Especial Mylène Farmer X: Interstellaires, a instância superior

Veja as resenhas anteriores
1. Cendres de lune (1986)
2. Ainsi soit-je... (1988)
3. L'autre... (1991)
4. Anamorphosée (1995)
5. Innamoramento (1999)
6. Avant que l'ombre... (2005)
7. Point de suture (2008)
8. Bleu noir (2010)
9. Monkey me (2012)

Após a turnê “Timeless”, Mylène Farmer voltou a se silenciar. É impressionante sua capacidade de simplesmente desaparecer da mídia quando não está trabalhando. Pouco após o surgimento do rumor sobre colaborações com a banda de rock Muse, Mylène utilizou novamente a mesma estratégia de promoção de seu álbum “Bleu noir”: os sites temporários.

Dessa vez, a cada determinado número de acessos, o site trocava de URL e fornecia uma nova pista sobre o álbum e seu primeiro single. Utilizando palavras como 'constellation' e 'voie lactée', aos poucos se construiu a identidade estética do álbum: o céu, não o metafísico e religioso, mas o físico, povoado por estrelas, planetas e quem sabe até mesmo vida, tudo costurado numa paleta de cores baseada no laranja e no cinza, cores até então inéditas nas capas da artista.

“Interstellaires” (Interestelares) foi lançado em 6 de Novembro de 2015 e até o momento vendeu mais de 315 mil unidades (físicas e digitais) somente na França, sendo platina tripla. Assim como em “Bleu Noir”, esse álbum não conta com produção de seu parceiro de longa data Laurent Boutonnat, sendo quase todo produzido Martin Kierszenbaum, conhecido por produzir várias faixas do álbum “The fame”, de Lady Gaga.

Em comparação ao seu predecessor, “Monkey me”, o décimo álbum de Myléne é muito mais acústico, e permite que os instrumentos se sobreponham aos sintetizadores na maior parte das faixas. Além disso, as melodias são mais domadas, permitindo que a voz da cantora se sobressaia sem competição. Ele também nos dá uma visão mais ampla do ser humano, não focando tanto em seus sentimentos como antes, mas em sua insignificância em relação ao universo.

Veja nossa análise faixa a faixa

1. Interstellaires (Interestelares)
A primeira canção abre o álbum com guitarras e um levíssimo sintetizador ao fundo, que compõem um som etéreo que a dá o clima de “não-mundanidade”, complementado por coros em certos pontos da música. Orientada para o rock, certamente é um dos destaques do álbum.

A letra é um tanto otimista se comparada aos trabalhos anteriores da cantora. Influenciada pelo filme “Interestelar”, de 2014, ela fala sobre a grandeza e o mistério infinito do universo, resumindo a identidade estética do álbum, como convém a uma faixa-título.

2. Stolen car feat. Sting
Essa canção é uma releitura bilíngüe da canção “Stolen car”, de Sting, ex-The Police. É também o primeiro single do álbum. Essa versão tem mais efeitos que a original e fez um sucesso considerável fora do mundo francófono, chegando ao primeiro lugar da parada Hot Dance Club Songs dos Estados Unidos, rendendo até mesmo entrevista e performance ao vivo no programa The Tonight Show, apresentado por Jimmy Fallon.

O clipe mostra Sting como ladrão de carros e amante de Mylène, em momentos distintos, obviamente. Apesar de ser muito bonito, não é um clipe memorável.


3. À rebours (Ao contrário)
Aqui temos uma canção bastante suave, de batida midtempo delicada que mescla piano e bateria de forma a não competir com voz de Mylène. A melodia é de certa forma cíclica, aumentando e diminuindo como se fosse uma respiração.

A letra é influenciada pelo trabalho de André Malraux, onde o eu-lírico se fecha em si mesmo para evitar o mundo, se cercando de símbolos de uma época passada considerada ‘melhor’, sob o risco de destruir-se por conta desse isolamento num mundo artificial. Não está claro até que ponto isso é uma característica da personalidade de alguém e não e uma desordem mental.

