Análise: Tarántula, a picada peçonhenta da indústria fonográfica


Mónica Naranjo é considerada uma das maiores estrelas da música espanhola, angariando uma legião de fãs fiéis e mais de nove milhões de discos vendidos mundialmente, principalmente na Espanha e no México
.
Nascida em 23 de Maio de 1974 em Figueras, Espanha, essa geminiana é conhecida pelo amplo alcance vocal, pela inclinação operática em alguns trabalhos e por sua luta e ativismo em favor da classe LGBT, sendo, por isso, um dos maiores gay icons da Península Ibérica.

No começo de sua carreira, Mónica chegou a fazer turnês em junto de outros artistas, porém, sem alcançar sucesso na Espanha natal, seu álbum de estréia "Mónica Naranjo" foi lançado no México. O sucesso adquirido a trouxe de volta para a Espanha, onde seu álbum "Palabra de Mujer" (Palavra de Mulher) foi um sucesso absoluto, vendendo 2,3 milhões de cópias, mundialmente, das quais mais de um milhão somente na Espanha.

Até então, o estilo de Naranjo era mais comercial, tendendo ao teen pop e ao EDM. Após o estrondoso sucesso de "Palabra de Mujer", sua gravadora a tentou forçar a continuar nesse mesmo estilo, para tentar repetir o sucesso. No entanto, a artista queria gravar um álbum de versões em espanhol de seu grande ídolo, a italiana Mina. Contra a pressão da gravadora, esse projeto foi realizado, com o lançamento de "Minage", de 2000.

Em 2001, Mónica acabou cedendo, lançando "Chicas Malas" (Garotas Más) e sua versão em inglês (Bad Girls), um álbum bastante comercial lançado no intuito de repetir o sucesso de Palabra de Mujer. Em entrevistas, a artista declarou que guarda memórias ruins dessa fase, por causa da pressão da indústria fonográfica. E isso foi fundamental para a construção de um de seus melhores trabalhos.

Tarántula (Tarântula) foi lançado em 22 de Abril de 2008, tendo sido trabalhado por longos cinco anos. O título desse álbum deriva do ‘quão venenosa pode ser a indústria fonográfica’, de acordo com a própria Naranjo. Nesse álbum escuro, a cantora conseguiu desbravar sua criatividade e tomar o controle sobre seu trabalho.

Este álbum tem letras tão complexas quando Minage, mas vai mais além no sentido da experimentação, tendo influências de rock, música eletrônica e de ópera, usando inclusive passagens de línguas estrangeiras em algumas músicas. Tarántula é sobre liberdade de expressão, sobre a possibilidade de representar as coisas que acontecem na vida de uma pessoa e é bastante crítico.

Após vários anos de silêncio, a cantora estava cansada de sentir medo do fracasso. Ela afirma que apressar gravações apenas para vendê-las é uma afronta, e que um álbum pode levar quase uma década para ficar pronto, se isso respeitar sua integridade artística. A arte do álbum, assim como sua música, é escura e tende à estética gótica,. Sua capa tenta reproduzir a sensação de espanto de uma pessoa que entra num circo e se depara um ser metade humano, metade animal.

Veja nossa análise faixa a faixa:

1. Europa
O abre-alas e lead single do álbum não poderia resumir melhor o trabalho da artista, tanto na melodia quanto na letra. É melodicamente complexa, e difere bastante em sonoridades em partes distintas, alternando entre uma parte que tende à ópera e à orquestra e outra que tende ao dance e ao techno. Na segunda metade da música, essas partes se mesclam de uma forma simplesmente genial, unidas pela voz quente e poderosa de Mónica.

É uma canção sobre resiliência e renascimento. Sobre a capacidade de voltar das cinzas, não importa quão graves tenham sido os problemas passados. Para isso, a letra traça um paralelo com própria Europa, arrasada pela Segunda Guerra Mundial e renascida literalmente dos escombros.

O clipe é igualmente maravilhoso. Vê-se uma diva da ópera cuja carreira foi destruída (como a Europa pela guerra) em um ambiente macabro, com esqueletos e lápides, que é um palco destruído onde ela antes recebia aplausos e glória. Também se vê a cantora numa camisa de força controlada por um exército sem rosto, sendo uma referência tanto à sua história quanto a da própria Europa: uma cantora a ponto de desaparecer engolida por uma indústria fonográfica venenosa e um continente à beira do colapso pelas bombas e pelos tanques. Acima de tudo, é uma referência sobre o álbum em si, que a fez retomar sua integridade.


2. Todo mentira (É tudo mentira)
Depois de uma entrada agressiva, essa canção repete o tema da música anterior, falando sobre resiliência e não se deixar dobrar pelas pressões dos outros.

Aqui, Mónica nos presenteia com sua voz alcançando notas altas e agressivas numa canção bastante inclinada para o techno, complementando temática e melodicamente a música anterior.

