Análise: L'Attesa, o segundo começo


Giusy Ferreri é uma das representantes mais importantes da geração atual do pop italiano. Apesar de trabalhar com música desde 1998, Giusy chegou ao estrelato após alcançar o segundo lugar na primeira edição do X Factor italiano e lançar seu primeiro álbum (Gaetana, 2008), que chegou a impressionantes 500 mil unidades vendidas na Itália, sendo seu primeiro disco de diamante.

Nascida em 17 de Abril de 1979 em Palermo, Giusy é conhecida em toda Itália por sua voz grave e quente, sendo considerada por muitos a ‘Amy Winehouse italiana’. Seus três primeiros álbuns (contando ''Fotografie'', que é um álbum de covers) são majoritariamente pop e pop-rock, com orientação para o dance, o R’n’B e soul em algumas faixas.

No entanto, ninguém esperava que, em 25 de Março de 2014, um álbum que estava para ser lançado desde 2012 (convenientemente batizado de L’Attesa, ou ‘A Espera’) representasse uma mudança tão drástica de estilo. O quarto álbum da cantora se diferencia dos anteriores pelas influências fortíssimas de sonoridade postpunk, darkwave e até mesmo um toque de shoegaze. A própria cantora declarou que esta obra era uma espécie de ‘segundo começo’, onde ela poderia se voltar para a introspecção, tudo isso sem deixar de fazer um pop/pop rock de bastante qualidade.

Essa diferença de sonoridade é transparecida até mesmo na arte da capa. Diferentemente das capas coloridas e despojadas que a cantora vinha usando desde 2008, L’Attesa exibe o rosto da cantora em close fechado em escala de cinza enquanto olha para frente com uma expressão enigmática, em que nem mesmo seu cabelo é visto.

Veja nossa análise faixa a faixa:

1. Inciso sulla pele (Marcado sobre a pele)
O abre-alas e terceiro single do álbum ainda parece fazer parte do repertório antigo da cantora. É uma balada que trata de uma pessoa que parece não se importar com o eu-lírico, abandonando-o e maltratando-o, mas que mesmo assim não quer receber a culpa (quem nunca passou por isso?).

Não é a canção instrumentalmente mais rica do álbum, mas o piano e a bateria fazem sua parte em não deixar a faixa cair no clichê melancólico. Infelizmente, não teve videoclipe oficial.

2. Nessuno come te mi sa svegliare (Ninguém como você sabe me acordar)
Aqui já vem o primeiro choque artístico do álbum. É uma faixa com influência instrumental fortíssima do shoegaze e do darkwave, pelo menos até o refrão explodir na voz potente da cantora, que é superada pela guitarra em alguns pontos.

A letra fala de um término, onde a pessoa a qual o eu-lírico se refere vai embora. É sem dúvida um dos destaques do álbum.

3. L’amore possiede il bene (O amor possui o bem)
Tendo perdido a votação para lead single do álbum, essa faixa tem um piano bem marcado e, apesar da introdução relativamente lenta, é bastante dinâmica, tendendo ao dance no refrão e o gancho. 

 letra é um tanto boba, fala do bem que o amor faz e de como o eu-lírico gosta de estar com a pessoa amada.

4. Ti porto a cena con  me (Te levo para jantar)
O lead single do álbum é uma canção bastante tradicional, talvez por isso mesmo tenha vencido a faixa anterior na votação para ser o primeiro single do álbum. Assim como Inciso sulla pele, não mostra claramente a mudança de direção artística do álbum.

Tem um piano bastante presente acompanhando a voz de Ferreri, sendo o instrumento dominante até o final. É outra canção sobre término e fase inicial do luto pelo relacionamento.

O clipe é basicamente o que o título sugere. Um homem entra em vários restaurantes, encontrando diferentes ‘Giusys’ e com cada uma tendo uma reação diferente após conversar.


5. L’anima (A alma)
A quinta faixa do álbum é uma faixa introspectiva, que fala sobre a alma no sentido de ser a parte mais íntima e própria de cada pessoa. É um pop rock bastante elegante, aonde Giusy chega a notas inusitadas em certas partes do refrão enquanto parece cantar se dirigindo a um grupo de pessoas.

