Kate Bush vai às nuvens e ao fundo do mar em 'The Hounds of Love"


Kate Bush é, sem sombra de dúvida, uma das cantoras mais importantes do Reino Unido, pelo pioneirismo, pela arte difusa em sua obra, pelas letras poéticas e pela coragem de afrontar um meio tão machista quanto a indústria fonográfica, em plena década de 70. Desde então a cantora vem influenciando vários artistas que amamos, como Grimes, Florence Welch, Björk e Dido.

Catherine Bush nasceu em 30 de Julho de 1958 em Bexleyheath, nos arredores de Londres. Ela foi catapultada para a fama em 1978 com o smash hit ‘Wuthering heights’, do álbum ‘The kick inside’, com apenas 19 anos de idade. Desde então, ficou marcada no cancioneiro britânico como uma artista ousada, excêntrica e até mesmo agridoce em alguns pontos.

Em 1985, tendo lançado já quatro álbuns de sucesso e canções icônicas como ‘Army dreamers’, ‘Babooshka’ e ‘Sat in your lap’, um novo álbum da cantora era ansiosamente aguardado, principalmente em sua Inglaterra natal. Eis que em agosto de 1985, o lead-single “Running up that hill (A deal with God)” foi lançado, alcançando posições altíssimas nos charts britânicos e preparando o terreno para o lançamento do álbum, em 19 de Setembro de 1985.

Esse é, até hoje, o álbum mais vendido da cantora, com mais de 1,1 milhões de cópias vendidas mundialmente (das quais 600 mil apenas nas ilhas britânicas). Ele é dividido em duas partes: ‘The hounds of love’, da primeira à quinta faixa, mais comercial e recipiente de todos os singles; e ‘The ninth wave’, uma peça conceitual com várias interpretações possíveis (sendo a mais aceita a de que se trata de uma mulher que flutua à deriva no mar, oscilando entre a realidade hostil e seus sonhos), da sexta à décima-segunda faixa. Vale lembrar que a própria Kate compôs todas as canções desse álbum.

Este trabalho  foi eleito como o 48º melhor álbum de todos os tempos pela revista ‘Q’ em 1998, e terceiro melhor álbum feminino de todos os tempos, em 2000, pela mesma revista. E não é para menos: é um álbum muito bem amarrado, em que mesmo os singles são verdadeiramente catárticos para quem aprecia baroque pop e art pop.

Musicalmente, esse trabalho ainda mantém o uso de sintetizadores aliados a violino e piano que a cantora vinha usando desde o começo da carreira. Mas dessa vez, ela deu mais atenção à sua ascendência irlandesa, utilizando várias camadas vocais e instrumentos folk da Irlanda, como gaita de foles e thin whistle.

Veja nossa análise faixa a faixa:

1. Running up that hill (A deal with God)
O lead single e maior hit do álbum é uma canção a frente de seu tempo, abordando o feminismo pelo viés da empatia. Seu maior argumento é de que se homem e mulheres trocassem de lugares por um tempo (através de um acordo com Deus, como o subtítulo sugere), eles se tratariam com mais igualdade, sem sexismo.

O subtítulo ‘A deal with God’ seria o nome da faixa, mas por medo de que isso prejudicasse seu desempenho em países religiosos, o título foi trocado.

A canção cresce devagar, com uma batida em bateria que parece um galope. Logo a balalaica e os sintetizadores se juntam ao instrumental, que envolvem essa canção midtempo de uma forma muito gostosa. Perto do fim da música, Kate canta um trecho com a voz distorcida, recurso pouco usado no mainstream da época, mas já explorado pela cantora em álbuns anteriores.

O clipe mostra Kate e o dançarino Michael Hervieu em uma peça de dança representativa, vestidos com hakamas orientais. Também mostra um correndo no sentido oposto de uma multidão vestindo máscaras com o rosto do outro.

Essa canção foi usada no encerramento dos Jogos Olímpicos de Londres (2012), assista aqui.


2. Hounds of love
A segunda faixa e terceiro single trata de um tema mais ameno, basicamente o medo de se apaixonar, sentimento comparado a ser perseguido por uma matilha de cães.

Ela começa com um sample de um filme britânico de terror (Night of the Demon, 1957), que diz ‘it’s in the trees! It’s coming!’. Logo em seguida, essa canção dinâmica desenvolve uma batida bem marcada pela bateria, suportada por um sintetizador suave e até mesmo por violoncelo. Há também vozes humanas imitando o uivo de cães no ritmo da canção.

