Especial Mylène Farmer II: Ainsi soit-je..., música e literatura

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1. Cendres de lune (1986)

Após o debut tenebroso e sangrento, o grande público francês não conseguiu digerir bem a estreante Mylène Farmer, simplesmente sabendo o que pensar. Apesar de "Libertine" ter sido um hit, o álbum em si não convenceu o público, fazendo a cantora ser considerada por muitos pouco mais que um exótico passatempo.
               
A resposta viria em 14 de Março de 1988 e destruiria qualquer dúvida que restasse sobre o talento da novata. "Ainsi soit-je..." ("Assim seja eu...", um trocadilho com a expressão "ainsi soit-il'', que significa ''assim seja'' ou simplesmente ''amém'') vendeu mais de 1,5 milhões de exemplares somente na França, sendo seu primeiro disco de diamante. Mais que isso, foi apenas após o lançamento deste álbum que seu antecessor apareceu nos charts franceses em posições satisfatórias.

O álbum em si é menos violento do que seu antecessor, e é repleto de referências literárias. No entanto, ainda é bastante sombrio, tocando em temas como doença mental, suicídio, ambiguidade sexual e passagem do tempo. Assim como seu primeiro trabalho, este foi aclamado pela crítica, sendo até hoje considerado uma das obras primas da cantora, o que só enaltece seu talento como compositora, já que todas as letras de "Ainsi soit-je..." foram escritas por ela. Também é um álbum menos internacionalista, com sonoridade bastante afrancesada, sendo melhor orquestrado e com efeitos mais inteligentes do que "Cendres de lune".

Veja nossa análise faixa a faixa

1. L'horloge (O relógio)
Mais do que uma mera referência literária, essa faixa é simplesmente um poema completo de Charles Baudelaire, um dos maiores poetas da França. O poema lida com a passagem de tempo, que culmina na morte, lembrando tematicamente o single "Plus grandir", do álbum anterior.

Musicalmente, a declamação do poema foi enriquecida com barulhos de pêndulo e choros de bebês, intercalando com uma voz masculina exclamando a frase souviens-toi! (lembre-se!). É uma obra-prima em cima de outra, tanto que essa faixa foi utilizada na abertura da primeira turnê de Mylène Farmer, que começaria em 1989.

2. Sans contrefaçon (Sem falsificação)
Essa faixa é, merecidamente, um dos maiores hits de Mylène Farmer. O primeiro single do álbum lida com ambiguidade sexual e é, de certa forma, autobiográfico, visto que a cantora disse em várias entrevistas que era um tanto andrógina quando criança, sendo muitas vezes confundida com um garoto. Ambiguidade essa que era encorajada com o hábito de Mylène de por um lenço nas calças para avolumar a virilha.

A música já começa com um ritmo bem característico que prende desde o começo a atenção do ouvinte, mas sem deixá-lo aflito como em "Tristana". Ao contrário do que se espera, é animada, e nada sombria. É um pop oitentista bastante elegante e gostoso de ouvir. Foi usado o recurso de frases faladas na música, e logo no começo se ouve uma voz infantil dizendo ''dis maman, pourquoi je ne suis pas un garçon?''  (diz mamãe, porque não sou um menino?). É importante citar que essa faixa catapultou Mylène ao status de gay icon.

O clipe, mais uma vez é um curta-metragem, durando quase nove minutos. É fortemente inspirado em "Pinocchio", e questiona a alienação dos próprios desejos em favor das vontades alheias (representado pelo boneco-masculino-Mylène), o que casa perfeitamente com a letra da música.


3. Allan               
Se em 1986 a faixa "Greta" homenageava a diva do cinema Greta Garbo, essa faixa homenageia o escritor e poeta norte-americano Edgar Allan Poe. Liricamente, assim como em "Greta", são feitas várias referências ao trabalho e à vida do homenageado.

Sua melodia é de um bom pop oitentista mesclado com chanson francesa, apesar dos primeiros segundos parecerem com uma trilha sonora de terror. O nome do homenageado é repetido várias vezes ao longo da música e, mesmo que atmosfera indique que não, é uma faixa bastante dance.

4. Pourvu qu'elles soient douces (Desde que estejam macias)
O terceiro single do álbum é, assim como a faixa anterior, um dos maiores hits da cantora. Ao contrário das outras músicas, é uma canção pouco subjetiva quanto ao tema, sendo preciso pensar pouco pra perceber que se trata de um verdadeiro ode ao sexo anal. No entanto, o uso abundante de aliterações e o ritmo dinâmico e dançante da faixa não escancaram o tema.

É uma faixa bastante contagiante, principalmente a versão remixada, que foi efetivamente usada no clipe, que aliás é o mais longo até então da cantora, somando quase dezoito minutos. Ele é a segunda parte do clipe de "Libertine": os dois juntos somam quase meia hora. Assim como em sua 'primeira parte', se passa na França do século XVIII, durante a Guerra dos Sete Anos.

O clipe termina de forma violenta, com direito a sangue, tiros e cadáveres. Nessa fase da carreira de Mylène Farmer, os clipes são bastante misantropos, fruto do pessimismo da artista.


