Especial Mylène Farmer IV: Anamorphosée, Mylène Farmer morreu e foi substituída

Veja as resenhas anteriores
1. Cendres de lune (1986)
2. Ainsi soit-je... (1988)
3. L'autre... (1991)


O quarto álbum de Mylène Farmer foi talvez um dos maiores plot twists da história da música francesa, marcando uma mudança expressiva em sonoridade, identidade visual e letras no trabalho da cantora.

Mylène Farmer continua cantando sobre temas incomuns para música pop, mas ao invés de falar de forma pessimista e de certa forma aterrorizante em algumas canções, ela passou a usar mais do humor e da ironia, o que suaviza a audição do álbum. O uso de neologismos (invenção de palavras, com relação com palavras existentes) e trocadilhos foi também muito usado, sendo o próprio título do álbum um neologismo. Em francês, existe a palavra anamorphose (anamorfose), que significa mudança ou representação distorcida da realidade, mas não seu particípio passado (anamorphosée). Com esse jogo léxico, Mylène mostra que mudou bastante em relação aos trabalhos anteriores, no entanto, sem perder a essência.

Após o estrondoso sucesso de seu álbum antecessor, Mylène Farmer enveredou pelo caminho do cinema, atuando no filme Giorgino (1994). No entanto, foi um verdadeiro fiasco (um dos únicos) na carreira de Mylène. Após esse golpe, a cantora viajou para vários países orientais, entrando em contato com filosofias budistas e taoístas, finalmente indo morar em Los Angeles, o que refletiu numa sonoridade mais rock e R’n’B e em letras um pouco menos subjetivas e pessimistas.

A própria capa do álbum reflete essa mudança drástica, pois é muito clara e monocromática, sem mostrar o rosto da artista, em contraste com a paleta de cores escura e o foco no rosto nas capas anteriores. O próprio cabelo curto e ruivo, característico da cantora, foi trocado com um cabelo mais longo e escuro.

Lançado em 17 de outubro de 1995 (foi a primeira vez que um álbum de estúdio dela não foi publicado em abril), Anamorphosée teve críticas mistas (alguns jornais chegaram a chamá-lo de ‘imitação barata de Nirvana’), mas foi um verdadeiro sucesso de vendas: vendeu mais de 1,3 milhões de unidades somente na França, sendo seu terceiro disco de diamante consecutivo.

Veja nossa análise faixa a faixa

1. California (Califórnia)
O abre-alas do álbum já escancara a mudança de sonoridade para o ouvinte. O terceiro single do álbum começa com barulhos urbanos (uma porta de carro batendo, uma sirene, um helicóptero, etc), o que leva a um R’n’B jazzy extremamente sensual e simplesmente apaixonante.

A letra é uma ode a Los Angeles e ao renascimento artístico que Mylêne teve em seu exílio nos Estados Unidos. É repleta de anglicismos e tem uma letra bastante elegante, com várias referências literárias (como citações do poeta Guillaume Apollinaire). Há também vários trocadilhos, já iniciando a tendência aos jogos léxicos e figuras de linguagem que Mylène abusou nesse álbum.

No clipe, Mylène interpreta dois papéis, que se alternam ao longo do vídeo. Ela encarna uma socialite que se arruma para uma espécie de vernissage e uma prostituta que briga com seu cafetão, que eventualmente a mata. Ao ver sua sósia sendo ameaçada com uma faca, a mulher rica se veste de prostituta e vinga da sua cópia. Uma curiosidade: as prostitutas que aparecem no clipe não são atrizes, são prostitutas de verdade, com quem Mylène passou alguns dias para aprender para aprender mais sobre a profissão.


2. Vertige (Vertigem)
Esta é talvez a música mais rock do álbum. Injustamente descartada como single, Mylène se redimiu ao pô-la como abertura de sua segunda turnê, iniciada em 1996.

