Kylie Minogue explode os termômetros em 'Fever'


There’s only one Kylie...

Kylie Minogue é sem dúvida uma das maiores cantoras da Austrália (quiçá a maior), representante do país na aristocracia da música pop, conhecida pela voz poderosa, pelos shows superproduzidos e pelas músicas deliciosas.

Kylie Ann Minogue, nascida em 28 de Maio de 1968 em Melbourne, Austrália, foi catapultada para fama atuando na novela Neighbours. Seu desempenho estrondoso ao cantar ‘The locomotion’, de Carole King e Gerry Goffin, no show beneficente da Fitzroy Football Club, fez a então atriz chamar a atenção da Mushroom Records, assinando seu primeiro contrato musical e lançando seu primeiro álbum, ‘Kylie’, em Julho de 1988, vendendo mais de cinco milhões de cópias mundialmente.

Entre 1988 e 2001, Kylie experimentou diversos ritmos e batidas, passando por momentos de sucesso e glória e por outros de fracasso e ostracismo. Mas essa verdadeira camaleoa soube se reinventar, e, dando seguimento ao seu revival ‘Light years’ (2000), em 1º de Outubro de 2001 uma pequena obra-prima chamada ‘Fever’ foi lançada, quebrando todos os recordes na discografia da cantora, tendo ultrapassado as seis milhões de cópias vendidas, e trazendo à luz a canção assinatura de Kylie, ‘Can’t get you out of my head’, conhecida por ‘la la la’ entre os íntimos.

Nos Estados Unidos, esse álbum ganhou outra capa, a mesma do single de ‘In your eyes’.



Este álbum é absolutamente elegante, trazendo o que havia de melhor em dance pop, carregado de influências de disco music e de batidas das décadas de 70 e 80, lembrando em certos pontos grandes bandas e cantoras como ABBA, Donna Summer e Diana Ross. É realmente icônico, influenciando visceralmente álbuns futuros como ‘Confessions on a dance floor’ de Madonna, e ‘Paris’, de Paris Hilton.

A estética do álbum é bem típica do começo da década de 2000, prezando pelo minimalismo, pelo abuso da cor branca e pelo futurismo, sendo este muito explorado na ‘Fever Tour’, que começou em 2002.

Sendo um trabalho voltado pro dance pop, ‘Fever’ foca em melodia e instrumentação, sem se preocupar tanto com letra e camadas de interpretação. Mesmo assim, seu texto é um pouco mais sofisticado do que o de inúmeros álbuns e singles pop/dancepop que estouram por aí. Em geral, é bem fácil de digerir e apreciar.

Veja nossa análise faixa a faixa:

1. More, more, more
A primeira canção do álbum é a ponte perfeita entre ‘Light years’ e ‘Fever’. É muito fresca e divertida, levando o ouvinte direto pra Ibiza ou Mykonos, sendo orientada fortemente para a disco music, que voltou à moda de forma retrabalhada com sintetizadores diferenciados no começo do século XXI.

A voz suave de Kylie canta sobre curtir a vida com a pessoa amada, no caso, dançando. Em alguns trechos da segunda metade da canção ela utiliza notas um pouco mais altas.

2. Love at first sight
O terceiro single do álbum é a segunda canção da carreira de Kylie a ter esse nome, sendo a primeira pertencente ao seu primeiro álbum, ‘Kylie’ (1988). Ela começa com uma batida crescente de piano eletrônico, desaguando numa melodia puramente dance, lembrando Daft Punk, Modjo e outros nu-disco que tocavam bastante na época. Em alguns momentos a melodia se torna mais discreta enquanto a batida se mantém, como se estivesse abafada.

A letra, como o nome sugere, lida com amores à primeira vista. Em um dia em que tudo parecia morno e sem graça, o eu-lírico sente algo forte ao se apaixonar logo de cara por alguém. (quem nunca, né?)

No clipe, Kylie e os dançarinos performam a música num ambiente meio digital, que mescla gravação de carne e osso com formas geométricas, lembrando alguns jogos do começo da década.


3. Can’t get you out of my head
O lead-single e maior hit da cantora (até agora) é tão poderoso que fez a australiana atingir altas posições nas tabelas dos Estados Unidos, país que geralmente a ignora. Essa é a canção mais grudenta do álbum, seja pelo ‘la la la’, seja pela batida-chiclete que os sintetizadores e palmas proporcionam. A voz quase sussurrada da cantora em algumas partes do gancho dá a essa canção um clima diferenciado.

A letra é bastante genérica e literal, quase sem utilizar recursos estilísticos e figuras de linguagem para dizer que o eu-lírico está apaixonado e não consegue tirar essa pessoa da cabeça.

O clipe, pegando carona na onda futurista do álbum, mostra Kylie dirigindo em uma cidade do futuro de forma alternada com as cenas de dança (que é um tanto robótica, no sentido literal, dando a entender que os dançarinos são andróides), seja com dançarinos vestidos de branco ou de preto a céu aberto ou de vermelho numa espécie de estúdio, onde Kylie usa um tipo de robe sensualíssimo, parecido com o usado na arte do álbum.


