Especial Mylène Farmer VII: Point de suture, a dominação eletrônica

Veja as resenhas anteriores
1. Cendres de lune (1986)
2. Ainsi soit-je... (1988)
3. L'autre... (1991)
4. Anamorphosée (1995)
5. Innamoramento (1999)
6. Avant que l'ombre... (2005)

Aparentemente as experiências com eletrônico e techno no álbum “Avant que l’ombre...” em faixas como “Nobody knows” e “Porno graphique” agradou tanto a cantora quanto o público, pois em 25 de Agosto de 2008, Mylène Farmer lançou “Point de suture”, seu álbum mais electropop e synthpop até então.

Essa imersão nos sintetizadores foi bastante apreciada pelos fãs, vendendo quase 700mil unidades no mundo (somando cópias físicas e digitais), liderando as paradas na França, Bélgica e Rússia, além do fato dos cinco singles do álbum terem chegado à primeira posição dos charts francesas, um feito realmente notável.

Apesar disso, ainda é álbum “farmeriano”, ou seja, lida com temas obscuros e pesados que são geralmente evitados pela maioria dos artistas pop, como desencanto com a vida, melancolia e morte. A própria capa diz muito sobre isso: uma boneca que imita Mylène coberta de suturas e com olhos escuros situada entre vários instrumentos cirúrgicos. Assim como o álbum anterior, todas as letras foram escritas pela própria Mylène, e teria a participação de David Bowie, projeto cancelado devido a problemas de saúde do cantor britânico.

É um álbum de certa forma agridoce, sendo que na maior parte das vezes algumas canções precisam ser ouvidas mais de uma vez para serem apreciadas como merecem. As melodias, apesar de serem boas, são um pouco datadas, e podem ser consideradas um pouco ‘bregas’ pelos ouvintes de 2017, pois por ter sido lançado há quase dez anos, é um álbum muito ‘velho’ para ser atual e muito ‘novo’ para ser nostálgico.

Veja nossa análise faixa a faixa

1. Dégénération (Degeneração)
A primeira faixa e lead single do álbum já catapulta na cara do ouvinte a nova direção melódica do álbum. Fortemente eletrônica, os únicos instrumentos orgânicos são piano e percussão, ambos bastante discretos em relação à batida techno.

A letra dessa canção é mais estética do que semântica, ou seja, se preocupa mais com a sonoridade da letra, abusando de aliterações e outros truques, do que com seu próprio significado, que no caso é algo como ‘abandonar o tédio e reencontrar o desejo e o apetite pela vida, principalmente o sexual’.

O clipe é a primeira parte de um curta-metragem chamado The Farmer Project. Nesse vídeo, o governo encontra uma Mylène alien e a levam para uma autópsia, mas ela acaba acordando e faz os funcionários presentes sentirem um desejo sexual irresistível, que se transforma numa orgia, permitindo que ela escape. É um vídeo inteligente que casa muito bem com a interpretação da letra. 


2. Appelle mon nùmero (Ligue para meu número)
O segundo single do álbum pega mais leve no eletrônico em relação à faixa anterior. É bastante sensual e elegante, tendo uma batida pop um pouco mais calma. Uma guitarra eletrônica acompanha um sintetizador suave e a voz da cantora, que fala sobre sexo por telefone, que se concretiza eventualmente.

O clipe tem uma fotografia muito bonita, mostra Mylène cantando e fazendo movimentos coreografados em uma cama enorme, com elementos que remetem às quatro estações, como neve e folhas secas.


3. Je m’ennuie (Me entedio)
A terceira faixa do álbum fala, naturalmente, sobre tédio. Mas não é a concepção normal que temos sobre tédio, a de ‘falta do que fazer’, mas a do desencanto diante da vida em si, ou seja, sua interpretação romântico-simbolista (o famigerado spleen).

A letra tem influências de Charles Baudelaire e Arthur Schopenhauer em sua construção, o que chega a ser inusitado, se tratando de uma canção tão dance e eletrônica. O recurso de alongar a palavra 'ennuie' na música reforça seu sentido, ou seja, esse spleen é uma presença eterna e nunca vai embora completamente.

4. Paradis inanimé (Paraíso desmaiado)
Ainda eletrônica, essa faixa tende mais ao pop-rock devido à guitarra bastante presente entre os sintetizadores, com direito a solo em determinada altura. A faixa em si fala sobre a morte e o que vem depois dela (o ‘outre-tombe’ citado no texto), mas não a visão que um vivo tem sobre ela, e sim a que os mortos têm sobre os vivos, mostrando mais uma vez a influência de Charles Baudelaire sobre o trabalho de Farmer.

