Especial Mylène Farmer VIII: Bleu noir, a internet como ferramenta

Veja nossas resenhas anteriores
1. Cendres de lune (1986)
2. Ainsi soit-je... (1988)
3. L'autre... (1991)
4. Anamorphosée (1995)
5. Innamoramento (1999)
6. Avant que l'ombre... (2005)
7. Point de suture (2008)

Não importa quanto um artista adie, em algum momento a internet vai começar a interferir em seu trabalho. E não poderia ser diferente com Mylène Farmer. “Bleu noir” (Azul negro) foi lançado em 09 de Dezembro de 2010 com uma estratégia inédita, que começou com um site temporário criado 35 dias antes do lançamento do álbum, que revelava conteúdo inédito sobre a nova era, como trechos de letra e fotos de clipes, à medida que recebia acessos.

O nome do álbum é uma referência à tinta nanquim, expressando que quando uma história de amor termina, apenas os ‘escritos’ e as lembranças sobrevivem. No fim das contas, o álbum mostra uma artista serena diante da vida, como se já houvesse domado todos os seus demônios. Ou quase.

O oitavo álbum de Mylène Farmer é um pouco mais suave do que seus antecessores. Não foca tanto em temas obscuros, mas não deixa de ser um álbum ‘farmeriano’. Quanto à sonoridade, ele pega mais leve no eletrônico em relação ao álbum anterior, “Point de suture”, mas ainda assim utiliza sintetizadores aliados a piano, violino, guitarra e bateria. A capa do álbum dá indícios dessa suavização, representada pela dominação da cor azul, assim como em seu quinto álbum, “Innamoramento”.

Esse alívio foi bem recebido pelos fãs, este trabalho vendeu mais de 600mil cópias somente na França, somando cópias físicas e digitais. E pela primeira vez desde seu primeiro álbum, em 1986, Mylène cantou uma música escrita por outra pessoa, no caso, a versão em inglês de Inseparables, composta por Moby, com que a cantora já trabalhou anteriormente.

Veja nossa análise faixa a faixa

1. Oui mais... non (Sim mas... não)
O primeiro single do álbum é um grande plot twist. É uma canção dance muito dinâmica e um pouco grudenta, fruto seu produtor: RedOne, conhecido por trabalhar com artistas como Lady Gaga , que internacionalizou essa canção de forma bastante eficaz, sendo por isso uma das melhores para introduzir o trabalho da cantora ao público fora da Europa. A letra talvez seja uma das mais genéricas da cantora, fala sobre um homem que não se decide se quer o eu-lírico ou não. As aliterações cooperam pra tornar a canção mais dinâmica.

O clipe é muito bonito e, esteticamente, lembra alguns clipes de Lady Gaga como “Bad Romance” e “Alejandro”. Ele não tem história nem linha do tempo, mostra apenas a cantora e uma equipe de bailarinos dançando numa espécie de estacionamento subterrâneo vazio.


2. Moi je veux... (Eu quero...)
Aqui o álbum volta a parecer com algo de Mylène Farmer. É uma canção menos dançante, um pouco mais calma. Um tanto jazzy, ela traz uma bateria midtempo marcando o ritmo da música. O texto fala sobre os sentimentos ruins causados por uma pessoa que não ama o eu-lírico, mas o ‘frequenta’ quando sente vontade, fazendo-o se sentir usado.

3. Bleu noir (Azul negro)
O segundo single do álbum não tem nada a ver com o primeiro. É uma canção acústica, onde a guitarra é o instrumento principal, mas suporta um sintetizador suave em certos pontos.

Após mais de 25 anos de carreira, Mylène tem bagagem suficiente para olhar para trás e ver seu legado construído, fazendo essa verdadeira ode à felicidade e ao amor que o público a proporcional, em contraste com a personalidade pessimista e autodestrutiva da cantora, sendo um hino à vitória da vida sobre a morte.

O clipe é simples, mostra Mylène em preto e branco cantando enquanto passa por paisagens como florestas e campos, sendo considerado por muitos uma homenagem a clipes anteriores, como “Tristana” e “Ainsi soit-je...”.


4. N’aie plus d’amertume (Não tenha mais amargura)
A quarta faixa do álbum utiliza o recurso da cantora referir-se na terceira pessoa, como já feito em canções como “Ange parle-moi” e “L’autre...”. Aqui, numa canção dominada por piano e bastante calma sem ser triste, Mylène parece pedir para si mesma para não ser tão amarga e observar o lado bom da vida, apesar dos problemas.

