Especial Mylène Farmer III: L'autre..., a consagração

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Se em seu segundo álbum, Mylène Farmer conseguiu o respeito do público francês, foi em "L'autre..." (O outro...) que ela se estabeleceu como uma das maiores artistas da França.

Lançado em 8 de Abril de 1991, este álbum vendeu até hoje mais de 1,8 milhões de álbuns somente na França, sendo o mais vendido da cantora e segundo álbum solo feminino em francês mais vendido da história (perdendo o primeiro lugar apenas em 1995, com o lançamento de "D'eux", da canadense Céline Dion). Deste álbum também veio a canção assinatura e maior hit da cantora, "Désenchantée".

Assim como seus dois primeiros álbuns, "L'autre..." aborda temas pesados e incomuns pra música pop, como existencialismo, morte e melancolia. No entanto, esses temas são tratados com um pouco mais de delicadeza, sem tanto terror e obscuridade como antes. Isso é refletido na capa do trabalho, que tem um grande fundo branco, ao contrário da paleta escura do começo da carreira.

Com as músicas repletas de metalinguagem e um certo teor agressivo, replicando as críticas feitas pela mídia e por grandes conservadores, esta obra-prima tornou Mylène Farmer dona de sua própria carreira e da própria voz, tornando-a menos tímida e relutante em mostrar sua faceta sombria ao mundo. Instrumentalmente, é seu trabalho mais dance até então, com uso mais abrangente de sintetizadores, no entanto sem abandonar a orquestração orgânica nas canções.

Veja nossa análise faixa a faixa
               
1. Agnus Dei (Cordeiro de Deus)
O álbum já começa com um balido de cordeiro e com um clima medieval e assustador, pois a primeira faixa contém versos em latim declamados tanto por ela quanto pelo ator Christopher Thompson, pertencentes à oração cristã homônima. Aqui se usa vocabulário litúrgico católico.

Com uma batida densa e barroca, essa faixa não se parece em nada com uma oração cristã. A letra é um tanto irreverente, e ao final, o eu-lírico diz que está 'excomungado' e prefere ir-se embora do mundo. Talvez seja uma crítica aos conservadores cristãos que a censuraram no começo da carreira.

Agnus dei qui tollis peccata mundi, miserere nobis, miserere nobis

2. Désenchantée (Desencantada)
O primeiro single do álbum é simplesmente a música mais famosa e bem sucedida da carreira de Mylène Farmer até hoje. E não é pra menos, essa faixa é simplesmente grandiosa.

A letra desse smash hit é bastante existencialista, onde o eu-lírico confronta sua grande lucidez e percepção dos acontecimentos com o próprio absurdo do mundo, dessa forma se assemelhando liricamente a hits anteriores como "Ainsi soit-je..." e "A quoi je sers..." (Para que sirvo...), sendo que este último não entrou em nenhum álbum de estúdio, e foi lançado para promover a primeira turnê da cantora.

É um single bastante dinâmico e dance, já começando um notas de piano bastante particulares. Aqui, contrasta-se no refrão uma batida vigorosa com a letra cantada de forma mais lenta, com cada sílaba durando mais tempo que no resto da música (como que para firmar  a mensagem).

O clipe não poderia ser menos espetacular. Durando quase onze minutos, mostra uma espécie da campo de concentração, onde adultos e crianças são escravizados e maltratados, até que a personagem de Mylène lidera uma rebelião, que culmina em um grande grupo correndo em um campo gelado com um grande sentimento de "e agora?". Esse final, de certa forma ambíguo, é inspirado em 'A liberdade guiando o povo', pintura de Eugène Delacroix. Há referências ao messianismo, onde Mylène personifica o espírito de liberdade ao encabeçar a revolta.


3. L'autre (O outro)
A canção que dá nome ao álbum não foi single e, ao contrário do que se poderia pensar levando em consideração as outras músicas, é até otimista.

É uma balada gostosa de se ouvir, com uma batida não tão lenta, bem típica do fim dos anos oitenta e começo dos anos noventa. Mesmo assim, não é a música mais memorável do álbum.

A letra fala da espera por uma espécie de alterego, um 'anjo da guarda' que ajudaria Mylène ao longo da vida. Se trata-se do amor, de algum ser sobre-humano ou divino, ou simplesmente algum otimismo ou fé, dependendo da interpretação do ouvinte.

4. Je t'aime mélancolie (Te amo, melancolia)
O terceiro single do álbum é, apesar do título indicar o contrário, a música mais dance pop e animada do álbum.

Liricamente, ela exalta a melancolia como um dos temas preferidos da cantora, inclusive fazendo uma crítica ácida aos jornalistas que a descreveram como uma cantora falsamente melancólica. Na letra, ela age como observadora da própria vida e mostra o papel importante que a melancolia tem para ela, numa letra densa e pesada, aliviada por em refrão mais leve.

Este é o clipe mais simples da era. Mostra Mylène num ringue de boxe, numa luta com um homem muito maior que usa de golpes ilegais, mas no fim é vencido pela cantora. O homem simboliza a imprensa que a massacrou em alguns momentos, a própria autoridade imposta sobre ela e talvez até os aspectos masculinos de sua alma (se lembram da ambiguidade sexual de "Sans Contrefaçon"?). Talvez por isso o vídeo tenha sido aclamado por movimentos LGBT e feministas, ajudando a construir o status de Mylène Farmer como gay icon.


