Pop demais para ser rock, Paramore se reinventa em "After Laughter"


A palavra-chave aqui é RENOVAÇÃO. Afinal, após mais de 10 anos de carreira, começar do zero pode ser algo complicado, ainda mais para quem já passou por tantos altos e baixos, como a banda Paramore. De 2004 até hoje foram membros que iam e voltavam, problemas com depressão e muitos outros fantasmas que assolaram Hayley Williams e seu time.

O ensaiado retorno, acontece quatro anos após o lançamento de seu álbum autointitulado. De lá para cá, muita coisa mudou no mundo e, acreditem, neles também! Talvez a mais notável seja o retorno de Zac Farro à banda. Sua maestria no comando da bateria é notável, mas é a diferença que sua aura traz que impressiona. Assim como declarou em várias entrevistas, Hayley sente-se inspirada com a presença do músico e isso é perceptível: como as letras de seu mais novo álbum, "After Laughter", são inspiradas e inteligentes! Daquelas de fazer pensar sem deixar de dançar a canção. 

Com certeza, a banda ainda tem muito a provar com a nova sonoridade assumida no álbum, mas quem disse que eles se importam? O objetivo aqui é fazer o que sempre quiseram, cantar os sentimentos que ainda não foram digeridos de uma forma nunca antes feita por eles e, pelo que vimos, foi muito bem alcançado!

Confira a nossa análise faixa-a-faixa do hinário álbum "After Laughter":

01. "Hard Times"
A canção é o que podemos chamar de música visual em sua essência, apenas de ouvi-la é possível perceber toda a estética da nova era que se inicia para a banda. Muita animação, cores e euforia mascaram letras fortes e de profundas reflexões. O jeito Hayley Williams de cantar a realidade, aperfeiçoando a fórmula de "Ain't It Fun", single de seu último álbum, "Paramore". A canção foi recebida com surpresa pelos fãs mais antigos da banda, que aguardavam um possível retorno às origens com a volta do baterista Zac Farro. A faixa é ironicamente tropical e cheia de vida, uma vez que sua letra fala exatamente das dificuldades da vida e daquela famigerada vontade de estar morta.

Assista ao clipe de "Hard Times":


02. "Rose-Colored Boy"
Primeiro a gente grita "QUE HINO!!!" e depois a gente ouve. 
Quem nunca teve aquele colega que consegue estar animado às 7:00 de uma quarta-feira chuvosa? Essa é a versão tupiniqum do rose-colored boy, o cara que, diante de todas as adversidades e tretas, consegue ver o lado positivo da coisa, mesmo quando ninguém mais quer fazê-lo. A canção é uma das mais pop feitas pela banda, o que é incrivelmente bom, parecido ter sido extraída diretamente de um álbum da Cindy Lauper. Ponto positivo pra eles!

03. "Told You So"
É um saco ouvir aquele "Eu te avisei", não é? Hayley discorre sobre isso na música menos linear do álbum. A faixa vem permeada de reviravoltas e quebras de ritmo ao longo do tempo e é, de longe, uma das mais grudentas do disco (O "throw me into the fire" fala por si só!). Vale a ouvida e a apreciação do belíssimo clipe também.

Assista ao clipe de "Told You So":



04. "Forgiveness"
Passada a santíssima trindade, chega a primeira "baladinha" do álbum, mais anos 80 do que nunca! Aqui a banda canta sobre a dificuldade de perdoar aquele vacilo do parceiro. É também nessa faixa que encontramos o liricismo de Hayley em sua expressão mais pura, são quotes maravilhosos, dentre os quais vale a pena citar: "Forgiving is not forgetting", afinal, quem perdoa é Deus, a gente tá aqui é pra anotar os vacilos e escrever música de derrota depois mesmo!

05. "Fake Happy"
Quando começa, já vem aquela ideia de "mais uma baladinha pra conta" mas, DAMN HAYLEY! Que  reviravoltona do caramba! Os sintetizadores mostram que a up-tempo mais épica do álbum está começando e veio para expor a chatice que é ser obrigado a sorrir e mostrar que está sempre feliz para todo mundo e o quanto a aparência da felicidade é algo completamente superficial. Vale ressaltar a teatralidade vocal da cantora que, aqui, consegue nos fazer imaginá-la cantando cada verso, inclusive no risinho entre os dentes quando canta a palavra teeth. A faixa é cheia de paraparapapas (você quer, "Brick By Boring Brick"?) e, assim como o restante do álbum fala de coisa séria com música descontraída, GE-NI-AL!

