Especial Mylène Farmer I: Cendres de lune, o nascimento das trevas


Oh, l'amour... Era de se esperar que no país de Edith Piaf e Dalida, uma das maiores cantoras francesas da história chegasse ao estrelato cantando sobre o amor e suas angústias. Erro feio, erro rude.

Mylène Farmer se consagrou na história da música francesa cantando sobre temas controversos, como loucura, suicídio e desalento, recheados referências cinematográficas, literárias e filosóficas.

Nascida no Canadá em 12 de Setembro de 1961, Mylène foi precocemente para a França, terra de seus pais. Lá, começou sua carreira de modelo, até ser chamada pelo amigo Laurent Boutonnat para participar de um clipe de uma música um tanto quanto controversa chamada “Maman a tort”. Aparentemente, ela tomou gosto pela coisa, firmando uma parceria extremamente bem-sucedida com Laurent, que permitiu o surgimento de seu primeiro álbum, Cendres de lune(Cinzas da lua, em tradução livre), que vendeu cerca de 400mil unidades, sendo classificado com disco de ouro duplo na França.

O abre-alas da discografia de Mylène Farmer foi lançado em 1º de Abril de 1986, ao mesmo tempo de seu quarto single, o hit “Libertine”. A versão original contém nove faixas, enquanto seu relançamento tem doze, pois foi acrescido de um single inédito (“Tristana”) e dois remixes (“Libertine Special Remix Club” e “Tristana Remix Club”).

Apesar da aclamação crítica, o álbum não foi tão bem comercialmente perto de seu lançamento se comparado aos discos seguintes, mas teve um verdadeiro revival com os álbuns seguintes e a consolidação da carreira de Mylène.

Este é um álbum pesado, tanto em temática quanto em melodia. Os instrumentos produzem uma atmosfera sombria, associada à própria nostalgia dos anos oitenta. É um disco agridoce, preterido pela maior parte dos fãs, mas não é motivo para desistir da cantora. Afinal, todo parto tem suas dores e feridas, e com Mylène não poderia ser diferente.

Veja nossa análise faixa  a faixa
               
1. Libertine (Libertina)
Este foi o quarto single do álbum e a faixa responsável pelo sucesso comercial moderado do disco. É de longe a música mais comercial e pop do álbum, com direito a refrão grudento, responsável por catapultar Mylène no cancioneiro francês. É uma música que fala basicamente sobre sexo, onde o eu-lírico assume ser 'libertino' e que gosta de sexo sem imposição de padrões morais, o que não o diminui como pessoa, sendo que o mesmo ainda pode encontrar o amor.

Esta faixa teve um clipe bastante caro pra época, principalmente sendo de uma artista iniciante. O vídeo tem quase onze minutos de duração e se passa na França do século XVIII, com direitos a orgias, banquetes, jogatina e muito nu frontal. Aqui, Mylène já mostra seu gosto para brincar com ambigüidade de gênero. O vídeo é continuado pelo clipe de um single do álbum seguinte, o que soma quase meia hora de uma curta metragem com o plot bastante bem feito. Vale a pena conferir.

               
2. Au bout de la nuit (No fim da noite)
Essa faixa fala sobre suicídio após um término. A primeira parte da letra glorifica o amor, enquanto a segunda fala do fim do relacionamento, que a leva a uma solidão esmagadora que culmina no suicídio do eu-lírico.

Não é uma música memorável do álbum, pois não há muita diferença entre o refrão, o gancho e o resto da letra, o que torna a música um tanto mecânica em certo ponto. Ela nunca foi cantada em turnê, apenas algumas vezes na televisão francesa.
                                            
3. Vieux bouc (Bode velho)
Muitas vezes brincamos que algumas artistas renovaram o 'pacto' após reatingir do topo depois de ter estado por baixo. Nesse caso, não há espaço pra especulação, pois essa faixa fala sobre um sabá de bruxas, um pacto ritualístico, onde o 'bode velho' é exatamente o diabo.

Essa música expõe o misticismo e o apelo ao sobrenatural que Mylène desenvolve ao longo de sua carreira. É uma música rica, que inclui balidos de cabras, vozes de crianças e até um coro de igreja no fim. É uma música quase falada, com tanta suavidade que às vezes nem se lembra do teor da música. Tem muitos trocadilhos, um instrumental relativamente rico, é uma canção com a cara da Mylène.

4. Tristana         
O quinto e último single do álbum (exclusivo da segunda edição) já começa com uma flauta de Pã tocando de forma que deixa o ouvinte aflito e atento. É uma canção que já traz uma carga sombria desde o começo. Ela lida com sangue e morte, tema recorrente ao longo da discografia da cantora.

