Especial Mylène Farmer V: Innamoramento, pés no chão, cabeça no mundo

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1. Cendres de lune (1986)
2. Ainsi soit-je... (1988)
3. L'autre... (1991)
4. Anamorphosée (1995)

Depois da turnê de 1996, Mylène Farmer desapareceu da mídia por quase três anos, como de costume, visto que ela é famosa por simplesmente sumir da mídia quando não está promovendo nenhum novo trabalho. Neste período, a cantora viajou por vários países, como Irlanda, China, Índia e Itália, o que permitiu, junto com uma miríade de referências literárias, que seu novo álbum fosse um caldeirão étnico, trazendo para si sons, histórias e clipes com forte influência estrangeira. Ao mesmo tempo  o experimentalismo yankee do álbum anterior foi diminuído e as raízes chanson e variété de Mylène voltaram a prevalecer.

A artista também incluiu sons da natureza em várias das faixas desse álbum, algo que ela já havia ensaiado acrescentando sons de água na faixa "Eaunanisme", do álbum anterior. O título do álbum, primeiro a não ser em francês, é uma referência ao livro Falling in Love, de Francesco Alberoni e, assim como seu equivalente em português ‘enamoramento’, é o processo de se apaixonar por algo ou alguém.

Mais uma vez, Mylène foi responsável por escrever todas as letras, além de compor a melodia de cinco faixas. Este álbum lida com medos e ansiedades conhecidos de Mylène, como dor, amor infeliz, passagem do tempo e sexualidade, com muitas referências a escritores e pintores. Mas, pela primeira vez, o álbum foca no amor e em seus desdobramentos, não sendo tão sombrio quando os três primeiros de sua discografia.

Lançado em 7 de Abril de 1999, "Innamoramento" recebeu críticas majoritariamente positivas da mídia e foi mais um sucesso estrondoso de Mylène Farmer: apenas na França, vendeu mais de 1,1 milhões de unidades, permanecendo nos charts de 1999, 2000 e 2001, sendo o quarto disco de diamante consecutivo da cantora.
               
Veja nossa análise faixa a faixa
             
1. L’amour naissant (O amor que nasce)
O abre-alas do álbum é a tradução para o francês do termo 'innamoramento' e pode ser considerado o resumo da sonoridade do álbum, por destacar suas diferenças em relação ao álbum anterior. Ele é mais voltado para a chanson, começando com sons de trovões e chuva e terminando uma espécie de coro étnico muito bem encaixado.

Apesar de ser uma faixa lenta, não chega a ser uma balada triste propriamente dita, pois contém uma batida em segundo plano que sustenta a melodia da música. Com referências ao filme Ryan’s Daughter, de 1970, essa faixa fala sobre amor, apesar de que de uma forma pessimista, associando-o direta ou indiretamente a frio, tédio e morte.

2. L’âme-stram-gram
O lead single do álbum não tem um nome traduzível, sendo um neologismo baseado na versão francesa de uma rima infantil muito conhecida (uni-duni-tê). Justamente por essa inspiração, essa música tem uma letra cheia de neologismos e trocadilhos sexuais.

Sob uma visão ampla, fala sobre sexo pelo viés psicanalítico, inclusive sobre suas manifestações da infância, como Complexo de Édipo (citado na letra, inclusive). Esse contraponto de infantilidade e inocência contra um assunto ‘adulto’ não é novidade, já tendo sido explorado em músicas como "We’ll never die", "Maman a tort", "Chloe" e "Jardin de Vienne".

Sendo uma música agitada, com ritmo techno bastante proeminente, não é uma música representativa quanto à sonoridade do álbum em si, destoando bastante da forma que as outras músicas soam.

O clipe deste single, como não acontecia desde "Desenchantée", é um curta-metragem de quase oito minutos inspirada na série de filmes Chinese Ghost Story, dirigida inclusive pelo próprio diretor do clipe, Ching Siu-Tung. Nele, duas irmãs gêmeas (encarnadas pela própria Mylène) são separadas por bandidos chineses quando uma delas é sequestrada. Durante a tentativa de resgate, elas ganham poderes ao encostarem as línguas, mas no confronto uma delas acaba morrendo, o que leva ao suicídio da sobrevivente. Talvez seja uma alegoria do escapismo da vida, o que acontece muito durante a infância (com o mundo da imaginação e amigos imaginários, por exemplo).


3. Pas le temps de vivre (Sem tempo para viver)
Mais uma vez, Mylène Farmer inicia uma música com sons da natureza para nos deliciar. Com um som de água corrente, já é passado pro ouvinte a paz imensa que essa música traz.

Com instrumental discreto, a voz de Mylène se sobressai lindamente. Apesar de ser uma balada, não traz sono nem deprime o ouvinte, mas o traz tranquilidade. A letra contém vários neologismos e é bastante visual, evocando imagens na cabeça de quem a escuta.

