Análise: Melodrama, como fazer um álbum conceitual


Muitos fãs de música pop torcem o nariz diante da expressão ‘álbum conceitual’. E realmente, quando o único contato que se tem com esse tipo de álbum são os recentes lançamentos de grandes artistas pop que até um punhado de anos atrás lançavam apenas farofas em álbuns com pouca coesão conceitual, dá para entender tamanha repulsa.

Mas, felizmente, há como fazer ótimos álbuns conceituais. O mundo pop está cheio de exemplos, desde o sensual e controverso ‘Erotica’ de Madonna até o corajoso e icônico ‘Born this way’ de Lady Gaga.

Um dos maiores crimes nesse tipo de álbum é a monotonia: ao retomar um tema que permeia todo o trabalho, o artista pode cair na esparrela de tornar as músicas muito parecidas em letra e melodia, passando a impressão para o ouvinte de que ele está ouvindo um grande CD single. Felizmente, Lorde consegue amarrar tematicamente as canções mantendo a particularidade de cada uma, fazendo com que ‘Melodrama’, lançado em 16 de Junho de 2017, tendo apenas 11 faixas (pouco, para os padrões atuais), nos satisfaça muito mais do que álbuns gigantes, com quase 20 canções.

O conceito do álbum, de acordo com a própria cantora, é “contar a história de uma festa, de uma única noite, onde há momentos em que uma ótima música toca enquanto você está em êxtase e outros em que você está sozinho do banheiro, se vendo no espelho, começando a se sentir horrível”. Esses ‘momentos’ são bem demarcados.

Se você está procurando farofa para esfregar a raba no chão, você está no lugar errado. Mas se você está procurando música boa para ouvir não apenas à beira do coma alcoólico, seja bem vindo. Não é fácil resumir a sonoridade desse álbum, pois como dito acima, as faixas são bem particulares. Mas a liberdade criativa da cantora encanta, e ‘Melodrama’ veio para tirar de uma vez por todas a impressão que alguma pessoas tem, de que menina Lorde é apenas uma hipster one hit wonder.

Veja nossa análise faixa a faixa

1. Green light
O carro-chefe do álbum pode ser tudo, menos monótono. Ele começa com versos quase acústicos, e quando começamos a achar que o primeiro single do álbum vai ser uma balada genérica, a melodia ganha mais camadas instrumentais até chegar num pop muito elegante com sintetizadores nada óbvios, aliados ao piano e à percussão, até cair novamente e repetir esse ciclo. É uma versatilidade instrumental rara hoje em dia.

A letra é basicamente a motivação que Lorde tem para ir para a festa que engloba o conceito do álbum: uma desilusão amorosa. Ela está se arrumando às pressas no carro de outra pessoa, ansiosa para que o sinal abra para que ela possa descontar as mágoas na pista de dança. O texto é longo, contando detalhadamente as tretas que aconteceram.


2. Sober
A segunda faixa é marcante. Trata-se de uma melodia midtempo muito original e orgânica, com direito a vocalizações distorcidas, percussão e até um saxofone. E apesar de parecer um tanto alegre, ela apenas disfarça o adensamento da letra.

Mais uma vez é um texto grande, e às vezes as rimas são sacrificadas em nome da história que se conta. No caso, ela chegou à boate e começou a beber, se tornando um pouco inconsequente e com a sensação de estar superpoderosa.

3. Homemade dynamite
A voz de Lorde aqui está mais clara do que o instrumental, tendendo ligeiramente para o rap. Uma pitada de R’n’B na melodia faz com que essa faixa lembre um pouco seu álbum anterior, ‘Pure heroine’.

Ela lida com a sensação de felicidade explosiva do começo do relacionamento. Não fica explícito se ela se refere ao seu ex-relacionamento ou a uma pessoa que ela encontrou na festa e se ‘apaixonou’, por causa do efeito da bebida.

4. The Louvre
Com uma melodia sua dominada por uma guitarra discreta, distorcida em certos momentos, passamos toda a faixa esperando por uma explosão ou ápice, mas a melodia parece se dissolver e terminar num ponto baixo, que não faz muito sentido até a faixa seguinte.

Lorde aqui ainda está apaixonada, dizendo em certos pontos da letra que ela e a pessoa ‘amada’ merecem ser expostos nos Louvre. Mas tem algo a incomodando nesse desvario todo.