6. Per dare di piú (Para dar mais)
Esta canção é voltada para o pop rock com um leve toque de new age. De qualquer forma, é bastante uniforme, sem apresentar grandes momentos de voz ou instrumentação, podendo ser utilizada como música ambiente. É uma faixa totalmente descartável.

Já a letra evoca o passado do eu-lírico, que precisa ser levado em consideração para que ele possa evoluir e amar corretamente uma pessoa.

7. Victoria
Aqui temos uma canção mais dinâmica e grudenta em alguns pedaços. Tem elementos de música circense misturados a guitarra e bateria, o que de certa forma casa com o tema da faixa, que conta a história de uma artista de circo chamada Victoria, elogiando particularmente sua liberdade e seu ponto de vista enquanto faz acrobacias. É o 'estranho no ninho' do álbum em termos de temática.

8. Neve porpora (Neve roxa)
Após o alívio de Victoria, o álbum se adensa. O instrumental rock se aprofunda enquanto Giusy canta de forma sensualmente lenta. Em questão de letra, é psicodélica e um tanto surreal, de modo que não se pode ter uma interpretação realista que case totalmente com o texto.

9. La bevanda ha un retrogusto amaro (A bebida tem um retrogosto amargo)
A nona faixa e segundo single do álbum foi por muitos considerada o ponto alto de L’Attesa. Sua sonoridade tende bastante ao postpunk, com baixo e guitarra muito pronunciados. Musicalmente, é a canção mais ousada, criticando uso de drogas (‘Boa Noite Cinderela’) e abuso sexual que acontecem numa espécie de balada onde está o próprio eu-lírico.

Há alguns trechos em que algumas pessoas podem considerar um tipo de 'glamourização' dessas situações, mas que se aproxima mais de algum nível de Síndrome de Estocolmo do eu-lírico para com o abusador. Seja como for, pode ser um emotional trigger em algumas pessoas.

O clipe se passa numa festa punk, com a própria Giusy na indumentária característica, com direito a moicano altíssimo, sidecut e jaqueta de couro.


10. Lacrime (Lágrimas)
Iniciando com o que parece uma caixinha de música, esta faixa é uma balada poderosa, tendendo ao rock, onde a voz grave de Giusy performa um refrão marcante, fazendo os ouvintes se lembrarem da razão pela qual ela é vendida como ‘Amy Winehouse italiana’ fora da Itália. É uma canção sobre amor, fragilidade e o reconhecimento das próprias fraquezas.

11. Qualunque vita è straordinaria (Toda vida é extraordinária)
É uma canção mais calma, com piano e percussão. Como se pedisse perdão pelo peso de ter tratado de temas mais ácidos como introspecção e estupro, o álbum teoricamente termina com uma canção que se prende no clichê de ‘toda vida tem seu valor’. É uma música bastante neutra sobre a vida em si.

12. Ho ucciso Il diavolo (Eu matei o diabo)
A décima-segunda faixa do álbum é uma ghost track, ou seja, não aparece na tracklist do álbum e começa a tocar após certo tempo de silêncio que a separa de uma música que está efetivamente na tracklist, no caso, ''Qualunque vita è straordinaria''.

Sem dúvida um dos pontos altos do álbum, não merecia ser reduzida a uma mera ghost track. É bastante rock, um tanto punk e de qualquer forma bastante cativante.

A letra é um tanto surreal. Literalmente fala sobre um pacto demoníaco que o eu-lírico consegue romper e vencer o 'diabo'. Mas depois de uma análise mais subjetiva, esse diabo poderia ser qualquer tipo de força ou pressão maligna que atenta contra a cantora, quem sabe até mesmo o estuprador de "La bevanda ha un retrogusto amaro", hipótese reforçada pelo fato do termo 'íncubo', uma espécie de entidade sexual masculina maligna ter sido citado.

LETRA: 7,5
MELODIA/INSTRUMENTAÇÃO: 8,0
VOCAIS: 8,5
VIDEOGRAFIA: 3,5
IDENTIDADE VISUAL: 7,5
NOTA FINAL: 7,0



Análise: L'Attesa, o segundo começo Análise: L'Attesa, o segundo começo Reviewed by Wilson Barroso on domingo, março 26, 2017 Rating: 5