Instrumentalmente, é uma das canções mais ricas do álbum, conseguindo ser sombria e pop ao mesmo tempo, o que reflete em seu clipe.

O vídeo de “Tristana”, assim como o de “Libertine”, é uma curta metragem que dura quase doze minutos, e é basicamente a história de A Branca de Neve contada num contexto da Revolução Russa, como direito a czarina má e anões operários, além de cenas de guerra, próprias da revolução.


 5. Chloe
“Chloe” é de longe a música mais assustadora do álbum, do tipo de fazer o ouvinte pular a faixa se estiver de noite. Ela soa como uma canção de ninar com alguns sons sombrios, como portas rangendo.
               
Essa música conta a história de Chloe, a irmã do eu-lírico que morreu afogada. Ao decorrer da faixa, se tem a impressão de que a irmã sobrevivente está à beira da loucura, cantando uma canção de ninar sobre a irmãzinha morta PARA a irmãzinha morta.

A última frase se destaca do resto da música, e diz "Chloe! Pourquoi t'es partie?'' (Chloe, porque você se foi?), o que é a cereja do bolo dessa música tão macabra.

6. Maman a tort (Mamãe errou)
De 1984, esse foi o primeiro single do álbum e de toda a carreira de Mylène Farmer. A melodia é bem boba, com direito a 'tchurururu' e tudo. No clipe, ela está de camisola, cantando em frente a um fundo de céu noturno, sendo assistida por três crianças.

Mas não se engane, apesar de soar como uma música do Xuxa Só Para Baixinhos, essa faixa lida com uma menina doente com conflitos sérios com a mãe (o que lança um ar psicanalítico sobre a letra), que acaba se apaixonando por uma enfermeira do mesmo sexo do hospital onde ela é internada.

Homossexualidade, psicanálise, melodia inocente. Essa é a gênese do universo Farmer, cimentando seu estilo conceitual sobre as músicas que viriam.


7. We'll never die (Nunca vamos morrer)
Apesar do título em inglês, o terceiro single (apenas no Canadá, sem direito a clipe) é cantado em francês. É uma música que soa como um rock indie oitentista, com o título da música sendo repetido ao fundo várias vezes.

Ela conta a história de um garoto que entra na guerra em nome de sua mãe, guerra essa que parece ser a entre Israel e Palestina, devido a algumas referências ao longo do texto.

Mas essa é apenas a ambientação da música. O grande foco do texto é a inutilidade e a falta de sentido da guerra diante da mortalidade do ser humano, fortemente influenciado por textos de Sartre. Sem dúvida, merecia um clipe.

8. Greta
Essa é uma faixa que homenageia e história de Greta Garbo, uma das grandes divas do cinema, aludindo a episódios de sua vida e citações de seus filmes. Melodicamente, soa um pouco como “Au bout de La nuit” sendo igualmente pobre e mecânica em certos pontos

9. Plus grandir (Mais crescer)
O título dessa faixa não faz muito sentido quando lido isoladamente. Mas, no refrão (plus grandir, j'veux plus grandir, ou 'mais crescer, quero mais crescer') ele finalmente toma seu lugar, ajudando a explicar o tema da canção, que é sobre o medo de envelhecer deixar a infância.

O segundo single do álbum tem uma melodia bastante pop, com a introdução um tanto infantil, explodindo pra um xilofone nervoso no refrão (bem como antes de Mylène começar a cantar). Esse tipo de melodia chega a ser irônico para um tema tão sério.

O videoclipe dessa faixa é repleto de simbolismos, e mostra as três fases da vida (infância, maturidade e velhice) em três ambientes distintos (o cemitério, a casa abandonada e a igreja). É um clipe rico, denso e sutil, a ponto de merecer um texto do Danizudo.


10. Cendres de lune (Cinzas da Lua)
O disco fecha com uma música instrumental de menos de dois minutos. Esse epílogo soa como a trilha sonora de um filme de terror, lembrando os filmes de Hitchcock. Um cantarolar distorcido, barulhos de gotas e fechaduras rangendo dão o clima sombrio deste encerramento.

Nunca foi cantada ou performada, no entanto, está presente na abertura e no final do clipe de “Plus Grandir”, o que justifica uma estar após a outra no alinhamento de faixas.
               
Letra: 8,0
Melodia e Instrumentação: 8,0
Vocais: 7,5
Videografia: 9,0
Identidade Visual: 6,5
NOTA FINAL: 7,8


Especial Mylène Farmer I: Cendres de lune, o nascimento das trevas Especial Mylène Farmer I: Cendres de lune, o nascimento das trevas Reviewed by Wilson Barroso on domingo, abril 30, 2017 Rating: 5