5. Liability
Essa balada de voz e piano se encaixa muito bem com o finalzinho da canção anterior. E apesar dessa descrição, sua melodia não é exatamente triste.

Aparentemente, Lorde está em outro estágio da bebedeira, ela está começando a sentir mal, um verdadeiro lixo descartável que as pessoas usam e depois dispensam com aquele discurso manjado de ‘você é demais para mim’.

6. Hard Feelings/Loveless
Esse é o típico pague um, leve dois. A primeira parte, ainda sombria e lenta, com muitos instrumentos distorcidos e discretos em relação à voz de Lorde, parece uma faixa de ‘Pure heroine’ vitaminada. No fim das contas, é um tipo de prelúdio da segunda parte, que começa com uma voz masculina e logo deságua numa melodia experimental e distorcida, que se alia numa voz artificialmente metalizada de Lorde. É algo que se esperaria ver num trabalho de Iamamiwhoami ou Björk.

Na primeira parte, Lorde faz uma verdadeira lavação de roupa suja, típica do fim dos relacionamentos. É um dos momentos em que ela está “trancada no banheiro se sentindo horrível”. Já a segunda é uma queixa, dizendo que nossa geração não sabe o que amor significa, jogando uma verdade dura à tona e saindo devagar.

7. Sober II (Melodrama)
A reprise de ‘Sober’ e canção-título do álbum começa com uma peça de piano, bruscamente suavizada quando Lorde começa a cantar. E aliado a isso, Lorde entrega uma batida tipicamente hip hop com gotas de trap de uma forma bastante autêntica.

Nesse ponto, o álbum atinge o seu máximo de profundidade, e nesse ponto já estamos curiosos a respeito da história. Aqui, ela está se sozinha e se sentindo ainda pior. Ao contrário do significado irônico de ‘sóbria’ da segunda faixa, aqui ela realmente começa a perceber o quão bagunçada a vida dela está.

8. Writer in the dark
Quase chorada, essa é uma balada voz e piano realmente triste, ao contrário de ‘Liability’. Em alguns momentos, Lorde canta quase a cappella, com apenas uma nota metodicamente tocada no piano.

Aqui ela se volta mais uma vez para a pessoa que quebrou seu coração, mais uma lavação de roupa suja pesada, onde ela exibe toda sua fragilidade e vulnerabilidade. Ela se engana, dizendo que vai ficar bem e ir adiante, mesmo sabendo que vai sempre nutrir algo pela pessoa que a fez tão mal.

9. Supercut
A voz de Lorde começa muito mais nítida que a melodia. Mas logo os sintetizadores crescem numa batida europop muito elegante e similar à da primeira faixa do álbum, mas subordinada à voz da cantora. É uma boa aposta para single do álbum.

A letra, um pouco grudenta, fala sobre um relacionamento perfeito. Mas o próprio eu-lírico percebe que isso não existe, e que está apenas separando e juntando as melhores partes (um supercut).

10. Liability (Reprise)
A reprise não é tão orgânica quanto a faixa original, sendo um tanto distorcida e dotada de camadas instrumentais adicionais, principalmente um sintetizador suave e uma percussão quase estática. No entanto, ela liga bem a nona e a décima-primeira faixa.

A letra lida com responsabilidade afetiva, o que faltou na pessoa que causou tanto mal ao eu-lírico.

11. Perfect places
A última faixa é mais uma candidata poderosa a single do álbum. Tem uma melodia pop muito radiofônica e bem feita, com sintetizadores aliados a coro, sinos e bateria, sem dúvida um dos destaques do álbum.

Já sóbria, Lorde olha pra noite que teve e percebe que ela serviu como um meio de escapar da realidade, e principalmente da dor do coração partido. É uma crítica ao hábito de tentar procurar um ‘lugar perfeito’ a partir de festas, drogas e sexo, dizendo que a prática esses lugares não existem e que esse tipo de escapismo só causa mais angústia para a pessoa.

Letra: 9,0
Melodia e Instrumentação: 9,0
Vocais: 7,5
Identidade Visual: 7,0

NOTA FINAL: 8,2


Análise: Melodrama, como fazer um álbum conceitual Análise: Melodrama, como fazer um álbum conceitual Reviewed by Wilson Barroso on sábado, junho 17, 2017 Rating: 5