdadeira lavação de roupa suja e algumas que são um pouco bobas demais, além de uma escolha fraca para os singles, 'MDNA' é considerado um álbum ruim ou esquecível por muitos fãs da cantora. Se você pensa assim, deveria reconsiderar, porque apesar de tudo isso, esse álbum tem verdadeiros hinos.

Veja nossa análise faixa a faixa:

1. Girl Gone Wild
O segundo single do álbum originalmente se chamaria 'Girls Gone Wild', mas por ameaça de processo de Joe Francis, dono de uma grife com esse nome, a canção foi rebatizada. Mas independente disso, essa música é um h-i-n-o. Ela é grudenta na medida certa, sua batida e seus sintetizadores são as melhores que o EDM pode oferecer.

Produzida por Benny e Alle Benassi, essa canção fala simplesmente sobre sair para dançar e se divertir. Sua introdução, que abre o disco com uma espécie de prece, é uma referência a 'Act of Contrition', faixa que encerra o seu icônico álbum 'Like a Prayer', de 1989.

Poderia ter sido um lead single fabuloso, ideal para saciar os fãs sedentos depois de um hiato de quatro anos, desde o 'Hard Candy', de 2008. O clipe tem uma coreografia lindíssima, com Madonna vestida como uma espécie de Barbarella moderna, em parceria com os rapazes do Kazaky.


2. Gang Bang
Densa, pesada e sangrenta, essa faixa poderia ter sido um single super controverso, sendo uma das mais queridas pelos fãs. A letra fala sobre matar um amante depois de uma traição (sem ficar bem claro de qual tipo). Aí é que fica a genialidade dessa música: Guy Ritchie, o ex-marido de Madonna é conhecido por dirigir filmes sangrentos e sombrios. Portanto, seria a música uma forma de se referir ao divórcio e ao próprio Guy com a própria fórmula do diretor?

Sua melodia é bem demarcada e traz uma certa sensação de urgência, por causa da tendência ao dubstep. Os barulhos de sirenes e tiros dão um tempero especial, fazendo o ouvinte se sentir dentro de um filme do gênero (ou da performance his-tó-ri-ca da MDNA Tour)

3. I'm Addicted
Depois de matar seu amante, nada melhor do que entrar numa festa e dançar louca no ácido, não é? Não exatamente, aqui o eu-lírico está viciado em alguma coisa que não está bem definida, podendo estar amando novamente ou simplesmente numa trip numa balada qualquer. Já a melodia ganha camadas sucessivas de sintetizador, o que combina com as distorções na voz de Madonna. É digital pop que chama, né?

4. Turn Up The Radio
Terceiro single e candidato forte a pior música do álbum, 'Turn Up The Radio' não tem nenhum ponto forte. A letra fala sobre escapar da realidade com música e dança de uma forma boba e repetitiva, o que só piora com a melodia datada e monótona e o clipe preguiçoso gravado durante a turnê. Um erro retumbante. Não tem cara de Madonna, às vezes parece que a cantora gravou uma letra feita em 15 minutos por cima de uma melodia de algum DJ aleatório.


5. Give Me All Your Luvin' feat. Nicki Minaj e M.I.A.
Abrindo os trabalhos do álbum, esse single consegue grudar na cabeça do ouvinte, algo digno das influências cheerleader empregadas. A melodia é interessante, construída com sintetizadores oitentistas e percussão que tem um algo de glam rock. Já a letra é uma crítica à indústria fonográfica americana, que usa seus artistas e os jogam fora quando não são mais rentáveis, talvez por causa da mágoa de, após quatro anos de hiato, Madonna voltar tendo sua coroa questionada por algumas outras divas mais recentes. (podem rir)

O clipe mostra as rappers como líderes de torcida, enquanto Madonna é perseguida por paparazzi e defendida por jogadores de futebol americano. Todas as analogias são tecidas nesse meio. As referências ao trabalho da cantora nos anos oitenta, principalmente no fim do clipe, o dão um clima um tanto nostálgico.


6. Some Girls
A melodia densa e barulhenta dessa música, que às vezes torna a letra difícil de ser ouvida, se chama hard style, que era o que estava em alta entre os DJs europeus na época. Todo esse peso não é necessariamente negativo, e de alguma maneira combinou com essa música. Aqui, Madonna se compara a 'outras garotas', diferenciando-se delas sem necessariamente rebaixá-las. Ou seja, pode ser interpretada como um complemento da faixa anterior, se pensarmos no contexto de indústria musical.

7. Superstar
Apesar de não ter tido um clipe, essa faixa ganhou CD-single no Brasil, distribuído pela Folha de São Paulo. Os sintetizadores e as distorções são bem colocados, mas a música em si é meio boba, meio teen pop, também por causa da letra, uma canção de amor água-com-açúcar. Lourdes, a filha de Madonna, faz backing vocal nessa música, mas quase não aparece. 

8. I Don't Give A feat. Nicki Minaj
Mesclando batidas industriais/hip hop com a pompa do canto gregoriano, esse single desperdiçado é simplesmente maravilhoso. Ela critica a forma que a imprensa tratou Madonna (e ainda trata, não é?), principalmente após o divórcio. O rap de Nicki está bem dosado e bem colocado, e a frase 'There's only one queen, and that's Madonna, bitch' já é marcante por si só. Apesar de relativamente simples, a performance dessa música da turnê é simplesmente apoteótica.

9. I'm a Sinner
Pegando um pouco mais leve na batida, essa música até se parece um pouco com 'Beautiful Stranger'. Ao lado dos sintetizadores, dá pra perceber que existe um pouco de instrumentação orgânica, particularmente teclado. Não é tão acelerada ou urgente como as outras canções até agora, mas funciona, e as analogias com os santos na segunda metade são bem colocadas.

10. Love Spent
Uma das canções mais acústicas de 'MDNA', ela alia os sintetizadores mais discretos com banjo/alaúde em uma melodia funky com um levíssimo toque country, que se deixa temperar por violino. A letra faz referência à indenização milionária que Madonna teve que pagar depois do divórcio com Guy Ritchie. Mais um single desperdiçado, sem sombra de dúvida.

11. Masterpiece
Single promocional do álbum, essa música é ganhadora do Globo de Ouro de melhor canção original, constando no filme 'W.E.', que Madonna co-escreveu. Mais calma, com batida mais lenta, essa faixa deixa os sintetizadores em segundo plano, priorizando violão e teclado. Essa queridinha da crítica resume a ideia do filme: o sentimento de fraqueza e dúvida por estar apaixonado por uma 'obra de arte', no caso, de uma plebeia americana por um príncipe inglês, que abdicou do posto para ficar com ela.

12. Falling Free
Na contramão das batidas eletrônicas cheias de sintetizadores até agora, o álbum se encerra com uma balada orquestrada, dominada por violino e piano. É uma das baladas mais bonitas da cantora em vários anos, onde finalmente sua voz pode ser ouvida com clareza, sendo praticamente um crime que ela não tenha sido melhor aproveitada. 'Falling Free' é o reconhecimento de que toda a raiva descontada no álbum não vale a pena, é a famosa ressaca moral, terminando a jornada de expiação começada no início desse trabalho.

Letra:7,0
Melodia e Instrumentação: 8,5
Vocais: 7,5
Videografia: 6,0
Identidade: 8,0
Nota final: 7,4



Análise: 'MDNA' mostra porque não é bom deixar Madonna com raiva Análise: 'MDNA' mostra porque não é bom deixar Madonna com raiva Reviewed by Wilson Barroso on domingo, outubro 15, 2017 Rating: 5