Análise: Gourmandises, quem não gosta de uma guloseima?


Alizée é uma das cantoras francesas mais importantes da nova geração, grande responsável por exportar música francesa para o resto da Europa, principalmente por causa de seu primeiro álbum de estúdio, ‘Gourmandises’ (Guloseimas).

Alizée Jacotey, nascida em Ajaccio em 21 de Agosto de 1984, foi logo apadrinhada por Mylène Farmer e Laurent Boutonnat, dois colossos da música francesa, parcialmente por causa da amizade entre eles e seus pais. Essa parceria funcionou muito bem, pois ‘Gourmandises’, lançado na França em 21 de Novembro de 2000, vendeu 700 mil unidades apenas na França e quase 4 milhões de cópias mundialmente, levando música francesa  ao top 10 dos charts de países que não tem o costume de consumir música francesa, como Polônia, Israel, Grécia, Espanha e Reino Unido.

Trata-se de um álbum aparentemente fácil e adolescente, impressão causada em parte pela paleta de cores puxada para o rosa e tons delicados, transmitindo certa inocência, mas ele é mais denso do que parece. Assim como ‘Crybaby’ de Melanie Martinez, a inocência serve para disfarçar temas mais delicados (e em alguns casos altamente problematizáveis), talvez em parte por causa da influência da madrinha Mylène Farmer, que tem o costume de usar esse tipo de artifício.

Musicalmente, é um trabalho que mantém as raízes de pop francês, aliados a um dance e electronic suave, típico do começo dos anos 2000. Há influência de subgêneros ao longo do álbum, como música ambiente, trip hop e até mesmo música clássica, que ajudam a enriquecer a sonoridade desse álbum e deixar essa guloseima ainda mais suculenta.

Veja nossa análise faixa a faixa:

1. Moi... Lolita (Eu... Lolita)
Maior hit do álbum e canção assinatura de Alizée, o lead single do álbum é altamente problematizável. Baseada no livro ‘Lolita’, de Vladimir Nabokov, nessa canção Alizée incorpora Lolita, a sedutora e inocente pré-adolescente que leva os homens mais velhos à loucura. No entanto, a proximidade com a pedofilia torna tanto o livro quanto a música bastante questionáveis.

Musicalmente, é uma canção bastante elegante, que após uma introdução breve altamente influenciada pela música clássica, deságua numa melodia que mescla um sintetizador suave com bateria, xilofone e guitarra, igualmente suavizados.

O videoclipe pega um pedaço do enredo do livro, com um homem mais velho se declarando e oferecendo dinheiro para o eu-lírico, até Alizée fugir com sua irmã menor para uma boate e começar a dançar, sendo observadas por esse homem.


2. Lui ou toi (Ele ou você)
Apesar do início com piano bem marcado, lembrando uma caixinha de música, logo a segunda faixa do álbum ganha camadas instrumentais adicionais, com sintetizadores e bateria. Apesar de poder ser considerada uma balada, o instrumental obscuro e bem marcado não a deixa se tornar uma faixa cansativa.

A letra é autobiográfica, e conta a história de um dilema amoroso. Ao longo da letra, se fala de ‘lui’ e de ‘il’, que em francês, significam ‘ele’. Enquanto o ele ‘il’ é o homem escolhido, o homem ‘lui’ é lembrado com certo afeto e nostalgia. Seja como for, a música descreve a personalidade de ambos.

3. L’alizé (O vento alísio)
Marcada por um piano alegre e pegando mais pesado  com os sintetizadores que a faixa anterior, permitindo que a voz de Alizée se sobressaia, essa canção faz um trocadilho com nome da cantora.

O segundo single do álbum faz referências constantes ao vento, comparando o amor e os relacionamentos a ele. O clipe é um tanto simples, mostrando simplesmente a cantora dançando num fundo rosa com bolhas de sabão.