4. Fever
A canção-título do álbum começa com uma batida de sintetizadores que imitam o barulho de equipamentos de hospital. É uma canção bastante sensual, por ser um tanto mais lenta e utilizar coro em algumas partes do gancho. Os momentos em que a música para e Kylie sussurra ‘feel the fever’ com vocoder são um charme a parte.

A letra, ao contrário da canção anterior, é construída em cima de figuras de linguagem relacionadas a médicos e doenças, onde o eu-lírico fala de seu desejo sexual de forma bastante interessante.

5. Give it to me
A faixa mais curta do álbum abusa do vocoder na introdução e é repleta de efeitos parecidos com telefones tocando. A batida de sintetizador é envolvente e convida a dançar, mas é do tipo que se tornaria chata se a música tivesse mais trinta segundos de duração. É um tanto puxada para o teen pop.

A letra não diz muito, apena reforça as intenções do eu-lírico de ficar com uma pessoa pela qual está apaixonado, mas que não entendeu isso ainda.

6. Fragile
A primeira metade do álbum se fecha com o que mais se aproxima de uma balada ao longo de 12 faixas. Sua melodia mais lenta alia sintetizadores e batida de piano eletrônico com alguns aspectos de música ambiente. A voz de Kylie, no entanto, sofre reverberação em muitos versos, enquanto é acompanhada por uma espécie de coro (se é que se pode chamar assim, pois são vocalizações e sussurros da própria Kylie).

A letra dessa faixa é simples e mira direto no coração do ouvinte. Aqui, o eu-lírico expõe sua fragilidade e seus sentimentos para a pessoa amada.

7. Come into my world
O quarto single de ‘Fever’ mescla sintetizadores pesados e teclado eletrônico em uma melodia de certa forma oriental. Assim como ‘Can’t get you out of my head’, é um tanto grudenta e tem algumas vocalizações, não tão proeminentes quanto o ‘la la la’ do lead-single. Essa canção rendeu a Kylie seu primeiro Grammy Award, em 2004, na categoria Best dance recording.

A letra é bem literal, e convida a pessoa amada a entrar na vida do eu-lírico, sendo praticamente uma súplica por amor.

O clipe dessa canção é bastante original. Mostra Kylie cantando andando por uma rua enquanto a câmera gira vagarosamente, e a cada volta completa, aparece um ‘clone’ da cantora.


8. In your eyes
O segundo single do álbum é uma de suas melhores canções, sendo orientada para o dance e o disco com traços de trance e house. E dessa mistura surge um verdadeiro hino para as pistas de dança.

A letra dessa canção é praticamente uma releitura da de ‘Love at first sight’, mas dessa vez ambientada numa festa.

O clipe, de certa forma também futurista, mostra Kylie e dançarinos performando em um ambiente colorido, intercalando com cenas onde Kylie simplesmente dança em um fundo de luzes piscantes coloridas.


9. Dancefloor
Essa é de longe a música mais disco do álbum. Para os desavisados, passaria sem problemas por uma música da década de 70, não fossem os sintetizadores modernos empregados aqui e a voz característica de Kylie.

A letra fala sobre descontar na pista de dança o sofrimento causado pelo fim de um relacionamento.

10. Love affair
A décima faixa do álbum não é nada óbvia. Guitarra e teclado enriquecem a melodia dominada por sintetizadores. As distorções em vocalizações de Kylie ao longo da faixa têm um timing impecável, tornando ‘Love affair’ um destaque entre as faixas que não se tornaram single do álbum.

Já a letra resgata o tema de ‘In your eyes’, tocando na sensação de se apaixonar subitamente por alguém numa festa/balada.

11. Your love
Assim como ‘Fragile’, essa faixa se aproxima do formato de balada, sem sê-la. Ela tem os sintetizadores mais suaves em relação às anteriores, incluindo percussão e violão na melodia, que é um pouco mais acústica. A voz de Kylie está mais doce e com menos efeitos, muito adequadas para a letra, que é basicamente uma declaração de amor muito singela e meiga.

12. Burning up
Após tantas faixas para pista de dança, a introdução dessa canção, quase uma bossa nova com um coro delicado e violão, dá a entender que Kylie está cansada e vai finalizar o álbum com calma, certo? Errado: o refrão explode em sintetizadores e guitarra distorcida numa melodia bastante dance. Ao longo dessa faixa, essas duas ‘personalidades’ da melodia se alternam.

Aqui, o eu-lírico mistura todos os temas do álbum, mesclando a sensação de se apaixonar à euforia em uma pista de dança e os paralelos traçados com calor, fogo e febre (afinal, o álbum se chama ‘Fever’).

Letra: 6,5
Melodia e Instrumentação: 9,0
Vocais: 9,0
Videografia: 7,0
Identidade Visual: 8,0
NOTA FINAL: 7,9


Kylie Minogue explode os termômetros em 'Fever' Kylie Minogue explode os termômetros em 'Fever' Reviewed by Wilson Barroso on domingo, julho 30, 2017 Rating: 5