Especial Mylène Farmer IX: Monkey me, o retorno de Boutonnat

Veja nossas resenhas anteriores
1. Cendres de lune (1986)
2. Ainsi soit-je... (1988)
3. L'autre... (1991)
4. Anamorphosée (1995)
5. Innamoramento (1999)
6. Avant que l'ombre... (2005)
7. Point de suture (2008)
8. Bleu noir (2010)

Apesar do sucesso estrondoso que o álbum Bleu noir” (2010) alcançou na França e arredores, ele deixou certo estranhamento em alguns fãs. Pela primeira vez em muitos anos, as músicas não foram produzidas por Laurent Boutonnat, parceiro de décadas de Mylène Farmer. Além de não estarem acostumados a ouvir a cantora produzida por outras pessoas, muitos se questionaram se ela enveredaria de vez pelo caminho do EDM (electronic dance music) americanizado que RedOne a introduziu.

Pensou-se por um tempo que a resposta dessa pergunta seria ‘sim’, por causa dos singles puxados para o EDM que Mylène apresentou em seu álbum de compilação 2001-2011, lançado no ano seguinte. Se “Du temps” e “Sois moi – be me” eram tão americanizados, o que esperar do futuro?

As dúvidas acabaram em 03 de Dezembro de 2012, com o lançamento do nono álbum de estúdio de Mylène, chamado “Monkey me” (Eu macaco) que, apesar de ser muito eletrônico e dançante, não entra na fórmula americana do EDM, lembrando um pouco em melodias o álbum “Point de suture” (2008), em parte por causa da volta de Laurent, recompondo o duo d’or do pop francês.

Este álbum é o sexto disco de diamante de Mylène na França, tendo superado as 500 mil unidades vendidas, somando cópias físicas e digitais. Este também é o primeiro álbum de uma cantora francesa a ter uma tiragem que vem com um blu-ray contendo as músicas em altíssima definição. Seu nome é ao mesmo tempo uma homenagem a ET, o macaco de estimação da cantora, que morreu pouco após o lançamento do disco, e uma referência aos três macacos da sabedoria (o cego, o surdo e o mudo).

Este trabalho em si é bastante eletrônico e dançante, com um uso magistral de sintetizadores e instrumentos distorcidos. Apesar disso, há algumas baladas orgânicas muito bem feitas, marcando o fim de cada metade do álbum, que dão uma pausa necessária no batidão, evitando que a audição se torne cansativa

Veja nossa análise faixa a faixa

1. Elle a dit (Ela disse)
O abre-alas do álbum começa diretamente com a voz suave de Mylène, sem introdução instrumental. A melodia eletrônica cresce ao longo do tempo, com camadas instrumentais sendo acrescentadas até o refrão, que explode misturando sintetizadores, teclado distorcido e bateria. Mylène canta no refrão mais lentamente a batida, como que para reforçar a mensagem.

Essa canção fala sobre uma mulher lésbica sendo tomada pelo sentimento, provavelmente após se apaixonar. O texto tem referências ao filme L’inconpris (1987) e à HQ 'Le bleu est une couleur chaude', que em 2013 daria origem ao filme “Azul é a cor mais quente”.

2. À l’ombre (Nas sombras)
O primeiro single do álbum é uma faixa uptempo dance eletrônica pronta para as festinhas. Assim como na faixa anterior, em certos momentos Mylène alonga as sílabas enquanto a batida continua acelerada. Ela fala sobre a passagem do tempo e sobre os problemas que nos fazem querer nos esconder do mundo. Muitos fãs interpretaram essa canção como anúncio da aposentadoria da cantora, que felizmente não aconteceu.

O clipe mostra dançarinos na lama, e é fortemente influenciado pelo artista Olivier de Sagazan e seus vídeos/performances, principalmente 'Transfiguration'. Tão explícita é essa referência que o próprio Olivier faz parte do plot do clipe.


3. Monkey me (Eu macaco)
Dando uma aliviada no eletrônico nas faixas anteriores, o terceiro single do álbum suaviza os sintetizadores e dá espaço pra guitarra e pro teclado eletrônico se sobressaírem, sendo a canção mais orientada para o rock de todo álbum, com direito até os eventuais sinos de igreja. A letra é bastante subjetiva, falando sobre o eu-lírico ‘não ser ele mesmo’. Se é algum tipo de personagem que Mylène assume por alguma razão ou se se trata de algum grau de despersonalização, não podemos ter certeza.

Pela primeira vez, a capa do single foi escolhida através de concurso com os fãs. O clipe é feito em computador e em escala de cinza, alternando cenas de macacos gigantes em cidades sendo destruídas e imagens caleidoscópicas.


4. Tu ne le dis pas (Você não o diz)
Aqui os sintetizadores voltam a reinar numa canção uptempo dance bastante dinâmica, onde mais uma vez Mylène desacelera a voz no refrão em relação à batida. Há um solo de sintetizador no meio da canção, que separa os refrões de forma bem agradável.

