Especial Mylène Farmer VI: Avant que l'ombre..., de volta às origens

Veja nossas resenhas anteriores.
1. Cendres de lune (1988)
2. Ainsi soit-je... (1988)
3. L'autre... (1991)
4. Anamorphosée (1995)
5. Innamoramento (1999)

Entre este álbum e seu trabalho anterior (‘’Innamoramento’’), quase seis anos se passaram. No entanto, Mylène Farmer ainda não estava parada, tendo lançado um álbum de compilação (“Les Mots”, de 2001, que vendeu mais de 1,6 milhões de cópias na França) e um de remixes (“RemixeS”, em 2003). No entanto, os fãs ainda estavam ansiosos por um novo álbum de inéditas, que teve a estréia adiada algumas vezes para a raiva e desespero geral da nação.

‘’Avant que l’ombre...” (Antes que as sombras...) foi lançado em 4 de Abril de 2005 e foi platina dupla na França, vendo apenas no país mais de 480 mil unidades. Esse trabalho foi, antes de tudo, um retorno às raízes de Mylène, ao pop que ela costumava fazer em seus três primeiros álbuns, abandonado o som americanizado de ‘’Anamorphosée’’ e os ritmos étnicos de ‘’Innamoramento’’. A própria capa do álbum espelha esse retorno: ela voltou a abusar do preto e do vermelho (sepultando o azul e o branco que vinha utilizando desde 1995) e a usar as reticências no título do álbum.

Todas as letras do álbum foram escritas pela própria Mylène. Musicalmente, as músicas acústicas tem seu espaço, mas o eletrônico não foi abandonado. Aqui houve a introdução de instrumentos até então inéditos em seu trabalho, como clarinete e vibrafone, e a própria voz da cantora foi forçada em notas altas. A temática do álbum não é nova:  sexo, morte, desilusão, religião e amor visto de uma forma melancólica, tudo como sempre repleto de jogos de linguagem e referências literárias.

Veja nossa análise faixa a faixa

1. Avant que l’ombre... (Antes que as sombras...)
O álbum começa com uma canção muito mística. No texto, ela recorre a Jesus Cristo, mas sem ser uma música gospel, podendo ter sido dirigida a qualquer divindade, evocando seu medo da morte, ainda mais sem ter conhecido o amor.

Musicalmente, é lenta e longa, mas nem por isso menos bela. Com órgão, sinos e vibrafone, a melodia clara e tocante acompanha a voz de Mylène, que em certos momentos atinge notas altas, evocando dor e/ou expiação. Apesar de não ter sido single do álbum, foi o encerramento da série de shows "Avant que l’ombre... A Bercy", e ganhou vida nova performada ao vivo.

2. Fuck them all (Fodam-se todos)
O lead-single do álbum foi criticado pela imprensa francesa pelo palavrão e pela ‘falta de originalidade’ dos sintetizadores. Apesar do comeback agridoce, essa música logo foi merecidamente aclamada. É uma canção feminista, sob o olhar da ‘guerra dos sexos’, evocando a força da mulher, seu martírio e sua fertilidade, criticando a forma bestializada com que as mulheres são vistas por muitos homens.

É ao mesmo tempo densa e hipnótica, com direito a rap, coro infantil, guitarra acústica e sintetizadores. E dessa bagunça que tinha tudo pra dar errado, nasceu uma obra prima.

O clipe é particularmente artístico, e precisa ser revisto para ser entendido, pois contém uma narrativa não-linear. Mostra uma Mylène do presente ‘vingando’ a morte da Mylène do passado, presa numa gaiola. Com o simbolismo dos corvos presentes ao longo do vídeo, no fim ela destrói espantalhos que soltam um sangue escuro, até que finalmente ela própria desaparece no ar.


3. Dans les rues de Londres (Nas ruas de Londres)
Considerada pelos fãs umas das melhores do álbum, essa canção já começa com acordes de piano muito particulares, que acompanham Mylène cantando suavemente sobre o suicídio de Virginia Woolf. Como de costume, os temas da vida e da morte são trazidos à tona, de uma forma bastante bem feita e nada clichê.

4. Q.I.
O segundo single do álbum é recheado de trocadilhos. Apesar da letra falar de atração pela inteligência do parceiro, há vários trocadilhos e jogos de linguagem que deixam o conteúdo mais sexual. É uma das canções mais elegantes do álbum, um tanto puxada para o jazz, mas o piano eletrônico denuncia o pop gostoso contido nessa faixa.

O videoclipe  dessa canção é bem simples, mostra Mylène tentando despir um homem que está lendo numa poltrona e atiçá-lo pro sexo, culminando no ato propriamente dito.


5. Redonne-moi (Devolva-me)
O terceiro single do álbum é uma balada bastante lenta. A melodia é bem executada no piano, acompanhando a voz de Mylène, que alcança notas mais altas para expressar fragilidade, como foi feito em músicas anteriores tais quais “Rever” e “Ainsi soit-je...”. O solo de clarinete no meio da canção a dá um sabor todo particular.