O clipe, dirigido pela própria Kate, é baseado no filme 'The 39 Steps' de Alfred Hitchcock. Ele mostra a cantora como uma espécie de secretária, que foge com um homem de uma espécie de visita técnica para uma festa, de onde ambos fogem em seguida


3. The big sky
O quarto e último single do álbum é uma caminhada de volta à infância, relembrando os pequenos prazeres que a artista costumava ter, mas que parou de praticar à medida que foi crescendo, como se deitar e ver imagens nas nuvens.

Sua melodia é elegante, contando mais uma vez com bateria, combinada com violão e teclado. Ela também utiliza coro e palmas, além de 'didgeridoo', um instrumento de sopro típico da Austrália. É instrumentalmente rica e empolgante.

O videoclipe mostra Kate em diferentes figurinos observando o céu, sentada em uma chaminé, enfrentando intempéries como chuva, neve e vento. Em alguns momentos, o movimento das nuvens é acelerado, lembrando um pouco nesse sentido o clipe de ‘Ray of light’, de Madonna. Na segunda metade, a lua e o céu são representados como um palco.


4. Mother stands for comfort
A quarta faixa foi a única canção da parte 'Hounds of love' do álbum a não ser single. Essa foi uma escolha sábia, pois essa é a canção mais densa do primeiro segmento. É uma música ambígua, ao mesmo tempo que parece um elogio ao amor incondicional das mães, também fala sobre uma mãe presa no estereótipo de maternidade, 'forçada' a encobrir e amar um filho louco e criminoso.

É uma canção mais lenta que as três anteriores, com uma bateria preguiçosa e sons de vidro quebrando ao longo de toda a duração da faixa. Ela ainda conta com baixo e um sintetizador o lento. Ao ser escutada sem atenção, definitivamente não parece ser sobre o que é.

5. Cloudbusting
O segundo single do álbum encerra a sessão mais comercial do álbum de uma forma otimista. Ele fala sobre a relação entre o psicólogo e filósofo Wilhelm Reich com seu filho Peter, do ponto de vista de um Peter mais velho, baseado em seu livro 'A book of dreams'. Ele descreve o tempo que os dois passavam juntos fazendo chover com uma máquina desenvolvida por Wilhelm, e sua súbita prisão, tocando na dor da perda de Peter e em sua impotência diante dessa situação.

A música começa com instrumentos de corda (provavelmente violoncelo) junto com bateria marcando a melodia ao longo de toda a canção. Ela usa menos sintetizadores que as faixas anteriores, e encanta por ser orgânica e por ter uma melodia que é ao mesmo tempo pegajosa e deliciosa. Teria sido um crime não ter escolhido essa música como single em algum momento.

O clipe, originalmente pensado como curta-metragem, é uma representação fiel do conceito da música, mostrando Kate no papel de Peter, e pai e filho no alto de uma colina tentando fazer chover com a máquina inventada por Wilhelm, que é levado preso. Peter continua no topo da colina e consegue fazer chover com a máquina, para a felicidade de Wilhelm. 

O fato de Kate ter se vestido de menino mostra que a cantora não tem medo de esconder sua capacidade de ser 'fetichisável' pelos ouvintes masculinos em nome de sua integridade artística, o que a destaca em um nicho onde onde às vezes mulheres se tornam sex-symbols contra a vontade para não perderem posição nos charts, dinheiro e vendas.


6. And dream of sheep
Dando início ao 'The ninth wave', o segmento mais experimental e artístico do álbum, 'And dream of sheep' mostra uma mulher flutuando no mar, à deriva, exausta, desesperada e com medo de morrer daquela forma. Enquanto ela tenta não se afogar, acaba se entregando ao sono. O próprio oceano pode ser uma metáfora para o inconsciente, desconhecido e infinito.

É uma canção calma, o que reflete uma resignação da Kate náufraga. Acústica, conta apenas com voz e piano, além de um sample distorcido e alguns efeitos sonoros, como o de gaivotas.

7. Under ice
Após acabar dormindo/desmaiando, Kate tem seu primeiro sonho (no caso, um pesadelo). Nele, ela sonha que está se afogando num rio congelado, cuja camada de gelo na superfície não a deixa subir para respirar. Ao mesmo tempo, ela também é uma pessoa patinando sobre o gelo, não percebendo que o outro-eu está morrendo logo abaixo. Um pesadelo tão horrível provavelmente teria sido causado pelo frio extremo e pelo medo de se afogar que o personagem enfrenta.