4. C’est pas moi (Não sou eu)
Uma Mylène funky numa batida digna de Bruno Mars, repleta de guitarra e percussão, quem diria. O terceiro single do álbum, que infelizmente não ganhou um vídeo, é bastante radiofônico e tende um pouco ao dance.

Apesar disso, ainda é uma música ‘farmeriana’, falando do sentimento de incompletude, remetendo tematicamente ao single “Monkey me”.

5. Insondables (Insondáveis)
Single promocional do álbum, essa canção é bastante elegante, aliando um piano eletrônico a um sintetizador etéreo e discreto, ressaltando a voz aveludada da cantora. A guitarra ocasional ajuda a compor essa canção, que fala justamente sobre a grandiosidade do universo e do fato dos seres humanos não terem como descobrir seus segredos, principalmente o que acontece após a morte.

Ganhou um pequeno vídeo, extremamente estético, mostrando cenas urbanas com pequenos ‘easter eggs’, fazendo referências ao trabalhos anteriores da cantora.


6. Love song
Densa, futurista e inusitada, essa canção traz consigo um sintetizador bastante áspero, aliado a orquestra rock, com destaque para guitarra e bateria.

Como o nome indica, é uma canção que fala sobre o amor, mas não da forma usual. Ela diz que quando o amor morre na Terra, ele ressurge no espaço como um lamento, talvez uma crítica à idealização que as pessoas tem sobre o amor.

7. Pas d’access (Acesso negado)
Com uma melodia que lembra música de videogame, os sintetizadores dão um clima futurista a essa canção midtempo que, apesar de agradável, é um pouco grudenta.  A maior parte dos versos dessa canção é composta por apenas uma ou duas frases, o que dá certo ritmo à melodia.

A música fala sobre escapar da realidade de forma religiosa/mística, mas mais uma vez o universo não permite que o eu-lírico acesse seus mistérios, restando a suposição e rituais inventados. A letra tem referências ao filme “Birdy”, de Alan Parker.

8. I want you to want me
Essa faixa é um cover suave e nada rock da música homônima de 1977 da banda Cheap Trick. Só isso.

9. Voie lactée (Via láctea)
Mylène Farmer cantando reggae. Sim, você leu certo, essa canção tem bastante influência do ritmo jamaicano, acrescida de guitarras. Essa canção fala da vitória sobre si mesmo, talvez uma continuação direta de “Pas d’access”, depois do eu-lírico da canção finalmente acessar os mistérios do universo, se libertando de todo tipo de angústia, acessando algum tipo de ‘nirvana’.

10. City of Love
O segundo single de “Interstellaires” é o ponto alto do álbum. Uma canção midtempo com direito a piano e bateria, ela ainda pega um pouco do clima reggae da canção anterior num sintetizador discretíssimo. A letra fala sobre a validade de toda forma de amor. Será que esse é o grande segredo descoberto pelo eu-lírico em “Voie lactée”? Tudo indica que sim

O videoclipe é, sem dúvida, um dos melhores de toda a videografia da cantora. Ambientada num cenário de terror de casa abandonada, com referências do filme “Pássaros”, de Alfred Hitchcock, um alienígena/ser espacial vê várias representações do amor entre seres humanos, se apaixonando finalmente por um boneco de madeira. Um casal tão estranho desperta preconceito em quem assiste? Não deveria, pois a mensagem da faixa é justamente a validade de todas as manifestações desse sentimento.


11. Un jour ou l’autre (Um dia ou outro)
A última canção do álbum é uma balada de piano e voz muito delicada, com direito a notas agudas da cantora. Ela retoma o conceito do álbum, dizendo que apenas o amor faz valer a pena da existência da humanidade, algo tão minúsculo e insignificante diante da imensidão do universo.

Letra: 8,0
Melodia e Instrumentação: 7,0
Vocais: 9,0
Videografia: 8,5
Identidade Visual: 8,0
NOTA FINAL: 8,1


Especial Mylène Farmer X: Interstellaires, a instância superior Especial Mylène Farmer X: Interstellaires, a instância superior Reviewed by Wilson Barroso on terça-feira, maio 09, 2017 Rating: 5