Apesar de toda essa dinâmica, tem um texto bem pessimista, dizendo que a cada dia o mundo se torna mais caótico, sendo a vida um ‘naufrágio inevitável’ que vai inevitavelmente terminar com a morte.

5. Love dance
Essa faixa talvez seja o maior erro que Mylène cometeu em toda a sua discografia até hoje. Ela é cantada em inglês e francês, e a letra é um repetição mal feita de frases de amor que se esperaria encontrar numa demo de uma protodiva pop americana de terceira classe. Até um 'happy birthday to you' é cantado no meio dessa bagunça.

A única coisa que torna possível ouvir essa música sem sentir um desejo visceral de mudar de faixa é a melodia, que é muito bem-feita e permite que um piano eletrônico acompanhe os sintetizadores. Em algumas partes, lembra até mesmo música de desfile de moda. É o mínimo que se espera pra compensar a letra.

6. Quand (Quando)
Essa faixa permite que os ouvintes descansem das batidas eletrônicas e marca o fim da primeira metade do álbum. É uma balada acústica dominada por violino e piano, mas permite que um sintetizador suave componha o fundo instrumental. A voz aveludada de Mylène canta sobre um relacionamento onde os ressentimentos estão cada vez maiores, fazendo parecer que o amor somente não basta.

Assim como “Leila”, do álbum anterior, ganhou um vídeo sem ser single.


7. J’ai essayé de vivre... (Tentei viver...)
Se “Quand” acalma o ouvinte e o põe em estado de calma, a guitarra repentina dessa faixa dá um susto e tanto. Além da guitarra, os sintetizadores e o piano tornam essa uma canção dance muito boa, principalmente por ceder espaço para Mylène cantar.

A letra, como o nome indica, fala sobre tentar achar um sentido pra viver e na vida em si, e que o mais perto que a cantora chega disso é produzindo e estando em contato com seus fãs.

8. Ici bas (Aqui embaixo)
Mais uma canção eletrônica uptempo e dance com direito a um sintetizador forte e até mesmo palmas. Estamos num ponto do álbum em que aqueles que não gostam tanto de canções tão eletrônicas podem começar a se cansar. É uma canção safadinha, falando sobre sexo usando vários eufemismos e trocadilhos, assim como “Porno graphique”, do álbum “Avant que l’ombre...”.

9. A-t-on jamais (Alguma vez nós)
Um pouco mais acústica, os sintetizadores são suavizados e o violão se torna mais importante. É mais lenta que a maior parte das canções desse álbum, mas ainda assim é bastante techno.

A letra é sobre arrependimento, sobre todas as coisas que o eu-lírico poderia ter feito para que o seu amante não fosse embora.

10. Nuit d’hiver (Noite de inverno)
Essa faixa é uma releitura com sintetizadores sombrios, coro e ruídos de filme de terror da canção “Chloe” do álbum “Cendres de lune”. Talvez seja a forma que Mylène queria ter apresentado a canção na época, mas não pôde por causa da tecnologia da década de oitenta. É um pouco menos assustadora porque não soa mais como uma canção de ninar.

11. À force de... (Pela razão de...)
Com os sintetizadores mais interessantes do álbum e uma espécie de chocalho, essa música é acompanhada pela voz de Mylène distorcida em alguns pontos. Não chega a ser uptempo, mas ainda assim tende bastante ao dance. Foi uma escolha certeira para a abertura da turnê “Timeless”, que promoveu o álbum.

A letra parece algo que sairia da boca de uma pessoa à beira da morte, fala sobre querer viver e sobre o arrependimento de não ter feito certas coisas.

12. Je te dis tout (Te digo tudo)
A  canção que marca o fim da segunda metade do álbum foi seu segundo single e assim como “Quand”, é uma balada acústica muito bem feita, onde os sintetizadores são suavizados em favor do piano. É uma declaração de amor absoluto, um tema que apesar de ser bem comum no âmbito de música pop, é algo raríssimo na discografia de Mylène.

O videoclipe dessa música é bastante simples e bonito, alternando cenas de Mylène num bote no meio de um lago e outras dela tentando domar um cavalo. A ambientação do clipe foi considerada por muitos uma homenagem a clipes antigos da cantora, como “Ainsi soit-je...”, “Tristana” e “Je te rends ton amour”.


Letra: 8,0
Melodia e Instrumentação: 8,0
Vocais: 8,5
Videografia: 6,5
Identidade Visual: 8,0
NOTA FINAL: 7,8

Especial Mylène Farmer IX: Monkey me, o retorno de Boutonnat Especial Mylène Farmer IX: Monkey me, o retorno de Boutonnat Reviewed by Wilson Barroso on segunda-feira, maio 08, 2017 Rating: 5