5. La ronde triste (O passeio triste)
Apesar do título dessa música ser em francês, ela é cantada em inglês. A letra evoca o suicídio, enquanto o eu-lírico se queixa que se sente desolado e que a vida não vale mais a pena, provavelmente resultado de desilusões amorosas, assim como na faixa "Au bout de la nuit", do álbum anterior.

Musicalmente, ela utiliza novamente o recurso se encaixar frases faladas na música. No caso, uma voz masculina repete ''don't cry''. Curiosamente, no encarte, está escrito ''don't quite''. Tem um piano bem demarcado no começo e, apesar de tudo indicar o contrário, não é uma música depressiva ou excessivamente melancólica, pois tem o ritmo e a batida característica do álbum.

6. Ainsi soit-je... (Assim seja eu...)
A canção título e segundo single do álbum é também a canção mais longa desta obra, e mesmo assim, não é cansativa. Em pouco mais de seis minutos, Mylene discorre lindamente sobre a dor de viver, focando na inutilidade e falta de propósito da vida. O trocadilho com a expressão cristã ''ainsi soit-il'' sugere que a religião da cantora é a desilusão e a tristeza, sendo essa uma das canções mais existencialistas de sua carreira.

Musicalmente, é uma balada com o ritmo bem demarcado, onde em certos momentos a vocalista utiliza notas agudas pra simbolizar seu desalento, o que funciona bastante, a ponto de serem usadas em outras canções de seu repertório,

O clipe desta canção é mais curto que é faixa no álbum, e pela primeira vez, não tem uma linha do tempo nem conta uma história. Tem referências claras a Bambi, e mostra Mylène cantando em ambientes que trazem de forma semiótica uma sensação de melancolia.


7. Sans logique (Sem lógica)
O quarto e último single do álbum é de longe o mais sombrio dos quatro. A letra fala sobre um distúrbio chamado 'Transtorno de identidade dissociativa' através de um olhar religioso, principalmente quando se fala de 'diabo' e 'anjo' interiores. Foca-se também na dificuldade de manter um 'eu' inteiro, visto que um dos traços dessa doença é justamente a fragmentação da personalidade, como se dentro da mente vivessem várias 'almas' distintas (no caso, a angelical e a demoníaca).

Mais uma vez, se usa o recurso de inserir um trecho falado na música, mas dessa vez fazendo referência a problemas durante a gravação desta faixa em estúdio (''this is a blanked formatted diskette'').

Melodicamente, essa faixa é grandiosa. Tem uma melodia e instrumentação muito próprias, inclusive com castanholas ocasionais, que mantêm o clima do tenso da faixa. Apesar do assunto, é uma canção bastante dance, com sobreposição vocal em alguns pontos.

O videoclipe é uma obra a parte, que mostra uma espécie de tourada humana em um terreno devastado. Em certo momento, há uma espécie de 'possessão' de Mylène pela sua 'alma demoníaca', culminando num assassinato e na mesma chorando sangue. Há uma segunda interpretação, de que se trata de um relacionamento abusivo, mas este clipe é tão grandioso que ambas as interpretações se encaixam e compõe um dos melhores da carreira de Mylène Farmer.


 8. Jardin de Vienne (Jardim de Viena)
Mais uma vez, a música confronta um pensamento infantil diante de um acontecimento considerado 'pesado'. Assim como "Chloe" e "Plus grandir", faixas do álbum anterior, o eu-lírico infantil se encontra confuso e desorientado diante de um acontecimento impróprio para sua idade.

Musicalmente, esta canção se parece vagamente com uma canção de ninar, enquanto a letra mostra certa confusão do eu-lírico diante de um garoto que se enforcou num jardim em Viena. No início, há samples da ópera alemã Tannhäuser (de Richard Wagner), e no refrão, a morte do garoto é vista como uma libertação.

9. Dèshabillez-moi (Desnude-me)
Esse é o primeiro cover de Mylène Farmer. Cantada originalmente em 1967 por Juliette Gréco, esta faixa fala sobre um homem despindo uma mulher de diversas maneiras.

Na regravação de Mylène, cada pedaço da música é cantado com pronúncias e entonações diferentes, como se pertencessem a mulheres distintas, como uma burguesa de meia-idade, uma prostituta e uma adolescente. Apesar de ser uma música de chanson française quase pura, não é muito interessante, apenas prepara o leitor para o fim do álbum.

10. The Farmer's conclusion (A conclusão de Farmer)
Apesar do título em inglês, trata-se de uma faixa instrumental. Ela brinca com o sobrenome artístico da cantora, visto que 'farmer' significa 'fazendeiro(a)' em inglês, e se parece com o termo em francês (fermiére).

O som contém um ritmo caótico recheado com barulhos de animais de fazenda (como porcos e vacas) misturados com murmúrios da própria Mylêne.

Ao contrário do álbum anterior, que era finalizado por um instrumental aterrador, esta canção termina o álbum de forma bem-humorada, como que para aliviar o clima pesado e escuro que essa obra-prima da música francesa proporciona.
           
Letra: 9,0
Melodia e Instrumentação: 9,0
Vocais: 9.0
Videografia: 10,0
Identidade Visual: 8,0
NOTA FINAL: 9,0



Especial Mylène Farmer II: Ainsi soit-je..., música e literatura Especial Mylène Farmer II: Ainsi soit-je..., música e literatura Reviewed by Wilson Barroso on segunda-feira, maio 01, 2017 Rating: 5