4. J.B.G.
A sigla J.B.G. significa simplesmente ‘James Bond Girl’, uma personagem que Alizée incorpora na música, uma espécie de arquétipo com o qual várias garotas se identificam. A música tem os instrumentais que remetem aos filmes de James Bond, com baixo e pianos elegantes associados a um sintetizador um pouco mais suave do que na quarta faixa.

5. Mon Maquis (Meu Maquis)
A palavra ‘Maquis’ serve para denominar um tipo de vegetação semelhante ao cerrado brasileiro, típico da Córsega, ilha onde Alizée nasceu, mas também o apelido da guerrilha francesa contra a ocupação nazista durante a Segunda Guerra Mundial. Como esse trocadilho duplo, a canção fala sobre o lar, onde ela se sente segura e protegida contra as agressões do mundo exterior.

Musicalmente, é sombria, com os pratos da bateria dominando o instrumental, juntamente com um sintetizador de fundo, em alguns momentos se fundindo a uma melodia étnica, provavelmente típica de sua ilha natal, tendendo bastante ao trip hop. Ela canta de forma declamada, sendo quase um rap. Das canções que não se tornaram single, essa certamente é uma das melhores.

6. Parler tout bas (Falar baixinho)
O terceiro single do álbum fala sobre o fim da infância e a perda de inocência, assim como canções como ‘Plus grandir’ e ‘Et si viellir m’etait conté’, de sua madrinha Mylène Farmer. Ela é musicalmente obscura, mas não tanto quanto ‘Mon Maquis’, e é um tanto nostálgica por causa da melodia lenta e inocente do piano e da bateria um pouco mais veloz no refrão.

O clipe é bastante simbólico e representa bem as intenções da letra, mostra a cantora saindo de seu quarto com brinquedos e enterrando um urso de pelúcia numa floresta, semioticamente representando o fim da infância.


7. Veni, vidi, vici (Vim, vi, venci)
O título dessa música é uma expressão latina, atribuída ao imperador Júlio César após vencer uma das várias batalhas que enfrentou. E, convenientemente, conta a história do amor entre o imperador e a rainha Cleópatra, particularmente durante a Guerra Civil Alexandrina.

Aqui, os sintetizadores são mais pesados, mas casam bem com o piano e a voz comportada da cantora. A melodia cresce sucessivamente, que explode num refrão um tanto grudento.

8. Abracadabra
Essa canção começa com um miado esganiçado de gato, que apesar de um tanto irritante, se repete durante a canção. No entanto, é uma canção suave, com sintetizadores domados e vocalizações da cantora. No fim das contas, é bem repetitiva e pouco memorável.

A letra é um tanto boba, comparando ao amor a feitiçaria.

9. Gourmandises (Guloseimas)
O quarto e último single do álbum conta com uma melodia de piano bastante dinâmica, que encontra eco num sintetizador bastante dance.  No fim das contas, é uma canção animada, nostálgica e bem típica do começo do século.

A letra, com referências a ‘O Lobo da Estepe’, de Herman Hesse, faz basicamente uma propaganda da própria Alizée para o crush, dizendo que seus beijos são verdadeiras guloseimas.

O clipe é basicamente um piquenique em um parque, parecendo uma propaganda de iogurte em certos momentos. Todos os envolvidos estão alegres, contentes, e se divertindo comendo doces e frutas.


10. A quoi rêve une jeune fille (O que sonha uma garota)

O disco fecha com uma canção suave e um tanto onírica, cujo instrumental é dominado por um sintetizador suave e bem típico do álbum. A letra fala sobre, literalmente, o que as garotas desejam, fugindo do clichê ‘família, marido, casa, beleza’, tendo certo teor feminista.

Letra: 8,0
Melodia e Instrumentação: 8,0
Vocais: 7,0
Videografia: 6,0
Identidade Visual: 8,0
NOTA FINAL: 7,4


Análise: Gourmandises, quem não gosta de uma guloseima? Análise: Gourmandises, quem não gosta de uma guloseima? Reviewed by Wilson Barroso on domingo, junho 04, 2017 Rating: 5