Kesha mostra suas cores verdadeiras em 'Rainbow'


O que falar de Kesha? A cantora apareceu na mídia em 2009, colaborando com o rapper Flo Rida no single ’Right round’, e explodiu em 2010, com o disco ‘Animal’ e hits icônicos como ’Tik tok’ e ‘Take it off’. Deste surgimento estrondoso até 2013, Kesha ficou conhecida pelo pop eletrônico que não deixa ninguém parado quando toca, abusando de distorções, efeitos e autotune (inclusive gerando certo preconceito da crítica, que a acusava de não saber cantar e de se escorar em edição de som para conseguir vender).

Mas aí veio o baque. Em 2014, Kesha foi internada em uma clínica de reabilitação por conta de distúrbios alimentares. E como se não pudesse piorar, em outubro deste ano, ela abriu um processo com um certo Dr. Luke, dono de sua gravadora, a Kemosabe Records, acusando-o de assédio e abuso sexual, violência de gênero, abuso emocional e violação de práticas contratuais do estado da Califórnia, ao longo de todo o período em que trabalharam juntos. Em 2016, a juíza Shirley Kornreich rejeitou todas as acusações contra Dr. Luke. Portanto, Kesha ainda está presa à gravadora de Dr. Luke via contrato.

E aqui fica o apelo: você que está sofrendo abuso, independente de sexo ou gênero, não fique calado(a), ligue agora para 180 ou denuncie o abusador.

Durante esses eventos, a cantora pouco apareceu na mídia fora dos tablóides e portais de notícias. Sua aparição mais notável foi colaborando com o DJ Zedd em uma releitura do clássico atemporal ‘True colors’, de Cyndi Lauper. E as cores verdadeiras de Kesha apareceram com força total em um arco-íris (desculpem o trocadilho, gente).

Até que em 2017, a notícia tão esperada: Kesha estava voltando com um álbum novo, após um atribuladíssimo hiato de quase cinco anos. Mas ‘Rainbow’ tem pouco a ver com os álbuns anteriores da cantora, que eram repletos de canções ótimas, mas de letras rasas, feitas para a pista de dança. Este trabalho, mais do que músicas ótimas e densas, tem uma coisa que faltava um pouco no que veio antes dele: alma.

A mudança radical já começa na capa do álbum, que é carregada de elementos psicodélicos, remetendo às décadas de 60 e 70, além de um toque de surrealismo. A cantora está nua e de costas, mas aqui o simbolismo da nudez não se refere ao erotismo, mas à sinceridade, à fragilidade e à desproteção da mulher que se despe para mostrar o verdadeiro ‘eu’, que caminha em direção à luz, que seria a liberdade, a felicidade, e porque não o reconhecimento?

Já as músicas são inspiradas nas verdadeiras referências musicais de Kesha, como Iggy Pop, Dolly Parton e The Rolling Stones. Este álbum pega mais leve nas batidas eletrônicas e nos efeitos, e não é tão adequado para as pistas de dança quanto os outros, mesclando pop com country, rock e mesmo gospel. Os vocais de Kesha estão maravilhosos, e podemos apreciá-los sem tantas distorções e efeitos que eram empregados antes. E acima de tudo, as letras são muito mais significativas (e autobiográficas), tocando em temas como feminismo, empoderamento e memórias de uma pessoa que sofreu na carne os abusos e excessos de um meio tão machista e ingrato com suas grandes cantoras como a indústria fonográfica.

Veja nossa análise faixa a faixa:

1. Bastards
A faixa de abertura é delicada e acústica, com uma vibe country, apenas voz e violão em sua maior parte. O coro e os sintetizadores suaves perto do final da música deixam essa parte tendendo levemente o dreampop. A voz de Kesha já começa a mostrar sua evolução, visível em algumas notas altas que ela alcança. É uma canção sobre autoafirmação e assédio moral, sobre não deixar pessoas más te deixarem para baixo.

2. Let’em talk (feat. Eagles of Death Metal)
Contrastando muito com a faixa anterior, ‘Let’em talk’ já começa com guitarras super evidentes, dando um clima rock pra essa faixa logo de cara. As palmas, vocalizações e teclado tornam essa faixa digna de um álbum feminino de rock da década de noventa. Já o texto é a reação esperada de quem escutou a faixa anterior: ignorar os haters e viver a própria vida com autenticidade.

3. Woman (feat. The Dap-King Horns)
O primeiro single promocional do álbum, essa faixa tende ao country e ao funk, sendo um tanto vintage. Ela alia piano, sintetizadores, palmas e claro, muitos instrumentos de sopro (como saxofone e trompete). É um hino feminista bastante animado, onde o eu-lírico diz que é uma mulher independente e que não precisa se escorar em homem nenhum pra ser feliz e bem-sucedida. Foi parcialmente inspirada na reação da própria cantora a um dos bilhões de comentários infelizes de Donald Trump ("grab her by the pussy").

O clipe ilustra bem as intenções da música, mostrando Kesha cantando numa espécie de saloon, invertendo as posições tradicionais de homens e mulheres em clipes de rappers masculinos (algo similar ao clipe de Music’, de Madonna)


4. Hymn
A quarta faixa de ‘Rainbow’ nos dá uma Kesha com a voz ligeiramente distorcida (como nos álbuns anteriores) em uma faixa com a melodia um tanto orientalizada e dominada por sintetizadores profundos, e palmas no refrão. Seria facilmente uma faixa de dream pop, se a voz da cantora não estivesse tão dominante em relação à melodia.

