Análise: Anastacia nos ensina a lidar com as rasteiras da vida em 'Evolution'


Desde 2014 sem lançar um novo álbum de estúdio, Anastacia esteve longe de estar aposentada, tendo lançado nesse intervalo um álbum ao vivo e outro de compilação, com direito a um cover de Christina Aguilera (ouça aqui).

Anastacia Lyn Newkirk, nascida em 17 de Setembro de 1968 na cidade de Chicago, é uma artista americana que começou como dançarina, apesar de uma crise da doença de Crohn tê-la debilitado muito no começo de sua carreira, a ponto da cantora ter que reaprender a andar. E não seria a primeira vez que uma doença séria a abalaria seriamente: a cantora teve dois episódios de câncer desde então.

Seu primeiro disco, ‘Not That Kind’, lançado em 2000, foi um fracasso nos Estados Unidos, não tendo conseguido atingir sequer o top 150 da Billboard, mas foi um sucesso incrível na Europa e na Oceania, tendo vendido mais de sete milhões de cópias mundialmente, com a ajuda dos hit singles ‘I’m Outta Love’ e ‘Not That Kind’. Isso é uma das incontáveis provas de que pop de qualidade é muito mais que o top 20 dos charts americanos.

Essa tendência se repete ao longo da carreira da cantora, que apesar de ser  relativamente esquecida em seu país natal, é muito querida na Europa e na Oceania, seja pelo seu timbre diferenciado ou pela mistura exótica de estilos musicais que canta, chamada carinhosamente de ‘Sprock’ (soul + pop + rock).

Em 15 de Setembro de 2017, precedido pelo single ‘Caught in the Middle’, foi lançado o álbum ‘Evolution’. Trata-se de um álbum que traz bastante energia e intimidade da cantora, contendo canções rock muito dinâmicas, faixas pop grudentas e baladas tocantes. O jornal ‘The Guardian’ inclusive elogiou bastante este trabalho, destacando-o como uma “alternativa à atual situação da música pop, que é de uma ligeiramente nauseabunda mistura de canções de ninar com produções barulhentas e rascantes”.

Este álbum pode ser dividido em duas partes, uma mais comercial, com letras mais genéricas e batidas menos marcantes (entre a primeira e a sétima faixa); e outra mais artisticamente desenvolvida (a partir da oitava faixa), onde a artista pode trabalhar com letras mais profundas e melodias mais experimentais. Quando isso acontece, geralmente todos os singles são extraídos da primeira parte.

Veja nossa análise faixa a faixa:

1. Caught in the Middle
O lead single do álbum pega carona na onda atual da música pop de introduzir melodias eletrônicas mais abrasivas nas canções, mas aqui isso é feito de uma forma mais comedida, aliando esses sintetizadores a violino e riffs de guitarra, o que dá um ar mais rock a essa canção, que não deixa de ser pop e dançante. Tudo isso acompanha um texto um tanto genérico, de uma canção de amor boa e bem-feita, mas nada especial. O clipe, por outro lado, tem uma fotografia deslumbrande, vale muito a pena assistir.


2. Redlight
Essa faixa começa com piano e com algumas distorções estranhas, mas logo é acompanhada por bateria, instrumentos de sopro e castanholas discretíssimas. Ao contrário da primeira faixa, esta tende mais ao jazz e ao soul do que ao rock. A letra faz uma analogia interessante entre a busca pelo amor e dirigir um carro, mas no fim das contas, não é uma faixa das mais memoráveis.

3. Stamina
‘Stamina’ foi a primeira escolha para título do álbum, que logo foi trocado para ‘Evolution’. Essa é a faixa mais acústica até agora, com uma melodia mais tranquila, que alia piano, violino e coro, se assemelhando no primeiro momento ao soul, mas se tornando mais dinâmica nos refrões. Ela fala sobre procurar forças pra continuar indo adiante, apesar dos golpes que a vida dá. 