A letra trata da sensação de melancolia e solidão que a ausência da pessoa amada traz, talvez uma versão pasteurizada da letra de "Regrets", visto que não há morte ao longo do texto.

4. Dessine-moi un mouton (Desenha-me um carneiro)
Não há um consenso se esta música foi o sexto single do álbum ou o primeiro de "Mylenium Tour", a turnê do álbum.

Seja como for, essa música é por si fortemente inspirada por O Pequeno Príncipe, de Saint-Exupery, sendo o próprio título uma alusão a um dos momentos do livro. Apesar da forte inspiração, não se conta a história do livro, mas fala de imaginação e infância, convidando o ouvinte a se reconectar com sua criança interior.

Musicalmente, já começa com um teclado bem marcado e o balido de um carneiro. É uma canção animada, com uma guitarra bastante presente e refrão de certa forma pegajoso. Seu clipe foi apenas a performance ao vivo da turnê, onde essa música é cantada de um enorme balanço com uma cabeça de íbis/esfinge em cada extremidade.
                 

5. Je te rends ton amour (Te devolvo seu amor)
O segundo single de Innamoramento é uma obra de arte, o que vem a calhar, pois ao longo do texto há várias referências a pintores e obres (tais quais Egon Schiele e sua obra femme nue debout e Paul Gauguin). Liricamente, fala sobre um amor tão pesado que o eu-lírico não consegue carregar, mas também pode ser visto como o peso da vida e das experiências do artista dentro de seu trabalho.

É uma canção melodicamente densa, com um baixo pesado desde o começo. Com camadas instrumentais que se sobrepõem gradualmente e uma voz clara de cristalina explodindo num refrão ao mesmo tempo calmo e hipnotizante, esta faixa foi um grande acerto.

Assim como "Justify my love", de Madonna, o clipe desta canção foi considerado muito pesado, sendo censurado por alguns canais de música e lançado como VHS-single. Agora imagine: quão pesado um clipe precisa ser pra ser censurado num país que televisionava clipes muito pouco ortodoxos da cantora como "Libertine", "Tristana" e "Beyond My Control"? Provavelmente o suficiente para não estar no Youtube, sendo que, até a data de escrita desse artigo, ele está disponível na íntegra apenas no Vimeo.

Esse clipe mostra uma mulher cega que entra numa igreja no meio de uma floresta e acaba sendo estuprada pelo demônio em pessoa, disfarçado de confessor, de forma que recupera a visão ao fim do vídeo. Pode ser visto como a liberdade e visão da vida que uma pessoa tem ao ver as coisas por si, sem as lentes da religião, uma forma de ‘renascimento’ mostrada esteticamente com a cantora em posição fetal numa poça de sangue. Repleta de simbologia, é um vídeo que renderia um artigo de 50 páginas do Danizudo, mas apesar de tudo, é uma verdadeira obra de arte da videografia musical francesa.

Para ver o vídeo, clique AQUI.

6. Méfie-toi (Tenha cuidado)
Essa canção tem um toque de metalinguagem, pois começa com sons dos passos de Mylène entrando no estúdio, limpando a garganta e começando a cantar. De certa forma jazzy, é uma música bastante elegante com uma batida agradável e uma guitarra discretíssima ao longo do texto.

A letra fala do budismo, que é uma religião de certa forma mais filosófica que dogmática, talvez um reforço da interpretação do renascimento laico do clipe da faixa anterior. Há alguns trocadilhos e referências ao Livro Tibetano da Vida e da Morte (de Sogyal Rinpoche) e há referências à astrologia e ao conceito de deus supremo na filosofia gnóstica (sob o acrônimo IAO, repetido várias vezes ao longo do texto).

7. Innamoramento (Enamoramento)
A faixa título e quinto single do álbum homônimo é tão apaixonante quanto o nome sugere. Mais uma vez é usado o recurso do instrumental discreto para destacar a voz cristalina da cantora. É uma balada pop cujas camadas instrumentais aumentam gradualmente, até um refrão mais animado, onde Mylène usa de notas altas bastante elegantes.

Ela fala sobre se apaixonar, mas em um viés mais geral, não necessariamente relacionado ao amor romântico.

Tem um clipe bastante simples, alternando cenas de Mylène cantando numa paisagem idílica, num gramado perto de árvores, e cenas da performance da turnê. Assim como "Pas le temps de vivre", é uma música que traz uma grande paz a quem a ouve.


8. Optimistique-moi (Me ‘otimistize’)
O quarto single do álbum foi o mais desejado como música de trabalho pelos fãs, talvez em parte por ter tido tanto música quanto letra compostas por Mylène. Trata-se mais uma vez de um neologismo, pois o verbo ‘optimistiquer’ não existe em francês, significando, talvez, ‘tornar otimista’ ou algo do gênero.

