A homogeneização do pop americano (e a alternativa europeia)


Até o começo do século XX, o que se ouvia de música internacional no Brasil vinha principalmente da Europa. Dos pianos das ricas senhoritas eram ouvidas as polcas do polonês Chopin, enquanto dos fonógrafos dos barões do café tocavam as óperas-bufas do prussiano Offenbach. Essa hegemonia europeia durou até aproximadamente os anos 20, quando a Primeira Guerra Mundial e suas consequências diminuíram o impacto cultural europeu no Brasil, enquanto o jazz e o charleston floresciam nos Estados Unidos.

A Guerra Fria cimentou o domínio econômico, militar e cultural dos Estados Unidos sobre o hemisfério ocidental do planeta, o que refletiu nas escolhas musicais dos brasileiros. Enquanto a Europa se esforçava pra sair das crises causadas pelas guerras mundiais e pela independência progressiva de suas colônias na África e na Ásia, o Uncle Sam se estabelecia como referência cultural (o famigerado american way of life). Não é à toa que é comum se achar 'exótica' ou 'estranha' uma música em grego ou alemão, enquanto o inglês é onipresente nas playlists, muitas vezes mais ouvido que as línguas nativas do ouvinte, o português, no caso.

Não que a música americana não preste. Muito pelo contrário, ela nos presenteou (e ainda presenteia) com incontáveis artistas talentosíssimos, como as estrelas do jazz Nina Simone e Etta James, passando pelo rock de Jon Bon Jovi e Elvis Presley, as divas do disco Donna Summer e Diana Ross e os alicerces do pop Madonna, Cher e Cyndi Lauper. Mas a música pop americana vem passando por uma grave crise criativa.

Você já teve a sensação de que todos os lançamentos dos artistas do mainstream parecem quase iguais? Que as batidas parecem as mesmas, que as letras com literalmente dezenas de escritores dizem o mesmo e que a instrumentação é simplória e repetida eternamente? Não é impressão sua, é perceptível que nos últimos anos, o grosso da música pop americana tem sido transformada numa linha de produção, como a tênis que você calça..

Não é questão de gosto, mas fatos mensuráveis. Para mais informações sobre as pesquisas envolvidas, clique aqui. Apesar do estudo abordar 50 anos de música, esse fenômeno tem sido mais forte na última década.

A questão é: a maior parte da música popular virou mercadoria. E como tal, tem que gerar lucro. Afinal, estamos falando dos Estados Unidos, a Meca do capitalismo. De uns tempos pra cá, a principal função dessas músicas tem sido vender, e as gravadoras não hesitam em usar uma fórmula pronta pra tal. Usam uma variedade pequena de batidas e de instrumentos, com letras cada vez mais triviais e literais, com ganchos e refrões grandes. Basicamente, a música é comprimida dentro de uma forma com características já testadas e aprovadas, pois na era do streaming e do torrent, riscos financeiros não podem ser tomados.

Ou seja, a arte está sendo mutilada em nome do lucro. Mas vale ressaltar: não é que toda música e todo artista americano sejam assim, mas uma maioria considerável, o que é alarmante.

Não que isso não aconteça no resto do mundo, afinal, as pessoas também comer do outro lado do Atlântico. Mas na Europa, a venda do dinheiro não cegou totalmente os olhos da indústria musical. Obviamente, a viabilidade econômica é muito levada em consideração, mas não de forma tão extrema.

No Velho Continente, a liberdade criativa do artista não é totalmente pisada. O artista pode fazer arte, sentindo-se livre para ousar e inovar em letras e melodia, o que evita que todo um país ou o próprio continente tenham sua música uniformizada. Ou seja, por lá os artistas criativos e talentosos não ficam confinados em pequenos festivais de música indie e estações de metrô: eles tem certo alcance e espaço na mídia, sendo possível sobreviver de arte sem precisar vender a alma para uma gravadora.

Além disso, precisamos citar a variedade étnica da Europa. Cada país e povo interpreta e toca de uma certa forma, trazendo uma identidade particular e impregnando-a nas suas canções. Um artista espanhol não vai soar como um grego; nem um croata como um francês. 

Como dito logo no começo, a língua pode ser uma barreira. Ouvir uma música em italiano ou alemão pode ser estranho ou até engraçado para um ouvinte assíduo de pop americano. Mas garantimos que é um desconforto que passa rápido, somos capazes de apostar que você achou que tava ouvindo a língua dos anjos quando ouviu música americana das primeiras vezes. Porém, se for um problema muito sério para você, muitos artistas  de países europeus não-anglófonos cantam em inglês também.

Por tudo isso, para os ouvidos decepcionados com o que tem sido feito nos EUA, a Europa é uma opção maravilhosa. Podemos garantir que você vai descobrir artistas simplesmente grandiosos, que vão expandir seus horizontes. Se você gosta da controvérsia e letras inteligentes de Madonna, por exemplo, as francesas Mylène Farmer e Zazie são bons pontos de partida. Se prefere o vozeirão e a coloratura de Mariah Carey, sugerimos a  espanhola Mónica Naranjo e a belga Lara Fabian. Se ama o timbre agudo e o dinamismo de Britney Spears, talvez a estoniana Iiris ou a grega Helena Paparizou sejam um bom começo.

Mas vale reforçar: cada um escuta o que quiser. Esse é um texto direcionado para quem não se sente representado pelo pop americano. Se você se sente, sentimos dizer, mas os minutos que você perdeu lendo esse editorial não vão ter muito aproveitamento.

Seja como for, sair da zona de conforto musical nunca é uma coisa ruim: na pior das hipóteses, ouvir umas melodias diferentes e fazer umas sinapses é sempre válido.
A homogeneização do pop americano (e a alternativa europeia) A homogeneização do pop americano (e a alternativa europeia) Reviewed by Wilson Barroso on segunda-feira, março 20, 2017 Rating: 5