A letra dessa canção acolhe todos os que sofrem com negatividade alheia, assédio e bullying, sendo uma grande de mensagem de ‘siga em frente, você não está sozinho’, sendo semelhante a ‘Born this way’ de Lady Gaga, mas extrapolando o preconceito contra a classe LGBT, se aplicando para todo tipo de discriminação/abuso.

5. Praying
Primeiro single oficial do álbum, essa balada poderosa foi a porta-voz da nova fase de Kesha. Com vocais limpos (eventualmente alcançando notas altas, com as quais não estávamos acostumados) e instrumentação gospel, com piano e coro, ‘Praying’ foi praticamente escrita para Dr. Luke, nos contanto como Kesha se sentiu com os crimes do produtor e com o processo, inclusive como tudo isso quase a destruiu. E ao que tudo indica, ela o perdoou, mas deseja que ele mude para melhor.

O clipe é bastante simbólico e merecia um texto inteiro só para destrinchá-lo. Resumidamente, mostra as fases de Kesha durante esse processo turbulento, desde sua quase-destruição (seu velório assistido por homens com cabeça de porco e a cantora à deriva em destroços), sua reação (fugindo dos homens-porcos que a perseguem), sua redenção (numa espécie de capela, onde o perdão a permite se livrar de tudo isso, e subindo por uma montanha) e sua emancipação (Kesha caminhando sobre a água, livre de toda a carga do que passou).


6. Learn to let go
Segundo single promocional do álbum, esta faixa é menos pesada que a anterior. Sua melodia é mais animada, e conta com bateria e sintetizadores, além de teclado eletrônico, sendo bastante radiofônica. Sua letra lida com deixar o passado para trás, não deixando o que já aconteceu te definir para sempre (é a continuação lógica de ‘Praying’, em termos de letra).

O clipe é bem leve, mostrando gravações da infância de Kesha, enquanto a mesma dança na natureza e recria algumas cenas dessas gravações.


7. Finding you
Voltando para o clima country, essa canção é liderada por violão e bateria, com palmas e piano sendo acrescentadas no gancho e no refrão. Tem a letra menos forte até esse momento do álbum, sendo uma canção de amor até bem bonitinha, mas nada memorável.

8. Rainbow
A canção-título do álbum é uma balada (tão animada e dinâmica quanto uma balada possa ser), de piano, violino e voz, com coro eventual. A letra retoma a temática de ‘Learn to let go’, sendo um lembrete pessoal da cantora, para deixar a escuridão do passado para trás.

9. Hunt you down
Uma das canções mais country do álbum apareceu na introdução do clipe de ‘Woman’. Tem toda a instrumentação típica, com banjo e acordeão. A letra fala basicamente que se a pessoa que conquistou o amor do eu-lírico o machucar, ele vai caçá-la (provavelmente de uma forma bastante agressiva).

10. Boogie feet (feat. Eagles of Death Metal)
Mais uma vez o clima rock aparece no álbum. Bateria, guitarra, teclado dominam a instrumentação, que acompanham a voz de Kesha, que é distorcida em algumas partes. É uma das faixas com a letra mais leve do álbum, falando basicamente sobre dançar pra caramba com alguém.

11. Boots
Essa canção é pra quem estava com saudade da Kesha das antigas. Ela começa com o barulho de um falcão e tem uma batida com sintetizadores acelerados e percussão country ritmada, muito dançante e animada. A letra é bem genericazinha, sobre encontrar o amor em um noitada.

12. Old flames (Can’t hold a candle to you) (feat. Dolly Parton)
Essa canção, originalmente cantada por Dolly Parton em seu álbum ‘Dolly, Dolly, Dolly’ (1980), foi composta pela mãe de Kesha, a compositora Pebe SebertVeja a versão original aqui

Em sua nova edição, essa faixa ganha guitarras e/ou em alguns trechos, mas ainda é uma balada country romântica e melancólica (bluegrass, sendo mais específico), lembrando em alguns momentos músicas de parques de diversões antigos. Ela se trata basicamente de relacionamentos passados.

13. Godzilla
Essa canção é bem rapidinha e bonitinha, sendo composta por voz, violão e piano. Ela fala sobre ter um relacionamento com Godzilla, o monstro japonês, que pode simbolizar um parceiro que é mal-visto por algum motivo, mas que também merece amar e ser amado.

14. Spaceships
Fechando a versão standard do álbum, essa canção é uma baladinha tão country quanto possa ser, com banjo, alaúde, coro e campana (aquele sino que se pendura em pescoço de vaca). O álbum termina com o que seriam ruídos da própria nave.

A letra, inspirada por um avistamento de OVNI da própria Kesha em Joshua Tree, fala sobre achar o lar após a morte, pois por se sentir um ‘alienígena’ entre as pessoas com as quais convive, o eu-lírico acredita que uma nave irá buscá-lo para levá-lo para seu lar verdadeiro.

Letra: 7,5
Melodia e Instrumentação: 6,5
Vocais: 8,0
Videografia: 9,0
Identidade Visual: 8,0
Nota final: 7,8


Kesha mostra suas cores verdadeiras em 'Rainbow' Kesha mostra suas cores verdadeiras em 'Rainbow' Reviewed by Wilson Barroso on sábado, agosto 12, 2017 Rating: 5