4. Boxer
Tendendo para o rock, essa faixa tem um instrumental mais complexo e melódico, aliando sintetizadores e distorções vocais bem dosadas a coro, guitarra e violino, entre outros instrumentos. A letra traz mais uma analogia interessante, de um boxeador levando as pancadas da vida, mas levantando e continuando a lutar. Resume bem a história de Anastacia, sendo uma boa aposta para single.

5. My Everything
Pelo nome da música, já dá para saber que é uma baladazinha, certo? Sim, mas isso não é exatamente uma coisa má. ‘My Everything’ é uma balada de voz, violino e piano, com instrumentação discreta mesmo nos pontos em que cresce, ainda mais acústica que ‘Stamina’. A letra, no entanto, não deixa claro se ela se refere a uma pessoa amada ou a Deus/força superior, a quem ela recorre nas horasde dificuldade.

6. Nobody Loves Me Better
Voltando ao clima mais profano, essa canção traz sintetizadores e distorções, que complementam uma melodia uma tanto jazzy, com teclado e instrumentos de sopro, que desaguam num tipo de trap no gancho. É uma canção de amor bastante interessante, no fim das contas.

7. Reckless
Essa faixa pop traz consigo o coro e a ponte do soul, e é um tanto nostálgica, lembrando as músicas pop da década de 2000. Ela traz guitarras e bateria amarradas a um sintetizador suave e pontual. Sua letra trata o amor de forma um tanto irônica, mas não por isso negativa.

8. Not Coming Down
Diminuindo o ritmo e começando a parte menos comercial do álbum, essa canção é governada por piano e batida de R’n’B, mas permite que outros instrumentos apareçam suavemente, bem como o coro. É mais uma canção sobre resiliência, onde a cantora reconhece que há momentos em que a vida parece insustentável, mas é preciso ter coragem e fé para dar a volta por cima.

9. Before
Apesar de começar com uma melodia minimalista, aos poucos essa faixa vai ganhando camadas de um sintetizador lento aliado a uma batida de bateria, mais orgânica. Já a letra complementa a faixa anterior: se em ‘Not Coming Down’ o eu-lírico está desesperado, em ‘Before’ ele reconhece sua força e se impõe sobre as dificuldades aplicadas sobre ele.

10. Pain
‘Pain’ começa com os sintetizadores crescentes, do tipo que faz o ouvinte esperar uma explosão da melodia a qualquer momento. E isso realmente acontece, acrescentando violino e uma nota alta da cantora. Mas o ritmo é sensual, muito rápido para ser balada e muito lento para ser dançado. A letra complementa as duas faixas anteriores, falando sobre empatia e a forma que o eu-lírico se solidariza com a dor de outra pessoa.

11. Why
Mais orientada para o gospel e soul, essa canção é acústica, havendo espaço apenas para o piano e para a voz marcante de Anastacia, além de um solo de violino e coro que aparecem na segunda metade da canção. Aqui, ela fala diretamente com o ouvinte, pedindo para que ele pare de se lamentar e tente ver o lado bom das coisas, tirando daí forças para sair das situações negativas.

12. Boomerang
Voltando com os sintetizadores e as distorções, essa canção é muito mais dinâmica que a anterior, trazendo bateria e guitarra. Ela tende um pouco ao reggae, se prestarmos atenção. Sua letra fala sobre a famosa ‘lei do retorno’, onde tudo que é dito e falado por alguém retorna para esta pessoa em algum momento.

13. Higher Livin’
O álbum é fechado por uma canção que tende bastante à disco music. Se não fossem os sintetizadores modernos, poderíamos dizer que ela veio direto dos anos oitenta. Sua letra reforça o conceito da segunda metade do álbum: levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima.





Análise: Anastacia nos ensina a lidar com as rasteiras da vida em 'Evolution' Análise: Anastacia nos ensina a lidar com as rasteiras da vida em 'Evolution' Reviewed by Wilson Barroso on domingo, outubro 22, 2017 Rating: 5