Katy Perry nos convida a testemunhar sua real personalidade em "Witness"


Não há o que negar: os primeiros anos dessa década foram dominados por Katy Perry e seu máquina de fazer hits, pilotada por Max Martin e, pelo infame, Dr. Luke. Foram recordes quebrados, músicas chicletes pra dar e vender e clipes icônicos lançados pela artista que, parecia estar no patamar mais alto de sua tão recente carreira.

Com o álbum "Prism", lançado em 2013, a cantora reafirmou sua posição de superstar e provou que ainda tinha muito para alcançar: lançou uma das turnês mais caras já produzidas, foi a estrela principal do Super Bowl e encantou (ainda mais) o mundo com seu carisma e dedicação ao que faz. De lá para cá, Katy vem preparando o terreno para o lançamento do que, para todos, seria o novo arrasa-quarteirões de sua carreira. Porém, algo em "Witness", seu novo álbum, parece não agradar uma geração exageradamente preocupada com hits, vendas e posições na Billboard. Algo parece incomodar uma geração que assume lados em uma briga feminina tal qual uma rinha de galos, onde apenas esquecemos que todos os envolvidos saem com a imagem manchada e alguns arranhões, querendo ou não.

 "Witness" se distancia de tudo o que voz por trás de "Firework" já fez e, talvez por isso, soe estranhamente original e coeso. É claro que existem falhas, mas, sem dúvidas chegou a hora de repensar, não só a hitmaker-doceira, como toda uma indústria fomentada por girl feuds, vendas e charts. É um desperdício ignorar uma pérola pop como essa baseado em preceitos tão vazios e incoerentes como esses. Se não for possível fazê-lo por Katy Perry, faça-o por Katheryn Elizabeth Hudson e permita-se testemunhar algo novo (perdão pelo trocadilho, mas não deu pra resistir) da mulher que temos ouvido e acompanhado por anos.

Confira nossa análise faixa-a-faixa do "Witness":

01. "Witness"
"Se eu perdesse tudo hoje, você ficaria?", talvez a primeira frase do álbum seja exatamente o que Perry queira nos passar com seu novo projeto. A faixa-título foi a primeira coisa a ver a luz do dia dessa nova era, vazada ilegalmente meses antes do álbum sequer ser anunciado e, mesmo assim, ainda parece surpreendentemente deliciosa a cada ouvida, leve, despretensiosa e, ainda assim, a melhor parte dessa nova jornada! Letra poderosa, enorme variedades de instrumentos e com os assovios mais bem posicionados em uma música pop de 2015 pra cá, essa canção com certeza merece seu lugar entre o hall de melhores da cantora e do álbum.

02. "Hey Hey Hey"
Com um início mais dark e obscuro, a faixa muda completamente sua vibe lá pro pré-refrão. Aqui encontramos empoderamento e jovialidade pra dar e vender. Os contrapontos e metáforas contam pontos positivos para a letra que também, infelizmente, dá suas escorregadas ("Got my own cha-ching in my chubby little wallet" ainda tá engasgado) mas acaba funcionando no plano geral. Uma canção boa e com potencial pra um clipe memorável (já queremos a Marylin Monroe num monster truck pra ontem).

03. "Roulette"
PRIMEIO A GENTE GRITA "QUE HINO" DEPOIS A GENTE OUVE! Porque sim, estamos diante de uma das melhores faixas do álbum! Com keys maravilhosos, uma letra espetacular a gente até se questiona por que essa belezura não foi single promocional... Aqui, Katy canta sobre liberar-se de prisões mentais e deixar as coisas "rolarem", abrir mão do controle um pouco. É embasbacante o poder da canção que, se bem trabalhada e divulgada, tem potencial pra causar estrago pelo mundo, com seus refrões bem marcados e estouros instrumentais.