3. Usted (Você)
Essa canção tem uma introdução um tanto quanto distorcida, e Mónica começa cantando com uma voz doce e infantil, que logo se desenvolve para sua voz potente usual, com direito a um coro suave por trás. É uma música orientada para o soft rock, entremeada pela melodia de uma caixinha de música.

A letra é uma verdadeira carta de acusação recheada de crítica social, intercalando a voz infantil de discurso ingenuamente otimista com a voz poderosa da mulher adulta criticando a falta de inteligência da voz infantil.

4. Para siempre (Para sempre)
Esta é uma música com inclinações fortíssimas ao techno, sendo a primeira parte da letra em francês. Aqui ela repete alguns acordes da parte operática de Europa, no entanto sem atingir notas tão altas.

É uma música de amor, um tanto distorcida. Aqui o eu-lírico deseja aproveitar o momento com o amante, sem pensar no futuro.

5. Amor y lujo (Amor e luxo)
O segundo single do álbum repete a temática de Usted, mas dessa vez focando na indústria do entretenimento ao invés do governo como um todo.

Esta canção começa com uma espécie de tango no piano, onde a cantora já faz uma coloratura, chegando às notas altas que sempre a acompanham, desaguando rapidamente numa melodia altamente eletrônica.

O clipe mostra uma espécie de concurso decadente de drag queens, e tem uma fotografia bastante colorida e quente, com direito a choques cromáticos constantes e muito brilho.


6. Idilio (Idílio)
Esta é uma canção muito calma e tranquila, uma balada gostosa de se ouvir, apesar de não ser uma música memorável do álbum. O instrumental discreto permite que a voz de Mónica se sobreponha. 

Acima de tudo, é bastante regular, tanto a voz quanto a melodia não tem diversidade de altura e ritmo ao longo de quase quatro minutos e meio, sendo uma pausa no peso e na coloratura vocal do álbum.É uma música sobre lembranças de um amor finito, um tema bastante suave em relação ao álbum em geral.
                 
7. Diles que no (Diga-lhes que não)
Após a pausa para respirar em Idilio, a atmosfera rock-industrial de Todo Mentira é retomada. Ao contrário da música anterior, tem uma melodia e voz pouco regulares, não sendo nada monótonas.

É mais uma vez uma crítica social, no entanto o criticado exato é pouco óbvio, e depende da interpretação de quem escuta.

8. Kambalaya
Esta música é realmente inesperada, fugindo do rock industrial e se entregando ao folk e ao étnico, com instrumentação bastante voltada para o techno dançante mesclado com música árabe.

Vale lembrar que música árabe é uma grande influência na música espanhola, por motivos históricos, visto que a Península Ibérica foi dominada por impérios muçulmanos por mais de 700 anos. Liricamente, essa canção evoca imagens medievais enquanto fala de um amor que se foi.

9. Eva
Após o êxtase dançante de Kambalaya, os instrumentais se tornam mais discretos, assim como a voz de Mónica. Levemente inclinada ao jazz, essa canção fala sobre aspectos femininos e masculinos da personalidade de uma mulher, sendo um verdadeiro hino de orgulho feminista, falando do papel sagrado da mulher no mundo e evocando frequentemente que a mulher é fonte da vida, não devendo se submeter a ninguém.

10. Amor y posesión (Amor e posse)
Se Eva proporcionava um interlúdio calmo, esta canção volta ao inudstrial e ao techno de uma forma magnífica. Apesar da introdução não dar indícios da intensidade da canção, ela explode no gancho e no refrão em termos de melodia e voz, e, mesmo que em alguns pontos as notas de Mónica sejam altíssimas, percebe-se que não são gritos, mas exercício de técnica.

Liricamente, como o título diz, fala sobre as diferenças entre amor e posse, e que o verdadeiro amor deixa os envolvidos livres, sem fazê-los sentirem-se pressionados ou presos.

11. Revolución (Revolução)
Fortemente techno, é dinâmica sem ser exatamente dançante. Esta faixa repete o tema de crítica, no caso àqueles que queriam tomar controle da vida do eu-lírico. Apesar de ser bem executada, é uma música que sobra, devido a esse tema já ter sido tão usado em canções anteriores.

Apesar dessa redundância, é uma canção bastante bem produzida, com direito a coros e todo o brilho da voz de Mónica.

12. El descanso (O descanso)
Faixa bônus da edição digipack, esse é um epílogo calmo e instrumental, com uma melodia poderosa e calma ao mesmo tempo, com vocalizações da cantora. Ela fecha o álbum como se desse ao ouvinte tempo e calma para pensar em tudo que foi dito.
                      
Letra: 9,0
Melodia e Instrumentação: 9,0
Vocais: 9,0
Videografia: 8,0
Identidade Visual: 9,0
NOTA FINAL: 8,8


Análise: Tarántula, a picada peçonhenta da indústria fonográfica Análise: Tarántula, a picada peçonhenta da indústria fonográfica Reviewed by Wilson Barroso on domingo, abril 02, 2017 Rating: 5