Essa canção tem uma melodia tensa, digna de um filme de suspense, que parece uma marcha militar em alguns pontos. Aqui, o violoncelo predomina na marcação do ritmo, logo acompanhado por outro instrumento de cordas e outras camadas vocais.

Uma curiosidade: essa canção foi utilizada no teaser alemão da sétima temporada de Game of Thrones, assista aqui (via Facebook)

8. Waking the witch
Após se assustar com seu pesadelo, Kate está acordando, ficando presa por um tempo entre o sono e a vigília. Ela começa sendo gentilmente chamada para acordar, enquanto ainda está dormindo. Essa primeira parte contém samples de outras músicas do álbum. De repente, vozes distorcidas e caóticas aparecem, demarcando a parte em que ela finalmente desperta, atordoada, confusa, sem saber de onde vem as vozes que ela escuta, inclusive apelando para a religião em busca de sobrevivência ou de salvação, dada a proximidade com a morte.

A primeira parte da canção tem um piano sereno acompanhando samples de vários filmes, onde se convida alguém a acordar. Após o caos de confusão ao acordar, efeitos singulares e aleatórios de distorção de voz surgem, e bateria, baixo e sintetizador aparecem acompanhando uma voz demoníaca conversando com Kate. Então aparecem sinos de igreja enquanto a Kate recita versos da liturgia católica. O fim da música é confuso, juntando todos o recursos instrumentais e de distorção usados desde o começo da faixa.

9. Watching you without me
Essa canção destoa totalmente da anterior em termos de musicalidade. De forma resumida, ela fala sobre uma experiência extra-corpórea, onde a alma se separa da matéria, e o espírito da cantora vê seu corpo abaixo dela.

Sua melodia é elegante e um tanto puxada para o jazz. dominada por bateria e baixo, até que perto do final, ela se transforma numa canção étnica, similar a um gamelan indonésio, como se o eu-lírico vislumbrasse o que viria depois de sua morte. Também há efeitos sonoros variados, inclusive um pedaço do efeito caótico de 'Waking the witch' perto do final

10. Jig of Life
Desmaiando mais uma vez, Kate agora tem um sonho diferente. Sua mente tenta se manter otimista em nome de sua sobrevivência. Numa espécie de experiência de quase morte, a cantora encontra uma mulher idosa que tenta convencê-la a não desistir, dizendo que esse não é o seu destino. Essa mulher provavelmente é uma projeção da própria Kate mais velha, que não sobreviveria se o eu-lírico se afogasse.

Instrumentalmente, essa canção animada e dançante a sua maneira é baseada em gaita de foles, seguida por bateria e baixo. O irmão de Kate, John Carder Bush narra uma história no fim da faixa,  uma mensagem de otimismo para o eu-lírico à beira da morte

11. Hello earth
Depois de muito lutar, o eu-lírico afunda. Quase se afogando, ela se lembra do que fez logo antes de ficar à deriva, e pede para que todos que a estão procurando saírem da água, porque já não adiantaria mais. A canção termina com um trecho em alemão 'tiefer, tiefer, irgendwo in der tiefe gibt es ein licht' ('mais fundo, mais fundo, em algum lugar das profundezas há uma luz')

Ela começa com um efeito de rádio de barcos de resgate. É uma balada governada por piano, mas que ainda usa os instrumentos folk da faixa anterior, aliados a bateria e coro. É um dos (vários) pontos altos da 'The ninth wave'.

12. The morning fog
Essa faixa tem dupla interpretação. Não fica claro se o eu-lírico morreu ou não no fim de 'Hello earth'. Caso não tenha, essa canção fala da nova perspectiva que o eu-lírico ganha sobre a vida após quase perdê-la. Se tiver morrido, mostra uma espécie de limbo para onde os mortos vão logo após abandonarem seus corpos. Seja como for, o eu-lírico tem uma nova visão sobre tudo.

É uma faixa alegre e serena, com piano, bateria e um instrumento centro-europeu de sopro chamado 'fujara'. A melodia lembra um pouco a de 'Cloudbusting', encerrado o álbum com chave de ouro.

Letra: 10,0
Melodia e Instrumentação: 9,5
Vocais: 9,0
Videografia: 8,5
Identidade Visual: 9,0
NOTA FINAL: 9,2



Kate Bush vai às nuvens e ao fundo do mar em 'The Hounds of Love" Kate Bush vai às nuvens e ao fundo do mar em 'The Hounds of Love" Reviewed by Wilson Barroso on domingo, julho 02, 2017 Rating: 5