5. Toi l’amour (Você, o amor)
É uma canção simples e singela, bastante elegante, com algumas pitadas de new wave. Composta por piano e guitarra, majoritariamente, essa agradabilíssima música é uma prosopopéia sobre o amor, que no caso é encarnado em outra pessoa.

6. Lonely Lisa
O terceiro single e segunda canção produzida por  RedOne é, assim como “Oui mais... non” uma faixa bastante eletrônica e dance, com sintetizadores ricos e palmas. Lisa, para quem não sabe, é um personagem de um livro escrito por Myléne em 2003 (Lisa-loup et le conteur).

Aqui, Lisa pode ser um símbolo da própria Mylène, que, como a personagem, não segue regras impostas por outras pessoas e consegue realizar façanhas impensáveis para estes criadores de regras.

O clipe é bastante estético, e um tanto surreal. Intercala cenas num deserto e num estúdio de dança


7. M’effondre (Desfaço-me)
Se na primeira metade do álbum, Mylène parecia plena, contente e reconciliada consigo mesmo, essa música inicia a parte mais sombria do álbum, destruindo essa paz aparente. Basicamente, ela fala sobre como esse equilíbrio e essa paz interior são frágeis, podendo quebrar a qualquer momento.

A melodia está entre as melhores do álbum, pois tem uma batida orgânica aliada a um sintetizador cíclico, que cresce e decresce, como um ciclo respiratório. Apesar de no começo da canção Mylène cantar lentamente, no fim da canção o ritmo explode e enriquece enquanto ela repete “jusqu’ici tout va bien” (até aqui, tudo vai bem).

8. Light me up
Eis aqui um jazz/new wave digno do “Anamorphosée”. A riqueza instrumental impressiona, aliando sintetizadores com bateria e piano de uma forma desconcertantemente elegante. A letra, uma das poucas cantadas em inglês ao longo da carreira de Mylène, vai na contramão disso tudo, é um pedido desesperado da cantora assolada por ansiedade e pânico por calma e paz interior. Realmente, o equilíbrio celebrado na primeira metade do álbum caiu por terra.

9. Leila
Um teclado eletrônico e uma batida ocidental aliadas a uma languidez e lentidão na forma de cantar tipicamente oriental. O peso do ritmo emoldura uma letra que fala sobre Leila Pahlavi, princesa do Irã, que se matou no exílio em Londres depois de uma vida marcada por problemas psicológicos, parcialmente causados pela expulsão de sua família do Irã após a revolução de 1979.

Apesar de não ter sido single, ganhou um vídeo, que mostra uma caravana atravessando o deserto, referência ao exílio da princesa.


10. Diabolique mon ange (Meu anjo diabólico)
Não, essa não é referência sobre as músicas da Xuxa cantadas ao contrário.

Em última análise, parece ser sobre violência doméstica, onde Mylène se queixa de estar apaixonada por um homem ruim, simbolizado por um demônio. E não toca apenas em violência física, mas também na emocional.

No entanto,  a melodia da música é suave, dominada por piano e com sintetizadores discretos, com ápice no final.

11. Inseparables
Pela primeira vez desde 1986, Mylene canta um texto que não composto por ela própria. Escrito por Moby, essa faixa é minimalista e quase shoegaze. Sem sintetizador algum, piano e bateria compõem o ritmo dessa canção, que fala sobre o arrependimento de deixar um grande amor ir embora. Esperamos do fundo do coração que não seja sobre o amante abusivo da faixa anterior.

12. Inséparables
Como se pedisse desculpa por não ter composto a música anterior, Mylène a refez em francês e a cantou como faixa bônus do disco. É igual à canção anterior em melodia e temática, apenas num idioma diferente.

Letra: 7,0
Melodia e Instrumentação: 7,5
Vocais: 8,5
Videografia: 8,0
Identidade Visual: 8,5
NOTA FINAL: 7,9




Especial Mylène Farmer VIII: Bleu noir, a internet como ferramenta Especial Mylène Farmer VIII: Bleu noir, a internet como ferramenta Reviewed by Wilson Barroso on domingo, maio 07, 2017 Rating: 5