04. "Swish Swish"
Com um sample maravilhoso de Fatboy Slim, a diss track de Katy para Taylor Swift é boa até  chegarmos à seguinte questão: ela é necessária? Sim, essa pergunta deve ser feita até por que temos uma Bad Blood (com um clipe apoteótico) aí. Swish é maravilhosa, bem produzida, com uma Nicki Minaj inspiradíssima e com a fórmula certa para um hit, mas é incoerente. Segue a linha contrária a todo caminho que Katy trilhou até aqui, falando de liberação e de não se prender ao que os outros pensam. Sua qualidade musical é inquestionável, mas precisamos falar de girl fight e como a música não deveria separar e sim unir. Afinal, com tantos problemas e tretas por aí, as meninas precisam mais de umas às outras do que qualquer coisa.

05. "Déjà Vu"
Essa é uma canção dance com uma aura toda gostosinha, falando de como um relacionamento passa por problemas recorrentes, e por um resfriamento inevitável. Temos aqui versos bem tristes, até mesmo fazendo alusão ao fato do cara não falar mais que a ama. A faixa carece de um momento de estouro, de crescimento, talvez por isso seja tão boazinha (sim, no diminutivo). Vale a ouvida, mas não deve sobreviver muito tempo em nossas playlists.

06. "Power"
Como descrito no álbum, "Power" é a canção que tem por objetivo confrontar a misoginia e referenciar a própria vida da cantora. Começando toda melancólica, marcada por batidas, a voz de Katy cresce e se mostra bem poderosa, até explodir no refrão,  recheado de um proposital auto-tune (veremos mais disso na próxima faixa também). O foco aqui vai para a experimentação que acontece, é totalmente diferente do que já ouvimos da cantora, relembrando bem distantemente o que já ouvimos dela em "Circle the Drain" do "Teenage Dream", só que com mais instrumentos, mais poder vocal, mais vontade de se fazer ser ouvida. Ponto alto!

07. "Mind Maze"
Assim como o título diz, a cantora canta aqui sobre estar presa em um labirinto mental, recheado de questões e escolhas. A canção é uma das primeiras a desacelerar o álbum e conta com uma letra maravilhosa para isso. A grande questão aqui, que divide opiniões, é o uso do autotune em diversos momentos. Para discutir isso, é necessário embarcar e mergulhar na proposta da faixa... Muitas cantoras utilizam o recurso para consertar suas vozes, aqui Perry o utiliza para provocar confusão no ouvinte, para levá-lo ao labirinto dela. É definitivamente interessante e as harmonizações do final mostram pra quem quiser as capacidades vocais da cantora, como se tivéssemos dúvidas...

08. "Miss You More"
Chegamos à primeira baladinha do álbum, que muitos acreditam ser sobre John Mayer. Aqui Katy canta sobre sentir falta dos momentos vividos com o ex mais do que realmente amá-lo. Forte, né não? A faixa é boa, limpinha, bem produzida, mas apresenta um defeito: é muito parecida com "Uncondicionally", muito mesmo...

09. "Chained to the Rhythm" ft. Skip Marley
O primeiro single dessa era continua sendo uma queridinha em nossos corações! Com a crítica latente à atual sociedade e ao governo Trump, Katy se politiza ainda mais e mostra que dá sim pra conscientizar e ser despretensiosa ao mesmo tempo, é o tal "dance to the distortion". Suas batidas deliciosas, refrão mega chiclete, fazem a fórmula certa para um sucesso. Vale ressaltar também que a participação de Skip Marley é valiosíssima, enriquecendo ainda mais a mensagem e a ideia da música. Sem dúvidas, uma grandiosa faixa que realmente questiona "estamos presos ao ritmo?".

10. "Tsunami"
Começando com barulhos de ondas, essa aqui é o que podemos chamar de ponto fraco do disco: algo parece faltar, é linear demais, regular demais, uniforme demais.  A metáfora aqui é: o amor é o oceano e suas ondas são as indas e vindas de um relacionamento, provocando as mais diversas reações. Vale citar apenas que os vocais de Katy estão deliciosos, dá vontade de ouvir pra sempre. Se não fosse o ritmo, e a cadência e, enfim, essa música.