Ela já começa com percussão e guitarra, que acompanham toda sua melodia, acalmando-se e ficando mais discretas enquanto Mylène canta, voltando ao destaque no refrão. Sua letra fala sobre a brevidade da vida, que chega a dar vertigens no eu-lírico por causa de sua velocidade, enquanto no refrão se fala sobre espiritualidade, que ajudou a cantora a encarar o medo e angústia que a vinda da morte causam (como dito em várias entrevistas, inclusive).

3. Mylène s’en fout (Mylène está farta)
Com melodia mais tranquila e inclinada ao jazz, Mylène passa a música referindo-se a si mesma na terceira pessoa. Não está entre as faixas mais memoráveis do álbum, mas é bem executada e merece ser ouvida de coração aberto.

Tematicamente, ela se endereça a um homem que quer conquistar Mylène e exercitar sua luxúria tentando comprá-la com dinheiro e jóias, e a mesma se recusa, dizendo que prefere simplicidade, sinceridade e qualidades do caráter. É um tipo de anti-"Material Girl".

4. L’instant X (A hora H)
O segundo single e música mais bem-sucedida do álbum é encharcado (literalmente, no clipe) de ironia. No fim da década 1990, houve um medo fortíssimo de que o ano 2000 trouxesse o apocalipse, medo esse que foi bem maior e mais generalizado que em 2012 e atacado com ironia ao longo da letra, falando de várias coisas do dia a dia.

Marcado por piadas sarcásticas e sendo um verdadeiro caldeirão de referências (U2, revista Elle, Rio Estige da mitologia grega, etc.), não é de surpreender que esse tenha sido o smash hit do álbum.

Aqui, Mylène está cantando com uma voz mais profunda e grave do que de costume. Após uma introdução de quase 40 segundos, um baixo acompanha essa letra sarcástica que explode no refrão.

O clipe da música complementa a ironia da letra. Mylène, com uma maquiagem pesadíssima, está deitada em uma nuvem, enquanto observa o ‘apocalipse destruindo Nova York', ou seja, uma maré de espuma cobrindo a cidade.


5. Eaunanisme
Mais uma vez, um neologismo, formado pela junção das palavras eau (água) e onanisme (onanismo, ou masturbação).

A canção começa com som de água, recurso que seria melhor explorado no álbum seguinte. Trata-se de um jazz sensual, e a guitarra suave que acompanha a música dá um toque todo especial.

A letra tem vários significados possíveis, mas o mais visível é de que fala sobre masturbação feminina, utilizando a água como alegoria.

6. Et tournoie... (E gira...)
Ao contrário de "Tristana", cujo toque de flauta de Pã no início deixa o ouvinte tenso e atento, nessa música ela acalma e pacifica. Assim como "Eaunanisme", é uma canção jazzy e sensual, com uma guitarra discreta que acompanha a letra. Aqui, no entanto, Mylène ousa mais na voz, chegando a notas um pouco mais altas no refrão.

Aqui, o eu-lírico diz pra alguém deixar de lado o desespero e enfrentar vida com mais otimismo. Mas ela abandona o clichê, sendo bastante realista sobre as dificuldades e problemas da vida. Considerando as atitudes pessimistas e misantropas da artista no passado, seria essa uma mensagem de autoafirmação para a própria Mylène?

7. XXL
Competindo com "Vertige" no quesito de canção mais rock do álbum, o primeiro single de "Anamorphosée" teve de se impor em questão de diferença sonora em relação aos singles anteriores para marcar bem a mudança artística.

Pela primeira vez, a canção não trata de questões universais, dirigindo-se exclusivamente às mulheres. Esse hino feminista diz basicamente que todas as mulheres querem e precisam de amor, seja ela pobre, rica, romântica, pessimista, feminista, conservadora, soropositiva ou transexual.

O clipe desse hino é bastante simples, alternando cenas de Mylène cantando presa na frente de uma locomotiva em movimento e seus passageiros, como evocado na letra.