5. Psychiatrich (Psiquiátrico)
Depois do alívio de "Je t'aime melancolie", Mylène volta a ficar densa e, de certa forma, assustadora. Essa faixa era b-side de "Allan", cuja versão ao vivo foi tornada single para promover sua primeira turnê.

Além da batida pesada e barroca, o que dá o clima de terror são os samples do filme O Homem Elefante (I am a human being, I am not an animal) e a palavra 'psychiatric' repetida várias vezes. Esse filme conta a história de Joseph Merrick, que era tratado como uma aberração de circo pela sociedade londrina por conta de uma doença que o deformou, sendo reduzido à versão mais degradante do ser humano.

A letra contém apenas dois versos ('it's easy this time/to loose my mind') em uma melodia bastante dance e dinâmica. É o tipo de música que faz pensar 'estou dançando, mas meu coração diz que é errado'.

6. Regrets (Arrependimentos) feat. Jean-Louis Murat
O segundo single do álbum e primeiro dueto da carreira de Mylène Farmer é simplesmente lindo. Basicamente, fala da dor profunda e da melancolia causada pela morte de um grande amor, que o eu-lírico tenta superar pelo seu ingresso no mundo dos sonhos e das boas memórias construídas.

Musicalmente, a voz forte e máscula de Murat combina perfeitamente com a voz suave e delicada de Mylène. Apesar de ser uma balada e lidar com um tema pesado, a melodia não é tão triste quanto tudo indica, de forma que após o término da música, o ouvinte não se sente deprimido, mas em paz.

Essa faixa tem um clipe simples, mas não por isso menos forte. Se passa num cemitério, onde os amantes se encontram e revivem algumas memórias (mesmo um deles estando morto), terminando com a despedida de Mylène.


7. Pas de doutes (Sem dúvidas)
Inicialmente planejada para ser o quarto single do álbum, esta música é uma das mais divertidas do álbum.

É uma faixa bastante alegre, com uma batida elegante e animada, com as sílabas poéticas bem demarcadas, principalmente no começo de cada verso.

À primeira vista, parece contar a história de um casal cujo homem parece distante e pouco disposto a formar laços e arcar com as responsabilidades de um relacionamento. No entanto, lendo a letra com um olhar mais malicioso, dá pra perceber que ela tem um duplo sentido, podendo também falar sobre ejaculação precoce.

8. Il n'y a pas d'ailleurs (Não há outro lugar)
Esta é uma faixa bastante obscura, onde Mylène parece desabafar com outra pessoa, queixando-se da vida e pensando em suicídio. No entanto, esse a quem ela se endereça recomenda que ela deixe de pensar nisso e aprenda a gostar da vida.

Esse correspondente de Mylène repete a frase-título do álbum, como se dissesse que essa é a única vida que o eu-lírico  tem, que não há nada do outro lado.

Arrastada em certos pontos e cantada com uma voz chorosa em alguns pedaços, a música é bastante triste e termina com algo que aparenta uma marcha militar. Seriam os pensamentos de um soldado se encaminhando para a morte certa no campo de batalha?

9. Beyond my control (Além do meu controle)
O quarto e último single dessa obra de arte é uma das músicas mais sensuais de toda a carreira da cantora. A música foi inspirada no romance epistolar Ligações Perigosas (de Chonderlos de Laclos), particularmente nos personagens Marquesa de Merteuil e Visconde de Valmont, inclusive tendo um sample da adaptação cinematográfica do livro na música ("it's beyond my control!'', dito pelo Visconde de Valmont, estrelado por John Malkovich).

Tematicamente, lida com autocontrole (ou falta dele) e conta a história de uma mulher que assassina o marido infiel após uma noite de amor. Como dito, é uma música bastante sensual, onde o sample de John Malkovich casa perfeitamente com o refrão poderoso. A voz delicada e lamuriosa de Mylène em certos pontos parece um gemido, dando o clima à música, que é um pop elegante e que fica na cabeça por um tempo.

O clipe é bastante erótico, com direito a nu frontal. É importante lembrar que relação dos europeus com nudez é menos puritana que a dos americanos. Não é um clipe linear, alterna cenas de Mylène queimando numa pira (alusão ao desejo sexual e à punição pelo crime), sexo com o 'marido' e lobos comendo uma carcaça. Apesar da violência, é um clipe lindo.


10. Nous souviendrons-nous (Nós nos lembraremos)
O álbum é fechado por uma balada bastante calma, mas não por isso menos elegante e bem instrumentada.

É uma música repleta de metalinguagem. Fala basicamente da dúvida quanto à própria carreira de Mylène, onde ela se pergunta se as pessoas se lembrariam dela se ela simplesmente parasse de cantar, evocando medos e dúvidas.

Sua melodia é bastante calma e usa alguns samples de "Désenchantée" na instrumentação. Reconhecendo sua própria fraqueza e suas dúvidas, Mylène se torna cada vez mais humana e próxima de seus ouvintes.
            
Letra: 10,0
Melodia e Instrumentação: 9,5
Vocais: 9,5
Videografia: 9,0
Identidade Visual: 9,0
Nota final: 9,4


Especial Mylène Farmer III: L'autre..., a consagração Especial Mylène Farmer III: L'autre..., a consagração Reviewed by Wilson Barroso on terça-feira, maio 02, 2017 Rating: 5