11. "Bon Appétit" ft. Migos
Enquanto muitos brasileiros se polarizaram por conta de política, os amantes de música pop se dividiram com essa aqui. É o clássico, AME ou ODEIE, que provocou discussões afloradas em fóruns pelo mundo inteiro. Bom, já que opinião é pessoal e intransferível, ficamos com... AME! E sim, vale muito deliciar-se com a faixa que nos faz lembrar o quanto Perry gosta de trabalhar com metáforas, mas de um jeito mega positivo. Seu ritmo é deliciosamente irresistível e sim, deveria ser uma referência para a música pop de 2017-2018! Vale falar também que nos proporcionou o melhor clipe do ano até agora. A única ressalva é a participação do trio de rappers Migos, que poderia ter adicionado mais à música ou ter sido substituída por um break matador. Mas, enfim, não dá pra ser perfeito, né?

12. "Bigger Than Me"
Preparem o churras porque a farofa tá pronta! Essa aqui é outra poderosa música que nos remete à Katy Perry de antigamente. A mensagem do álbum se reafirma: ter uma missão e propósito e segui-la. O refrão é delicioso e com um mega potencial pra ser hit, basta uma boa divulgação e um clipe todo katyperryano. Estamos diante de uma das melhores do disco SIM!

13. "Save As Draft"
A faixa abre com sons de digitação, é como se a cantora estivesse se preparando para abrir o jogo e falar sobre as dores de seu relacionamento mas, ao final, decide apenas salvar como rascunho, guardando para si as mágoas e dores desse amor. Sua voz é embalado pelo piano e pelos maravilhosos barulhos de teclas, que acompanham as batidas da canção. É como se toda a canção fosse um eterno "digita e apaga", afinal, vale a pena reabrir a ferida? Vale a pena a ouvida e começa a fechar o álbum de forma fenomenal.

14. "Pendulum"
Essa aqui é outra que fala de empoderamento e da ação do karma em nossas vidas, comparando-as com um pêndulo (indo e voltando). A letra é extremamente bipolar: maravilhosa no refrão, maravilhosa mesmo! Mas, em todas os outros versos, parece que foi criada pelo  gerador de lero lero, falta sentido... Mas isso não chega a estragar completamente, uma das canções mais viciantes do disco que conta com um FUCKING coro! Um coro maravilhoso que leva o refrão  final a um patamar  acima de qualidade e sonoridade. É praticamente impossível ouvir e não sair cantarolando "It's a pendulum!" por aí!

15. "Into Me You See"
Assim como no trabalho de muitas outras cantoras, a faixa final do álbum é uma balada maravilhosamente escrita, que discute como Katy criou uma barreira quase impenetrável ao redor de si mesma, dificultando relacionamentos e, muitas vezes, um diálogo sincero com seu público. É como ver as perucas sendo queimadas em nossa frente, os doces sendo jogados fora e conhecer Katherine, uma mulher vulnerável e que está se deixando ser vista pela primeira vez, depois de tantos anos. Realmente, não existia faixa melhor para encerrar essa apresentação, estamos conhecendo uma nova artista que, ao final de tudo, se revela, HUMANA e frágil. A ouvimos cantar sobre intimidade e camuflagens e sobre como cada camada vai se abrindo para o nascimento de uma nova personalidade, para a revelação de uma pessoa até então desconhecida. Maravilhosa em todos os sentidos, encerramos a audição do "Witness" com um hino desses. Impossível não se emocionar.
Katy Perry nos convida a testemunhar sua real personalidade em "Witness" Katy Perry nos convida a testemunhar sua real personalidade em "Witness" Reviewed by Raphael Mota on segunda-feira, junho 19, 2017 Rating: 5