8. Rêver (Sonhar)
O quinto single de Anamorphosée é uma balada bastante tocante e, apesar de não ter sido muito expressiva nos charts, é ainda hoje uma das mais lembradas da cantora.          

Recheada de referências literárias (principalmente de livros do pós-guerra), a letra dessa música é um pedido por paz e tolerância no mundo, fazendo alusões ao holocausto ocorrido durante a segunda guerra mundial.

Musicalmente, talvez seja a canção menos influenciada pela sonoridade americana do álbum, se assemelhando às canções do começo da carreira de Mylène. Com o instrumental discreto, que cresce um pouco no refrão, a voz da cantora soa limpa e cristalina, tocando direto na alma.

Apesar de um clipe de estúdio ter sido planejado para essa música, a versão oficial é uma gravação ao vivo da turnê (que já havia começado quando esse single foi lançado, em novembro de 1996), onde Mylène a canta com um vestido dourado.

9. Alice
Essa é de longe a música mais puxada pro jazz de todo álbum. Com instrumentos de corda bem proeminentes e cantada aos sussurros em certos pontos, esta canção gruda na cabeça, mas de forma positiva.

É cheia de trocadilhos e jogos de linguagem, sendo difícil ter uma interpretação fixa. Simbolicamente, Alice é uma aranha que personifica a sensação de autodestruição que não deixa a artista criar, mas ao mesmo tempo a inspira. A imagem da aranha é levada ao pé da letra na turnê desse álbum, onde Mylène canta essa música montada numa aranha gigante de aço que desce vagarosamente do teto.

10. Comme j’ai mal (Como eu sofro)
O quarto single do álbum, apesar de ser o menos vendido dos cinco, não foi exatamente um fracasso comercial. Essa música se assemelha a "Ainsi soit-je...", falando basicamente do medo de viver que não permite que o eu-lírico aproveite a vida, que o induz a escapar psicológica e fisicamente da realidade,  criando um mundo perfeito e particular para si.

Musicalmente, é um tanto quanto mecânica e repetitiva, apesar da melodia mais puxada para a chanson ser boa para ouvir das primeiras vezes.

Se a melodia não prende quem a escuta, o clipe compensa essa deficiência maravilhosamente. O vídeo mostra dois estágios da vida da personagem, primeiramente a criança que brinca com insetos e é repreendida pelo pai; e sua transformação em uma mulher-inseto gigante, talvez uma alegoria da transformação e da fuga do mundo real.


11. Tomber 7 fois... (Cair sete vezes...)
Esta foi a primeira música da carreira de Mylène Farmer em que letra e melodia foram ambas compostas pela cantora. 

Com a participação do coral da French School de Los Angeles, é uma música orientada pro rock, com guitarra e bateria bastante presentes, além da própria voz da cantora parecer um pouco metalizada em alguns pedaços. Essa canção fala sobre não se conformar com as rasteiras que a vida dá, e da necessidade de tentar superar essas dificuldades. Talvez seja outra referência ao fracasso comercial de Giorgino.

12. Laisse le vent emporter tout (Deixe o vento levar tudo)
O álbum é fechado por sua canção mais acústica, que deixa a suavidade da voz da cantora se impor a um instrumental discreto.

É uma balada delicada inspirada liricamente no poema Canção de Outono (Paul Verlaine, 1866) que fala de uma pessoa que o eu-lírico ama, mas onde não há reciprocidade, de forma que a cantora ‘deixa o vento levá-lo’.
        
Letra: 8,5
Melodia e Instrumentação: 9,0
Vocais: 9,0
Videografia: 8,5
Identidade Visual: 9,0

NOTA FINAL: 8,8


Especial Mylène Farmer IV: Anamorphosée, Mylène Farmer morreu e foi substituída Especial Mylène Farmer IV: Anamorphosée, Mylène Farmer morreu e foi substituída Reviewed by Wilson Barroso on quarta-feira, maio 03, 2017 Rating: 5