06. "26"
Essa é, sem dúvidas, a música mais calma até então. Aqui, Hayley fala das dificuldades da idade (tema que aparecerá novamente) e de um relacionamento que não deu certo... Seu refrão, calminho, nos entrega uma letra digna de um hino de empoderamento: "Eles dizem que sonhar é de graça/Mas eu não me importaria se me custasse algo". É boa, mas fica apagada depois da sequência de tiros que recebemos aqui.

07. "Pool"
É maravilhoso ver uma canção sobre relacionamentos reais, daqueles que machucam, que às vezes vacilam, erram, mas não deixam de acontecer. Afinal, nem só de buquês e canções utópicas vive o pop-rock. Sincera até a alma, a vocalista entoa a música afirmando que, apesar de todos os pesares, não deixaria de mergulhar de cabeça novamente nesse relacionamento atípico. A faixa remete aos pop anthems dos anos 80, em toda sua maestralidade e harmonia. Não é daquelas de ralar a bunda no chão mas, definitivamente, vai te fazer mexer os pezinhos.

08. "Grudges"
Pra que guardar mágoa, não é mesmo? De acordo com Hayley Williams, essa era uma canção necessária e tinha que falar sobre coisas nostálgicas, daí veio a brilhante ideia de fazê-la sobre o retorno de Zac (baterista) à banda. É interessante ver a discussão e retomada da amizade de ambos acontecendo dentro de uma música mas, infelizmente, ela não cresce muito e fica aquém das outras pérolas presentes no disco. Apesar disso, o ritmo é uma delicinha!  Vale a ouvida, o problema é valer o estupro do repeat...

09. "Caught In the Middle"
A crise dos 25 chega para todos e é sobre ela que Hayley faz música aqui. Com cara e estrutura de filler, a música tenta emplacar, e até consegue lá pro final, mas sua estrutura acaba se tornando cansativa e repetitiva demais. Vale ressaltar que o melhor quote do álbum está nessa faixa, afinal quem precisa de ajuda quando pode sabotar a si mesmo? Com certeza "I don't need no help/I can sabotage me by myself" já é a nossa religião a partir de agora.

10. "Idle Worship"
Com um trocadilho para "Idol Worship" (adoração de ídolos), a banda traz a "adoração de inúteis", afinal, Hayley e sua trupe não são tudo o que os fãs imaginam, assim como todos nós, em nossos relacionamentos e vidas pessoais. A canção é fantástica na sua proposta e é uma das raras que poderia se encaixar facilmente em outros álbuns do grupo. 

11. "No Friend"
O hipnotizante instrumental, logo revela a narração de Aaron Weiss (da banda MewithouYou) que, através de analogias a letras antigas de Paramore, conta a trajetória deles, em meio a um constante fade.
Tudo isso prepara o caminho para o final do álbum, mas não sem antes arrasar quarteirões com...

12. "Tell Me How"
Quem esperava o fim do álbum com uma música animada consistente com as outras faixas, foi pego de surpresa. "Tell Me How" tem uma melodia suave encontrada em poucas outras músicas da banda valorizando a voz de Hayley, mas aqui o grande trunfo é a composição, rica em detalhes sobre perdas, finais de amizades e parcerias e decisões cruciais para o futuro. Ficam as analogias e questões: A banda está falando sobre si? É um relacionamento que deu errado? Sufocar ou deixar partir? 
A grande certeza que fica é que estamos diante de uma pérola pop-rock que, aliada ao álbum de onde veio, figura entre os melhores discos da banda e até mesmo do ano!
Pop demais para ser rock, Paramore se reinventa em "After Laughter" Pop demais para ser rock, Paramore se reinventa em "After Laughter" Reviewed by Raphael Mota on quarta-feira, maio 17, 2017 Rating: 5