Dentro do álbum, é a que tem o ritmo mais denso, tendendo pro techno bate-estaca, com batida bem marcada. Bastante dance, sua melodia gruda na cabeça com facilidade.

A letra é ambígua em vários pontos e, apesar de fazer referência ao incesto em certas partes, parece lidar com relações pais-filhos, talvez uma discussão entre mãe e filha, onde a filha-Mylène faz várias críticas e acaba declarando que prefere o pai.

O clipe se passa num circo, onde Mylène é uma acrobata que se equilibra em cordas e bolas, quase caindo várias vezes, terminando ao lado de um mágico que envelhece subitamente.


9. Serais-tu lá? (Você vai estar lá?)
A nona faixa não tem introdução, começa direto com a voz da cantora. Mais uma vez, o instrumental é diminuído para exaltar a voz de Mylène, aumentando delicadamente no refrão. É uma balada pop que repete várias vezes o título da música.

Em dado momento na segunda metade da música, a voz da cantora se cala para dar lugar a um solo de sintetizador bastante sensual, com um cantarolar delicado. Na letra, o eu-lírico fala diretamente com um amante, evocando os erros e arrependimentos de uma relação amorosa e perguntando se ‘ele estaria lá’ se ela se sacrificasse por ele, sendo esse sacrifício talvez a morte.

10. Consentement (Consentimento)
Essa é de longe a faixa mais enigmática do álbum, sendo difícil de interpretar. Ela abre com uma espécie de coro fantasmagórico e instrumental robusto que cresce devagar e explode no refrão. É uma balada um tanto descaracterizada, por conta de sua tendência ao dance, principalmente no refrão.

Aparentemente, fala de um amor recém nascido conjugado na segunda pessoa do plural, como se ela houvesse se apaixonado por alguém socialmente mais importante ou por mais de uma pessoa. Esta faixa contém referências à cantiga de roda Ah! Vous dirai-je, maman.

11. Et si vieillir m’était conté (Se me contassem sobre envelhecer)
Como visto em "Plus grandir" e "Vertige", a passagem do tempo e o medo de envelhecer são temas constantes nas letras de Mylène Farmer. E é exatamente esse o caso, onde a velhice é representada pela noite.

Previamente escolhida para ser o terceiro single do álbum (substituída por "Souviens-toi du jour"), é uma música bastante melancólica, onde Mylène utiliza notas mais altas para evocar todo esse sentimento escuro, como feito em "Ainsi soit-je...".

Há a presença de uma backing vocal que aparece no refrão, para adicionar uma camada extra de dramaticidade à faixa.

12. Souviens-toi du jour (Lembre-se do dia)
O terceiro single do álbum, lançado ao invés da faixa anterior, é muito mais dance e complexo musicalmente que a música originalmente planejada pra ser música de trabalho. Ela começa lentamente, mas logo o instrumental toma volume, de forma que antes mesmo do refrão, a música já se torna dinâmica e animada.

Com a mesma temática de "Rêver", do álbum anterior, ele fala sobre esperança para superar eventos historicamente traumáticos, principalmente o holocausto, que é o foco da música, que inclusive foi fortemente inspirada no livro ‘É Isto Um Homem?’ de Primo Levi, que conta sua história num campo de concentração.

O clipe, que se passa em uma casa em chamas e mostra Mylène cantando em um vestido transparente, foi considerado desrespeitoso para com os sobreviventes do holocausto, sendo altamente criticado na época, apesar do ótimo desempenho do single.


13. Mylenium
O álbum termina com uma música de audição difícil, mas que vale a pena não pular ou encerrar o disco antes da hora.

Essa faixa começa com a palavra ‘innamoramento’ sendo repetida de forma tediosa e silabicamente separada por um longo tempo. Mas aos poucos, camadas instrumentais são acrescentadas à música. Primeiro uma guitarra suave, logo em seguida um sintetizador hipnotizante que já muda a percepção da música.

O instrumental cresce cada vez mais, até que em 03:13, já vira uma música totalmente diferente, sendo um canto tribal/étnico permeado por uma batida quase extática. Essa faixa, apesar de dificilmente deglutida das primeiras vezes, foi uma escolha inteligentíssima para a abertura da "Mylenium Tour", que viria em 2000 para promover o álbum.
           
Letra: 8,0
Melodia e Instrumentação: 8,0
Vocais: 8,5
Videografia: 9.0
Identidade Visual: 7,5

NOTA FINAL: 8.2


Especial Mylène Farmer V: Innamoramento, pés no chão, cabeça no mundo Especial Mylène Farmer V: Innamoramento, pés no chão, cabeça no mundo Reviewed by Wilson Barroso on quinta-feira, maio 04, 2017 Rating: 5