5. Looking for my name feat. Moby
Um dos raros duetos de Mylène Farmer, essa canção é praticamente uma releitura eletrônica e bilíngüe do também dueto ‘’Regrets”, do álbum “L’Autre...”. A melodia mistura dois sintetizadores: um áspero e rascante e outro suave, pontuado por piano.

Moby canta em inglês enquanto Mylène canta em francês. Assim como o single noventista, esta música fala sobre um casal separado pela morte de um dos integrantes do relacionamento (quiçá ambos), envolvendo saudade e a metafísica da morte.

6. Point de suture (Ponto de sutura)
A primeira música acústica e faixa-título do álbum caberia muito bem no álbum anterior (“Avant que l’ombre...”) ao lado de faixas como “Tous ces combats” e “Redonne-moi”. É uma balada muito tocante, lenta e melancólica, cujo instrumental é quase 100% composto de piano e bateria, dando um descanso da overdose eletrônica das cinco primeiras faixas.

Essa faixa tem referências ao filme “Carlitos’ Way”, em especial à frase “nem todos os pontos de sutura nos costurarão de volta”, que está em francês no encarte do álbum. A letra fala da dúvida que assombra uma pessoa à beira do fim de um relacionamento amoroso.

7. Reveiller le monde (Despertar o mundo)
Retomando o ritmo principal do álbum, a sétima faixa é bastante eletrônica, sendo difícil perceber a existência de algum outro instrumento secundário além de bateria em alguns pontos. No entanto, é menos agressiva que “Dégénération” e “Looking for my name”.

Ao longo da letra, fala-se de uma ‘revolução’, algo que levaria a humanidade a uma era pacífica. Talvez seja a revolução do amor, mas fica a critério de quem escuta.

8. Sextonik
A oitava faixa e quinto single do álbum tem seu nome formado a partir de um neologismo com as palavras “sexe” (sexo) e “tonique” (tônico, ou fortificante). Como está óbvio pelo título, é uma canção que fala sobre sexo, mais especificamente sobre brinquedos eróticos. Tem uma melodia bastante eletrônica, mas ainda assim é possível perceber certa instrumentação ‘orgânica’ no fundo. Infelizmente, não teve clipe.

9. C’est dans l’air (Está no ar)
O quarto single do álbum é um bate-estaca poderoso. Com sintetizadores fortíssimos e batida bem demarcada, Mylène fala sobre os problemas da humanidade, onde ela se torna uma espécie de porta-voz de seus pecados, estimulando quem escuta a canção a se levantar e construir o próprio destino.

O clipe é um tanto decepcionante (talvez um dos piores de sua carreira), mostrando Mylène dançando e cantando com um fundo de caveiras dançantes intercaladas com cenas desses ‘pecados’ da humanidade. Mas tendo sido lançado poucos dias antes do começo da turnê, em meio a ensaios e audições, dá para relevar a má-vontade na produção desse vídeo.


10. Si j’avais au moins... (Se eu houvesse ao menos...)
A décima canção e terceiro single do álbum é sua segunda faixa acústica, dominada por piano, guitarra e violino, apenas pontuada por um sintetizador muito suave que remete a aparelhos de hospital. Ela fala sobre a ausência da pessoa amada, que causa uma dor forte mas que deixa a pessoa mais forte. Talvez sejam esses os ‘pontos de sutura’ que o álbum tanto diz, a costura que dói na pele, mas que permite a cura de quem os recebe.

O clipe dessa canção é a segunda parte do The Farmer Project, continuando o clipe de “Dégénération”. Mylène, após fugir do quarto do hospital, sai da instalação, libertando e curando animais que também estavam presos no mesmo local. O amor que dói é o amor que cura, a verdadeira sutura da humanidade.


11. Ave Maria
Piste cachée ou ghost track de algumas tiragens do álbum, trata-se de Mylène cantando o hino Ave Maria de Schubert em latim, num tom de voz quase nunca executado. A melodia é quase livre de sintetizadores e os únicos efeitos são o barulho de um respirador artificial no início da canção e a de batidas cardíacas no final

Letra: 8,0
Melodia e Instrumentação: 8,5
Vocais: 9,0
Videografia: 7,0
Identidade Visual: 8,5
NOTA FINAL: 8,2


Especial Mylène Farmer VII: Point de suture, a dominação eletrônica Especial Mylène Farmer VII: Point de suture, a dominação eletrônica Reviewed by Wilson Barroso on sábado, maio 06, 2017 Rating: 5