A letra confronta dor e esperança, um passado de sofrimento e a fé de que o futuro pode ser melhor, sendo um tanto otimista.

O clipe tem um grande apelo estético e é repleto de simbolismo, se passando um atelier de escultores, onde uma estátua de Mylène e uma lápide são feitos.


6. Porno grafique (Pornô gráfico)
Essa faixa é uma resposta ácida às críticas que Mylène recebeu por causa do conteúdo erótico das fotos do encarte de sua compilação ‘’Les mots’’, de 2001. Por isso, além do título, a canção é repleta de alusões a práticas sexuais diversas, com teor provocativo.

A música em si carrega sintetizadores pesados e um jazz agitado com piano eletrônico, que marca seu ritmo ao lado de uma bateria.

7. Derriére les fenêtres (Atrás das janelas)
Essa canção é acompanhada majoritariamente por piano e bateria, acompanhando um ritmo lento que é quase uma balada. A letra parece ser um agradecimento a algo ou alguém que age nos bastidores, por ‘trás das janelas’. O significado exato, talvez só a própria Mylène saiba.

8. Aime (Amo)
Esta faixa eletrônica e dinâmica é acompanhada por um sintetizador suave, onde Mylène faz uma homenagem ao cantor francês Serge Gainsbourg, utilizando inclusive alguns de seus trocadilhos e vocabulário particulares. Quanto o plano principal da música, fala de um amante do passado que a fez sofrer, um conteúdo bastante tocado por Serge.

9. Tous ces combats (Todas essas lutas)
A nona canção do álbum é mais serena e acústica que a anterior. Os sintetizadores tão uma trégua e o piano se torna o instrumento dominante, enquanto Mylène canta sobre dilemas e lutas internas que ela foi obrigada a encarar durante sua carreira.

No texto dessa música há referências a Les poémes saturniens, do poeta simbolista francês Paul Verlaine.

10. Ange, parle-moi (Anjo, me diga)
Essa faixa, assim como a anterior, é bastante acústica e dominada pelo piano. Na letra, Mylène se endereça a um ‘anjo’, pedindo para não morrer. Apesar de bela e bem-executada, não é uma canção memorável.

11. L’amour n’est rien...  (O amor não é nada)
O quarto single do álbum teve tanto letra quanto música compostas por Mylène. É a canção mais otimista do álbum, e fala sobre amor, repelindo o que a sociedade considera ‘correto’ e ‘tradicional’. 

O clipe é bem simples, mostra apenas Mylène numa espécie de striptease coreografado, mas sem tanta carga erótica, de modo que não foi censurado pela televisão francesa, exemplificando a naturalidade e não-demonização do nu no pop europeu.


12. J’attends (Eu espero)
Essa música se parece um pouco com “Tous ces combats” na instrumentação, e é igualmente gostosa de escutar. Assim como a canção anterior, ela é relativamente otimista, onde Mylène diz que está feliz por estar amando, mas fica apreensiva ao pensar que o sentimento vai superar a própria cantora se o relacionamento se estreitar.

13. Peut-être toi (Talvez você)
O quinto single do ‘’Avant que l’ombre” é uma das melhores canções do álbum e a escolhida para abrir a tsua turnê (Avant que l’ombre... À Bercy). Ela conta com uma sonoridade dance e techno, com um coro de fundo que repete ‘’shut up’’ constantemente. A letra fala sobre Mylène apaixonada, que pede para o amante não deixar que sua personalidade escura e pessimista supere o sentimento, principalmente diante da efemeridade da paixão.

O videoclipe é feito no estilo anime japonês, onde Mylène e seu amante fogem e lutam com robôs num ambiente futurista. O fim do clipe passa uma mensagem clara: de que apenas a morte pode assegurar a eternidade do amor, talvez uma influência de “Romeu e Julieta”, de William Shakespeare.



14. Et pourtant... (E ainda...)
Essa é a canção mais acústica do álbum, sendo quase somente piano e voz, voz essa que atinge muitas notas altas, trazendo doçura à faixa. Na letra, ela se refere ao fato de que vai morrer cedo ou tarde, mas que morre aliviada por ter conhecido o amor, apesar do sofrimento.

15. Nobody knows
A última faixa do álbum é uma piste cachée, ou seja, não aparece explicitamente na tracklist do CD, mas começa a tocar após um certo tempo de silencio que a separa da música anterior.

É uma canção bastante experimental, carregada de sintetizadores e teclado eletrônico. A letra é de certa forma surrealista, não fazendo nenhum sentido literal. Mas ainda assim é bastante envolvente.

Letra: 8,5
Melodia e Instrumentação: 9,0
Vocais: 8,5
Videografia: 8,0
Identidade Visual: 8,5

NOTA FINAL: 8,5


Especial Mylène Farmer VI: Avant que l'ombre..., de volta às origens Especial Mylène Farmer VI: Avant que l'ombre..., de volta às origens Reviewed by Wilson Barroso on sexta-feira, maio 05, 2017 Rating: 5